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Pandemia

Coronavírus: denúncias de violência doméstica aumentam e expõem impacto social da quarentena

  • Por Isabelle Barone
  • Brasília
  • 28/03/2020 14:14
Violência doméstica aumentou com o isolamento social
Violência doméstica aumentou com o isolamento social| Foto: Bigstock

À medida em que a população tem acatado a quarentena, na tentativa de achatar a curva de afetados pela Covid-19, um outro (velho) desafio aponta no contexto de isolamento social. Indicadores de violência de alguns estados, sobretudo a doméstica, aumentaram logo após terem sido estabelecidas restrições de deslocamento a espaços públicos e privados por causa da pandemia.

Somente no Paraná, por exemplo, houve um aumento de 15% nos registros de violência doméstica atendidos pela Polícia Militar no primeiro fim de semana de isolamento. No Rio de Janeiro, a incidência foi ainda mais expressiva: os números cresceram em 50%.

ONGs chinesas de proteção à mulher notaram, além disso, procura maior por ajuda durante a pandemia do novo coronavírus. No Brasil, a Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos (ONDH) anunciou aumento de 9% das denúncias atendidas pelo Ligue 180.

A violência doméstica é, no entanto, apenas parte da esteira do contexto atual que envolve, entre outras coisas, o aumento de denúncias de violação de direitos humanos, por exemplo. Segundo o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH), foram registradas 1,3 mil queixas dessa natureza de 14 a 24 de março.

Por violência doméstica, compreende-se qualquer tipo de violência ocorrida dentro do âmbito familiar. Mulheres, homens, idosos, crianças e funcionários podem ser vítimas.

"O isolamento social imposto recentemente é, na verdade, um fenômeno comum e que frequentemente está ligado a situações de violência doméstica", explica a professora doutora Valéria Ghisi, coordenadora do Projeto Vidora (Violência Doméstica e Relacionamentos Abusivos) do curso de Psicologia da Universidade Positivo (UP). "O agressor tende a isolar socialmente a vítima, e a casa onde isso ocorre é tida por muitos como um espaço onde os olhos dos outros não chegam. O coronavírus apenas potencializou a questão".

O apontamento da especialista é corroborado por dados de segurança pública, que dão conta de que a incidência de violência doméstica é ainda maior nos fins de semana, quando, em grande parte, famílias permanecem em casa.

Medidas eficazes

O fenômeno conhecido como ciclo da violência, de característica gradativa, dificilmente começa pela violência física. Fatores como o confinamento e o estresse são agravantes.

"Aumentar os níveis de estresse - em uma situação na qual a violência já é o modo de funcionamento da dinâmica familiar - é a mesma coisa que deixar o fogo perto do barril de pólvora", afirma Valéria. "Vai explodir".

Os impasses familiares, em muitos dos casos, escalam para questões mais graves. Dado o diagnóstico, medidas voltadas à prevenção seriam as mais eficazes - especialmente em contextos nos quais as possibilidades de resolução rápida são escassas, como explica o especialista em Políticas Públicas para a Família pela Universidade Internacional da Catalunha (UIC) e diretor-executivo da ONG Family Talks, Rodolfo Canônico.

"Várias lições serão tomadas depois dessa crise, e reforçamos a de se pensar em ações preventivas, que serão sempre mais efetivas e mais baratas do que as de correção", afirma o especialista. "Estudos revelam a conveniência de se adotar, por exemplo, ações da linha de orientação familiar, a fim de que profissionais capacitados ajudem essas famílias a ter relações saudáveis, que não cheguem ao ponto de degenerar laços como acontece nos casos de violência".

Esse tipo de atuação cabe ao Sistema de Assistência Social, cuja lei orgânica estabelece em seu artigo IV, inclusive, que as ações de proteção social básica tem como objetivo "prevenir situações de risco por meio do [...] fortalecimento de vínculos familiares e comunitários".

"A família é a base da sociedade e é de interesse público que elas estejam funcionando bem", afirma Canônico. "São necessárias ações efetivas de apoio a essas famílias de modo que elas tenham relações cada vez mais harmônicas, que beneficiem a todas as pessoas envolvidas no núcleo familiar, para evitar degenerações ao ponto da violência".

A prevenção à violência é um dos pilares para se alcançar os 17 objetivos de Desenvolvimento Sustentável previstos na agenda da Organização das Nações Unidas (ONU). "Os esforços de prevenção precisam estar voltados às condições prévias que facilitam a violência", sugere uma análise dos objetivos elaborada pelo Unicef junto à Federação Internacional para o Desenvolvimento da Família (IFFD). "[É preciso] continuar o investimento nos programas de prevenção à violência doméstica avaliados como eficazes - como intervenções comunitárias focadas na família".

Além do amparo do Estado, na outra ponta, profissionais de psicologia podem contribuir. "Muitas vezes, o psicólogo é procurado apenas diante de um surto. Mas esse é um trabalho que pode, no sentido de colaborar na tomada de decisões, facilitar o diálogo entre a família e ajudar a manter um quadro no qual não se derrape para a violência", sugere Valéria.

"Quando comparamos dados de família, observando o que se entende por diálogo, vemos um padrão inverso. Onde a violência impera, vemos que não existe a eficiência de diálogo. Nestes casos, os profissionais de psicologia podem ajudar", afirma.

Canais

A utilização dos canais habituais de denúncia, embora essencialmente úteis, como o Disque 180, podem não ser de fácil utilização nesse contexto, uma vez que vítima e agressor estão juntos em casa.

"O monitoramento [por parte do agressor à vítima] já é frequente, o hipercontrole é uma das principais características. E, agora, o coronavírus dá de mão beijada essa possibilidade. Neste caso, não existe solução definitiva", diz Valéria. "Mas romper com o isolamento social, quando não se consegue ligar ou mandar mensagem pelos canais de denúncia, muitas vezes, é bater na parede do vizinho, deixar um bilhete, fazer barulho".

