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Amanda Rossi foi encontrada morta dentro do campus da Unopar | Roberto Custódio/JL
Amanda Rossi foi encontrada morta dentro do campus da Unopar| Foto: Roberto Custódio/JL

Nas particulares, protestos são contra as mensalidades

Nas universidades particulares, as rebeliões estudantis geralmente envolvem mensalidades. Uma das mais famosas do estado ocorreu em 1984 na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). O protesto culminou no seqüestro do reitor.

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Cobertas com faixas de protesto e sob o alerta da presença de invasores, as portas fechadas do prédio central da Reitoria da Universidade Federal do Paraná (UFPR) deram voz nos últimos dias a mais um movimento de protesto, que vez ou outra explode nas universidades. Em 1968, foi a ditadura. Agora, o vilão é o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), que prevê ampliação de vagas nas universidades e exige aumento no índice de aprovação. Em todo o país, cerca de dez universidades federais estão ocupadas.

Na pauta, o movimento traz a luta contra a "privatização da universidade pública gratuita e de qualidade". "É um movimento de esquerda porque a gente levanta o que entende por demandas da sociedade, contra os neo-liberais", afirma a estudante de Ciências Sociais, Alexandra Bandoli, 20 anos, que tem o apoio da mãe e entrou na militância por causa do exemplo da irmã mais velha.

Para Alexandra, o movimento é "contestador, coletivo, libertário e comunista". E o método de ação pode ser a ocupação, quando se faz necessária. Dessa forma, os estudantes defendem que a ocupação deve ser negociada como movimentação política e não caso de polícia.

Surgido no Estado Novo, na década de 30, o movimento estudantil representa a contestação aos poderes estabelecidos, com uma pitada de utopia, de acordo com o cientista político Ricardo Costa de Oliveira. "Ele é importante porque coloca limites aos poderes estabelecidos e aponta para dinâmica, para a contestação. Senão, haveria só uma ordem conservadora." Segundo Oliveira, o movimento estudantil dificilmente tem agenda à direita, que não consegue organizar opiniões políticas e mobilizar os jovens.

Dentro do prédio da UFPR, por exemplo, a democracia é prioritária para os universitários. Alexandra conta que as decisões são tomadas em assembléias, que ocorrem várias vezes ao dia. Sete comissões foram montadas para organizar o ambiente, do setor de negociação à limpeza.

A participação feminina também se destaca. "Sinto que a mulher está ocupando seu espaço e tem a mesma capacidade do homem para fazer de tudo e com salto alto ainda por cima", defende a presidente da União Paranaense dos Estudantes (UPE), Fabiana Zelinski. Segundo ela, o movimento estudantil procura o diálogo, mas há a necessidade pressão e enfrentamento.

Na UFPR, o movimento divide opiniões. O Diretório Central dos Estudantes (DCE) não apóia a ocupação. Os manifestantes foram citados pela Justiça Federal para que paguem R$ 100 por dia de ocupação. O juiz concedeu liminar para a reintegração de posse do prédio, que pode ser feita assim que a Reitoria autorizar. Se houver resistência, a força policial poderá ser utilizada. E a procuradoria jurídica está identificando os responsáveis pelo movimento para que sejam penalizados.

Na época da ditadura, as punições eram prisões e torturas. A professora aposentada Célia Gouveia, que sempre militou na esquerda, lembra que a repressão era grande. No Ensino Médio na escola agrícola, ela levou uma semana de suspensão por falar em um discurso que os professores têm muito a aprender com os estudantes. "O que mudou de antigamente para hoje foi a conjunção de forças. Quando era jovem, estávamos sob a ditadura militar. Ser esquerda, bastava ser contra o regime. Hoje, o totalitarismo que ainda persiste não é muito claro", afirma. Célia é mãe de um dos manifestantes que lutam contra o Reuni.

"A luta pela abertura de vagas era justamente nossa grande luta na época", rebate a jornalista Teresa Urban, que fez parte de uma das maiores rebeliões que a UFPR já presenciou. Em 1968, participou do movimento estudantil pela expectativa de poder agir pelo bem comum.

O ponto máximo do impasse foi a tomada da reitoria da UFPR. Uma quadra inteira foi cercada, barricadas foram montadas e milhares de estudantes invadiram a reitoria. O busto de Flávio Suplicy de Lacerda, ex-reitor da UFPR e primeiro ministro da educação do regime militar, foi retirado do pátio. Hoje, a estátua foi reconstruída e continua presente na reitoria, próxima a ocupação.

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