A aula do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) e do Instituto de História (IH) da UFRJ desta quarta-feira foi do lado de fora da Universidade. Um grupo de alunos promoveu no Largo de São Francisco uma roda de conversa com funcionários terceirizados para discutir sobre a falta de pagamentos que fez com que a unidade se juntasse à Escola de Comunicação, à Faculdade Nacional de Direito, à Escola de Educação Infantil e ao Colégio de Aplicação e suspendesse as atividades.

“Quando vim para o Rio e fiquei duas semanas sem aula no início do ano cheguei a pensar em voltar para São Paulo, mas acabei me envolvendo com a questão. O motivo desta paralisação é o mesmo da primeira (do início do ano), mostra que a conjuntura está muito difícil e que a primeira pessoa de quem eles tiram dinheiro realmente é dos trabalhadores. Não ter aula é um reflexo dessa terceirização que não dá certo, de uma reitoria que deixou em segundo plano o direito dos trabalhadores”, conta o aluno de Ciências Sociais Francisco Kerche. “É uma questão de crise, e ter o Levy como ministro da fazenda que traz um corte muito profundo na educação. O governo entrou com um discurso como o povo pediu e acabou não cumprindo exatamente o que se propôs. É uma conjuntura inteira, incluindo o congresso, se colocando a par de uma precarização do ensino público, um retrocesso”, diz.

Durante toda a manhã, questões como “o que podemos fazer para ajudar?” foram levantadas pelos estudantes, que após a atividade fixaram cartazes nos portões de acesso ao campus com palavras de ordem que comparavam a terceirização à escravidão. Embora prejudicados com a falta de aulas, os alunos apoiam a causa dos funcionários da limpeza e da portaria e contam que, com a paralisação, os funcionários da segurança, que ainda permanecem no posto, têm acumulado funções.

“A gente não acha que deve paralisar o prédio só porque não temos condições de ter aula devido à sujeira, mas também porque os funcionários não têm condição de trabalho. Hoje é um dia simbólico porque é a data que foi assinada a Lei Áurea e é curioso que justamente nesse dia estejamos aqui lutando contra a manutenção do trabalho escravo na maior universidade federal do país, porque as condições de trabalho deles são análogas à escravidão”, criticou Clara Marques, aluna do 2º período de História e membro do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFRJ.

Na conversa com os alunos, um funcionário mostrou uma mensagem de celular na qual um membro da empresa pediu a “colaboração de todos para não ter paralisação nas unidades para que não sejamos punidos com multa como ocorreu no início do ano”.

“Acho que vocês podem ajudar mandando uma mensagem para Brasília, se mobilizando. Acho que eles querem nos matar, porque um povo sem alimentação tende a morrer. A princesa Isabel disse que havia acabado a escravidão, mas isso nunca aconteceu. Como a pessoa vai ter liberdade se não tem condições de viver?”, questionou o terceirizado, que está sem salário e sem vale transporte e alimentação.

Com a suspensão de atividades, o DCE irá promover atividades políticas para debater a questão. Um ato está previsto já para esta quinta-feira no Conselho Universitário da UFRJ (Consuni), a partir das 10h os estudantes irão reivindicar mais recursos para assistência estudantil e abordar o problema de pagamento dos terceirizados, que fez com que várias unidades da universidade fechassem as portas. Na sexta-feira, a diretoria do IFCS fará uma nova assembleia para discutir o assunto.

“Para nós é insustentável. Como primeiro sinal de recessão econômica o governo deixa de repassar as verbas para os terceirizados e a reitoria também não prioriza o pagamento desses trabalhadores. Na nossa opinião não tem santo nessa história, nem Governo, nem reitoria e nem empresa”, afirma o estudante Julio Anselmo, membro do DCE da UFRJ.

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