O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos recomendou aos organismos governamentais de políticas para mulheres que não suspendam os serviços. Além disso, pediu a "implementação de comitês de enfrentamento à violência contra mulheres durante a pandemia nos estados, Distrito Federal e municípios; realização de campanhas sobre importância de se denunciar a violência doméstica e familiar contra as mulheres com divulgação dos canais de denúncia; entre outras medidas".

Procuradas, as secretarias de estado de Segurança Pública de São Paulo, Bahia, Rio Grande do Sul e do Distrito Federal afirmaram que ainda não contabilizaram as denúncias de violência doméstica do mês de março. Os números devem ser divulgados em abril.

18 COMENTÁRIOSDeixe sua opinião
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Comentários [ 18 ]

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  • A

    APJr

    ± 3 dias

    Entendendo um pouco melhor essa história : Um cara após comprar um papagaio numa loja de animais, voltou para devolve-lo. O vendedor perguntou: - O que o senhor deseja??? Ele respondeu: - Vim devolver o papagaio que comprei aqui ontem. - O que aconteceu??? -O cara respondeu: - É fêmea !!! - E qual o problema??? Ele respondeu: - Em vez dele repetir o que eu falo, só quer discutir comigo !!!

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  • A

    Armando

    ± 3 dias

    Marido e mulher...não podem ficarem juntos sem uma ocupação.

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  • E

    Edivaldo S

    ± 3 dias

    Toda violência é uma covardia. a doméstica, é uma das mais ******** e repugnante, pois é cometida contra aqueles que devemos proteger....

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    José Airton Gernano da Silva

    ± 4 dias

    Desde o início do isolamento social, por conta do covid-19, os sociólogos previam que seria explicitada, de fora muito contundente, as desigualdades sociais. A violência doméstica já vinha sendo noticiadas diariamente, algumas delas, com requinte de crueldade. Essa realidade lastimável está emprenhada na realidade nacional. A Secretária Damares deveria estar vinculando peças publicitárias alcançando, alentando, educando para a convivência pacífica. Aguardaremos.

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  • B

    bilu dandão

    ± 4 dias

    Esse jornaleco é irresponsável ,está alinhado ao bolsonaro e produz matérias, como no caso , a favor do governo.Estou printando tudo.

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    • G

      Gabriel

      ± 3 dias

      e vc pq perde tempo comentando então?

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  • J

    Jorge Dias

    ± 4 dias

    Enquanto pessoas morrem, economias implodem, suicídios são cometidos, e países fecham suas fronteiras, a Gazeta faz uma reportagem de capa MISANDRICA e Ginocentrica, que não acrescenta nada a sociedade no momento de crise real.

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    • J

      Jorge Dias

      ± 4 dias

      Mais uma coisa: homens: evitem mães solteiras se não quiserem pagar uma pensão sócio afetiva para um filho que nem seu eh.

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  • F

    Fernando Cavalcante

    ± 4 dias

    As "empoderadas" querem falar grosso, perderam a privacidade que tinham quando o otário saía para trabalhar e sustentar a casa, e estão abusando do uso das novas leis.

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    • M

      Mirtão

      ± 3 dias

      Porrada porrada! Kkkkkkkkj

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      Freitas

      ± 4 dias

      Nada, cara. A mulherada está metendo o pau de macarrão na testa dos maridos.

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  • F

    Freitas

    ± 4 dias

    E quando faltar dinheiro e não ter nada para por na mesa de refeição? Vai acontecer o quê? R o desespero daqueles que sequer sabem se, no retorno, sua vaga de trabalho estará garantida?

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      Juliano

      ± 3 dias

      Sim, melhor matar tudo de covid-19 duma vez. Mais prático.

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  • M

    MCuritiba

    ± 4 dias

    Acredito que a quarentena possa durar por mais 15 dias. A partir daí é uma questão de sobrevivência. Cada um escolhe como quer morrer. Quem não quiser ser infectado, que continue em casa no isolamento social. Estamos caminhando para uma guerra civil. Portanto, você que é da classe média e ainda estocar alguma coisinha, fazer compras na farmácia e no mercado, comece a dormir com uma espingarda sentado na porta da sua sala.

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  • A

    Alexandre

    ± 4 dias

    A reportagem já começa errada... A população não acatou a quarentena (não adianta "enfiar goela abaixo"). Ai o sujeito ficou sem trabalho, sem salario (os boletos estão chegando), sem dinheiro, dispensa vazia, sem entretenimento, nervos aflorando, depressão, o pânico que a midia divulga... Foram anos quebrando a base familiar e querem resolver com uma simples conversa? E os valores morais? E o respeito aos pais? So podia dar nisso! A quarentena deveria ser gradual... E não desse jeito! Ou seja o caos já está na casa de alguns! A reportagem peca em nao mencionar o suicídio... RESUMINDO: TEM TUDO PRA DAR M3RD4!

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    • M

      Mirtão

      ± 3 dias

      Gabriel: acho que é você que não alcançou o espírito da coisa.

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    • A

      Alexandre

      ± 4 dias

      Gabriel: Boa noite Sr Gabriel! A reportagem começa "A medida em que a população tem acatado..." E por acaso teve escolha? Como fosse ponto pacifico! E o senhor sabe que não é!

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    • G

      Gabriel

      ± 4 dias

      Com um comentário desses, parece que a pessoa não se deu ao trabalho de ler a matéria só pode! O jornal nao está defendendo a quarentena e muito menos dizendo que será fácil resolver de uma hora pra outra você leu?

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