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Diego mostra o toca-discos da tradicional Stanton: modelos novos com peças como contra-peso e anti-skating são boas opções, como o modelo da foto | Diego Kloss/Arquivo Pessoal
Diego mostra o toca-discos da tradicional Stanton: modelos novos com peças como contra-peso e anti-skating são boas opções, como o modelo da foto| Foto: Diego Kloss/Arquivo Pessoal

Fã das bolachas, o professor e tradutor Miguel Nicolau, de Ponta Grossa, decidiu investir em um toca-discos novo. Ele escolheu um modelo de madeira, “cinco em um” – também toca CDs, fitas e rádio e possui entrada USB. A satisfação com a compra, no entanto, durou pouco, e a experiência com a radiola foi desastrosa: recém-instalada, o alto-falante direito estourou nos minutos iniciais da segunda faixa do vinil estreante.

A odisseia com o toca-discos foi longe. O primeiro aparelho foi substituído por um segundo, que teve de ser trocado por um terceiro. Esse último, acomodado em caixa lacrada, tinha o braço da agulha amassado. Saldo: em pouco menos de duas semanas, R$ 1,4 mil desembolsados, três aparelhos novos defeituosos, dois discos riscados (o aparelho não sustentava o peso dos discos de 180 gramas) e um braço quebrado.

Ressarcimento

Claudia Silvano, diretora do Procon Paraná, avalia que a loja que vendeu o toca-discos para Miguel teve uma conduta adequada ao realizar a troca do primeiro aparelho defeituoso. Nesses casos, quem comercializa ou fornece não é obrigado a substituir o produto imediatamente – de praxe, o consumidor deve encaminhá-lo para a assistência técnica e aguardar um prazo de até 30 dias para que o problema seja solucionado. Entretanto, ela destaca que na segunda troca, Miguel já teria direito ao ressarcimento do valor investido no aparelho. No caso dele, a devolução do dinheiro foi negociada por crédito em outros produtos na loja, mas o consumidor não é obrigado a aceitar a proposta.

“O aparelho era feito de madeira, pesado e parecia ser bom. Mas o prato do disco e a agulha eram de péssima qualidade; o braço, de plástico, não tinha contrapeso, o motor não aguentava o tranco do vinil de 180 gramas, o disco pulava e a agulha riscava. Tentei três aparelhos, todos apresentaram problemas, aí desisti, voltei na loja, onde me tornei persona non grata, e pedi meu dinheiro de volta. Mas não teve jeito, fiquei com um crédito para gastar em outros produtos”, conta.

Antigos ou novos?

Diante da baixa qualidade dos modelos novos, colecionadores se dividem: alguns preferem garimpar aparelhos antigos em lojas especializadas enquanto outros optam por desembolsar um pouco mais em toca-discos novos produzidos por marcas mais tradicionais, como a Technics, Rega ou Stanton. “Se você quiser um modelo antigo, tem que procurar por um em bom estado de conservação, o que não é fácil. A manutenção é mais trabalhosa, mas não impossível. O problema é que eles costumam ser mais caros do que os novos. Se escolher um novo, prefira modelos sem caixas embutidas, toca CDs e fitas. O melhor é comprar amplificador e caixas separadamente”, orienta Diego.

O designer gráfico Diego Kloss, 26 anos, é membro do Clube do Vinil de Curitiba e administra o blog “De volta para o vinil”, no qual costuma fazer resenhas sobre toca-discos e orientar quem quer adquirir um aparelho e não sabe como escolher. Crítico feroz dos modelos novos com carinha vintage (“Parecem lancheiras”), Diego garante que o investimento não vale a pena.

“Esses modelos novos têm preço e design convidativos, e a praticidade também é atraente, porque já vêm com o alto-falante embutido, alguns têm entrada USB, tocam CDs, possuem retorno automático. No entanto, não possuem peças primordiais, como contrapeso. A rotação do motor é fraca, fazendo com que as faixas sejam tocadas em ‘slow’; a qualidade da amplificação é baixa; e o braço é de plástico, então a cápsula acaba fazendo pressão excessiva e estragando os discos”, explica, listando os problemas mais comuns encontrados.

Fique de olho

O colecionador Diego Kloss aponta os problemas mais comuns dos aparelhos novos. “Alguns deles podem ser percebidos por qualquer pessoa, outros, só quem tem ouvido apurado e conhece a mecânica dos modelos vai perceber.”

Rotação

“O motor desses aparelhos não tem potência e não suporta o peso dos discos de 180 gramas produzidos atualmente. Então a rotação desacelera e o som sai ‘esticado’. Isso quando o disco simplesmente não pula e risca.”

Amplificação

“Esses modelos são atraentes porque possuem caixas de som embutidas, então não há necessidade de providenciar uma amplificação externa. Porém, o volume é baixo, parece o som saído de caixinhas de computador. É uma praticidade que não compensa.”

Agulha

“Colecionadores usam agulhas com peso entre 1 e 2 gramas, que é o peso que a agulha vai exercer sobre o vinil. Nos modelos novos, as agulhas fazem uma pressão entre 4 e 6 gramas, é excessivo. Com o tempo, consome as camadas de som do disco. A primeira, mais fina, é a dos agudos. E tem que fazer manutenção, a vida útil da agulha é em média 800 horas.”

Braço

“O ideal é que seja feito em alumínio. Os de plástico são muito leves e, como esses aparelhos não possuem contrapeso, a cápsula (que comporta a agulha) fica mais pesada e pressiona a agulha sobre o vinil. O peso total do aparelho é importante porque influencia na vibração. Quanto mais leve, mais vibra e mais a agulha, que é sensível, sofre interferências.”

Venda de vinis gera mais receita que serviços como YouTube, Spotify e VEVO

Se por um lado, a disponibilidade de músicas digitais retirou cada vez mais espaço do CD no mercado fonográfico, por outro, ela preparou o terreno para o retorno do formato do vinil. Mesmo atendendo a um segmento bem específico de consumidores, a venda de discos já gera mais receita do que serviços que oferecem músicas de graça, como YouTube, Spotify e VEVO juntos.

De acordo com o relatório divulgado pela RIAA, nos Estados Unidos, a receita de publicidade de serviços on-line de música chegou a US$ 163 milhões no primeiro semestre deste ano, enquanto a venda de vinis rendeu US$ 222 milhões.

Apesar de serem, em média, mais caros que os CDs, os discos já representam cerca de um terço das vendas em formatos físicos. Só no ano passado, a participação no mercado aumentou 52%; bem acima de qualquer outro formato. Já a fatia do mercado de CDs encolheu em quase um terço.

O formato tende a se tornar cada vez mais popular entre os artistas, muitos insatisfeitos com os lucros mais modestos dos serviços de streaming. Do lado dos consumidores, parece haver o prazer pela experiência de uso - colocar o enorme “bolachão” na vitrola e ouvir o som da agulha oscilando pelas ranhuras do disco - ou mesmo pela aquisição de um produto mais exclusivo. Seja como for, cada vez mais pessoas estão voltando a escutar música do jeito mais clássico.

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