Às vezes me sinto como Zelig, aquele personagem do Woody Allen que assumia as características físicas das pessoas com quem andava. Comigo, a coisa funciona na esfera do literário: é só eu ler um bom livro para, em questão de segundos, transpor o olhar do autor para minha própria realidade. É um jogo bacana. Algumas vezes, a coisa chega às pontas dos dedos e contamina a produção literária, o que cria “clássicos” constrangedores. Se leio a Bíblia, por exemplo, logo me flagro escorregando para ordens inversas e vírgulas de sabedoria fora do lugar. Se o texto é acadêmico, logo emergem os “enquanto brasileiro” e os “no bojo da conjuntura”. Irresistível mimese literária.

Normalmente, porém, a experiência permanece no campo do lúdico, com o efeito colateral fantástico de ser um belo exercício de imaginação. Como o que vivi outro dia, quando, enquanto esperava no aeroporto, saquei da algibeira um pequeno volume das histórias do inspetor Maigret, de George Simenon.

É só eu ler um bom livro para, em questão de segundos, transpor o olhar do autor para minha própria realidade

Pois bem: minutos depois de enfiar o nariz no livro e chegar à Paris dos anos 30 – com seus escroques, burgueses e mulheres interessantes sempre prontas para alguma traquinagem –, voltei ao mundo real e passei a avaliar as pessoas com olhos de comissário de polícia. O executivo adolescente de primeira viagem, amarfanhado e suarento; a femme fatale, calça estourando de tão justa, celular de oncinha e sapatos de salto verdadeiramente acrobáticos. O rapaz da limpeza olhando pela janela, pensando, talvez, em como seria voar.

E, é claro, a eterna velhinha misteriosa, que, sentada quase à minha frente do outro lado da sala, parecia examinar o mundo com os mesmos olhos que eu. E que, quando me focalizou ao longe, tentou dissecar aquele polaco com uma mochila de lona e um livreto na mão. Miss Marple.

Se a leitura fosse de Stanislaw Ponte Preta, tenho certeza, a velhinha seria mais marota, a femme menos fatale e mais certinha, e o jovem executivo uma criatura apenas assustada com o “sogrão” que estaria prestes a conhecer. E todos, é claro, estariam indo para o Rio de Janeiro; e eu com eles, provavelmente para um almoço na feira de São Cristóvão, pronto a me deixar levar pelos primeiros acordes de Foguete Particular, de Batatinha. Que, de resto, nem carioca era, mas baiano. E que, mesmo assim, entra na minha crônica de aspirante Zelig a Simenon e a Stanislaw.

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