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Durante a caminhada de 240 quilômetros que está realizando entre Paracatu (MG) e Brasília (DF), o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) decidiu relembrar histórias do 8 de janeiro. Os relatos são apresentados no Instagram do deputado a cada dez quilômetros de percurso, aproximadamente, e evidenciam o primeiro motivo da caminhada: fim das prisões injustas.
Segundo carta aberta divulgada pelo parlamentar antes de iniciar a ação na última segunda-feira (19), o protesto também é pelo fim da impunidade, da perseguição política e do ativismo judicial. “Que cada brasileiro saiba: “a liberdade não se pede de joelhos; defende-se de pé”, afirmou o parlamentar, que apresentou as seguintes histórias do 8 de janeiro nos primeiros 60 quilômetros de caminhada.
1. Cleriston Pereira da Silva, o Clezão, que morreu na Papuda
Ao completar os primeiros dez quilômetros de percurso, Nikolas Ferreira lembrou de Cleriston Pereira da Silva, que faleceu no Complexo Penitenciário da Papuda. Conhecido como Clezão, o comerciante de Brasília foi preso nos atos do 8/1 e nunca deixou a prisão.
Em artigo de novembro de 2023, o colunista J.R Guzzo, que faleceu em agosto do ano passado, afirmou que o caso evidenciaria “um assassinato legal”, já que um laudo médico oficial informou que o homem corria “risco de morte” e precisava de tratamento urgente para quadro de saúde grave causado por enfermidades cardíacas, diabetes, hipertensão e distúrbios no sistema circulatório.
Após os advogados apresentaram esse laudo, o próprio Ministério Público Federal (MPF), responsável pela acusação, pediu a soltura de Clezão. No entanto, o ministro Alexandre de Moraes ignorou o laudo, a petição da defesa e a solicitação do MP. “Assinou com isso a sentença de morte de um preso que estava sob a sua custódia e que não tinha nem sequer sido julgado, após quase um ano na prisão”, escreveu Guzzo.
Cleriston morreu durante banho de sol no dia 20 de novembro de 2023, quase três meses após obter parecer favorável da Procuradoria-Geral da República (PGR) para liberdade provisória.
2. Filipe G. Martins, ex-assessor de Jair Bolsonaro preso por viagem que nunca existiu
O segundo caso apresentado por Nikolas Ferreira — ao completar 20km de caminhada — foi o de Filipe Martins, ex-assessor para assuntos internacionais da Presidência no governo de Jair Bolsonaro (PL).
Preso pela Polícia Federal (PF) durante a Operação Tempus Veritatis sob argumento de que teria deixado o país em avião oficial sem passar pelos controles migratórios, Filipe Martins entregou às autoridades documentos que comprovaram sua permanência no Brasil. Mesmo assim, permaneceu preso por seis meses, entre 8 de fevereiro de 2024 e 9 de agosto do mesmo ano.
Após ficar mais de 500 dias com tornozeleira eletrônica, ele foi condenado a 21 anos e seis meses de prisão por integrar o chamado núcleo 2 da suposta tentativa de golpe de Estado investigada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Martins teve, então, prisão preventiva decretada em janeiro de 2026 por suposto uso da rede social LinkedIn, realizado por seus advogados. Juristas apontam que a decisão não tem base legal e extrapola parâmetros jurídicos, já que se baseia em uma prova frágil (captura de tela) e pune o ex-assessor por uma ação que seus advogados afirmam ter cometido no exercício da defesa. Posteriormente, a própria plataforma negou que o perfil tivesse sido acessado, mas Moraes não revogou a prisão.
“Não sei nem explicar. Ele literalmente está preso sem ter cometido crime nenhum, mas só porque ele era assessor especial de Bolsonaro”, disse Nikolas Ferreira.
3. Débora Rodrigues dos Santos, cabeleireira condenada à pena de 14 anos
Outro caso citado pelo parlamentar durante a caminhada iniciada nesta segunda-feira (19) foi o da cabeleireira Debora Rodrigues dos Santos — a "Débora do batom" —, que teve sua história divulgada pela Gazeta do Povo, em junho de 2024. Na data da publicação, a mulher estava presa sem denúncia por mais de um ano e dois meses, longe dos dois filhos menores de idade, de seis e nove anos.
“Ela não entrou em nenhum prédio público, mas foi fotografada escrevendo, com batom, a frase ‘Perdeu Mané’ na Estátua 'A Justiça', localizada em frente à sede do STF”, relatou a defesa na época, após ter solicitado oito vezes que Debora fosse para prisão domiciliar por ter direito de esperar sentença em casa com os filhos.
O jurista Rodrigo Chemim, que analisou o caso em 2024, disse à reportagem que situações de pichação como essa costumam ser punidos com pagamento de cestas básicas. No entanto, estavam “jogando um caminhão de crimes em cima da mulher sem seguir técnicas jurídicas que qualquer aluno de 3º ano de Direito aprende”.
Débora passou mais de dois anos encarcerada e foi condenada pelo STF a 14 anos de prisão, o que a tornou um símbolo da luta pela anistia aos presos do 8/1 e gerou críticas até da Comissão de Direito Penal da OAB-RJ.
”É um caso emblemático”, afirmou Nikolas, ao apontar que a punição dada a Débora não é aplicada nem a estupradores, homicidas ou corruptos. “Mas ela pegou porque estava de verde e amarelo e porque há, sim, uma vingança política”, disse.
4. Coronel Naime, da PM, que negou usar munição contra manifestantes do 8/1
Aos 51 quilômetros da caminhada pela justiça e pela liberdade, Nikolas Ferreira citou mais uma história do 8/1: a do coronel Naime, da Polícia Militar do Distrito Federal (PM-DF). Para isso, a esposa do policial ingressou na caminhada ao lado de Nikolas e relatou a coragem do marido durante os atos de 8 de janeiro de 2023.
“Ele recebeu ordem do interventor indicado por Flavio Dino para usar munição letal contra os manifestantes”, relatou Mariana Naime, ao afirmar que o marido negou cumprir aquela ordem e “se tornou alvo do sistema”. O caso foi divulgado pela Gazeta do Povo em agosto de 2025.
O coronel — que tem 32 anos de serviço público — passou 461 dias preso por suposta omissão para conter os atos de 8 de janeiro, foi condenado à pena de 16 anos e meio, e passou a enfrentar diversos problemas de saúde na prisão. “É um absurdo!”, apontou Nikolas.
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