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Francisco Razzo

A ressaca da democracia

  • 08/10/2014 21:03
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Brasileiros, em geral, demonstram certa dependência do poder instituído na forma do Estado e apego incorrigível aos atores políticos. Essas eleições deixam uma impressão curiosa: participamos da política como participam os telespectadores de reality shows. Não há exatamente uma experiência de decisão necessária sobre os rumos políticos do país. Nessas condições, nossa vida política reproduz a falsa sensação de que cidadania significa escolher qual personagem preferido merece ganhar a comédia.

Vivenciar a política não se encerra no ato de votar em alguém no dia das eleições. Esta é a visão mais reduzida de política: a de que só o voto representa ato político. O dia das eleições não deveria ser tratado como festa, mas como ressaca. Não há nada para celebrar nesse dia.

O exercício de cidadania tem sido tomado de assalto por uma ideia de obrigação, e não vivido como um direito. Ninguém celebra uma festa quando tem de ir por obrigação. Esse tipo de ritual coercitivo tem mais a ver com um velório.

Conceber a democracia como festa implica a crença de que o objetivo final da vida em sociedade se restringe à forma como – e por quem – seremos governados. A atividade política não contém toda a finalidade da nossa vida. Festa é celebração. Política define-se como o conjunto de mediações possíveis que auxiliam a vida dos indivíduos em sociedade, e não o fim da sociedade.

O problema pode ser proposto assim: a democracia quer dizer que cada membro da sociedade civil participa – seja de forma direta ou representativa – do poder. E do poder compreendido não como substantivo (ser autoridade), mas como verbo transitivo (ter a possiblidade de). A primeira, motivo de celebração, expressa a fé em um dogma. A segunda, razão da ressaca, apenas um sistema que possibilita a coexistência relativamente pacífica entre os indivíduos e suas diferenças.

Por este motivo, não deixa de ser ultrajante a confusão de que na expressão de um direito está implícita a força inequívoca de uma obrigação. Toma-se comumente a democracia como "poder do povo" (substantivo). Na sua definição tradicional: a vox populi – a voz do povo. Já não mais a representação da vox Dei (voz de Deus) – conse­quência do secularismo –, mas a voz que representa a própria determinação de uma vontade geral soberana onisciente e onipotente. Razão mais do que suficiente para levantarmos algumas suspeitas em relação à democracia concebida como festa.

A noção de celebração política advém de uma expectativa redentora atribuída aos políticos e ao governo: democracia como a expressão messiânica da vontade geral soberana. Em outras palavras, a democracia entendida como soberania popular monolítica extasiada pela conquista do suposto homem livre e puro que alcançou seu último estágio da vida em sociedade.

O ponto fraco desse conceito festivo de democracia está na concepção otimista de natureza humana. Toda esperança política nasce dessa imagem de que a vontade geral soberana, construída a partir da matéria prima de homens bons e perfeitos, é infalível. Para resistir a esse tipo de tentação, deve-se reconhecer um dado fundamental: a inclinação humana para a injustiça. O mundo político não se apresenta como promessa. Apresenta-se como necessidade. Nele há um conflito de interesses irredutível, fruto da nossa condição falível e imperfeita. Assim, a política só poderá ser a arte da desconfiança e o cuidadoso esforço de construção de mundos possíveis, justamente como resistência à construção de ruínas totalitárias.

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