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Sobreviventes do Holocausto

É um milagre eles estarem vivos

A série do Holocausto termina hoje com a história de dois homens que foram duramente torturados pelos nazistas. É difícil imaginar como eles conseguiram sobreviver, refazer a vida e, sobretudo, ainda sorrir

  • Pollianna Milan
Ao chegar no campo, alemães faziam uma ficha do prisioneiro: documentos originais foram resgatados por Naftaly |
Ao chegar no campo, alemães faziam uma ficha do prisioneiro: documentos originais foram resgatados por Naftaly
 
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É um milagre eles estarem vivos

Ele raramente fala sobre o assunto

Foi difícil convencer V.T., 87 anos, a falar sobre o Holocausto. A justificativa é bastante compreensível. Segundo ele, não há palavras que possam dar a dimensão do que foi a perseguição dos nazistas aos judeus. Ele está certo. A insistência por uma entrevista, porém, valeu a pena para o registro histórico. Depois de três visitas ao local de trabalho, sem poder gravar e com a exigência de não identificá-lo (ele permitiu apenas fotos), V.T. contou o que viu e viveu.

Ele, provavelmente, é o úl­­timo sobrevivente do Ho­­locausto que reside em Curi­­tiba e tem no braço esquerdo a tatuagem, feita brutalmente, com as iniciais do campo de trabalho e o seu número de prisioneiro. “Foi tortura. Eles tinham várias agulhas com tinta na ponta que estavam presas numa madeira. Baixaram as agulhas direto no meu braço e, pronto, depois de dois segundos o número ficou marcado na pele.” Ele nunca pensou em tirar a marca, mas teve de aprender a conviver com ela, principalmente quando vai tomar banho.

Foi no campo de Shargorod, onde ele viveu forçadamente de 1942 a 1944, que testemunhou as atrocidades. Havia 15 mil presos entre ciganos e judeus. Esses últimos tinham de vestir o pijama listrado. V.T. acordava às 6 horas para responder à appel (chamada) e, quem não ia, era morto na hora. Às vezes, a chamada demorava horas para ser finalizada, o que fazia com que os mais esgotados caíssem mortos de fome e frio. Também viu os que não tinham mais nenhuma esperança e se grudavam na cerca elétrica de arame farpado para acabar com a própria vida. Os prisioneiros mais velhos do campo, conta ele, ficavam com o serviço mais humilhante: tinham de tirar os cabelos dos mortos e lhes arrancar os dentes. Os alemães comercializavam o cabelo e queriam saber se havia dentes de ouro. “Eu não fiz isso porque tinha 17 anos, mas vi os mais velhos serem obrigados a fazer.”

Depois, os corpos eram levados em um barracão e ficavam ali até o trem ir buscá-los. “Quando saí do campo, comprei um sabão que vinha com um carimbo escrito em alemão que seria gordura de judeus. Veja senhora, fizeram sabão com os judeus mortos”, afirma.

Horror e fome

O trabalho de V.T. era infinito. Ele e outros prisioneiros tinham de construir e reconstruir estradas. As que terminavam de fazer eram bombardeadas pelos partisans (guerrilheiros) ou pelos soviéticos, então, todo o trabalho recomeçava. Para tanta força empreendida, porém, ganhavam uma comida miserável. “Era disputa de comida o tempo todo. Eu saí de lá com 40 quilos.”

Ao ouvir o barulho dos bombardeios, em 1944, V.T. sabia que a vida no campo de trabalho estava perto do fim. “Os soviéticos chegaram rápido, então não deu tempo de os nazistas fuzilarem todo mundo. Pois era isso o que eles faziam.” Os soldados alemães fugiram e deixaram os uniformes, que foram queimados pelos prisioneiros com uma cantoria de comemoração. “Lembro até hoje do nome dos dois soldados russos que me salvaram e saíram comigo do campo”, conta, com ar de alívio. Os americanos lhe deram suprimentos. Tinha de ir comendo aos poucos para acostumar o corpo a ingerir novamente a quantidade de nutrientes necessários para sobreviver. Alguns prisioneiros que saíram do campo, ao se alimentar em grande quantidade e muito rápido, morreram de congestão.

No campo de refugiados, V.T. ganhou da Internacional Refugee Organization (IRO) um documento, parecido com um passaporte, que lhe “abria as portas” para recomeçar a vida. Esse documento, que ele fez questão de mostrar, o identificava como refugiado e, por meio dele, conseguia as mais diversas ajudas: desde comida até passagem para outros países.

“Um amigo foi para a Ve­­nezuela e depois me escreveu dizendo que estava bem lá, mas que eu deveria ir ao Brasil porque era um país que carecia de tudo para crescer, por isso seria promissor. E eu achava que aqui se falava espanhol.” V.T. desceu em Recife e sobre a vinda dele a Curitiba, diz, sorrindo, é outra história.

Naftaly passou por 9 campos de trabalho forçado

Há duas coisas que Naftaly Sztajnberg fez que o salvaram durante o Holocausto. Por ser forte, trabalhou duro, dia e noite, sem nunca reclamar. A outra é que ele tentava dormir, nos campos de trabalho pelos quais passou, perto do crematório porque assim se encostava na parede quente e isso lhe ajudava a suportar o frio. As “técnicas” de sobrevivência foram adquiridas durante a penosa experiência pela qual passou: esteve em nove campos de trabalho forçado. No primeiro, o Branden, presenciou o que aconteceu ao irmão que fez corpo mole para o trabalho. “O Itzhak não quis trabalhar porque não tinha comida. Apanhou muito. Vi que não havia outra saída. Tinha de construir estradas sem reclamar.”

Naftaly nasceu em Sos­­nowiec e, três dias depois de atacarem a Polônia, os alemães chegaram à cidade dele. Foi obrigado a usar a estrela de Davi na roupa, proibido de entrar no cinema e teve de respeitar as restrições dos locais de compras de comida e os horários que poderia andar pela rua. Certa vez, ao passar por uma rua onde não estava autorizado a pisar, foi obrigado a pagar uma multa. Como não tinha dinheiro, acabou apanhando. Em 1942, ele e o irmão foram levados para trabalho forçado e a família foi para o gueto (depois foram mortos).

Quando foi transferido do Branden para outro campo, o Johannesdorf, ele se separou do irmão. Lá, trabalhou como maquinista e sofreu a primeira tortura. Pediu fósforo emprestado e alguém o delatou. Teve de marchar dez quilômetros. No final, levou chicotadas. Foi para o campo de Greivinz, onde trabalhou como pintor. “Havia judias que trabalhavam num escritório e os alemães nos forçavam a tirar a roupa e ir até elas. Era muita humilhação.” Naftaly passou por outros campos e sofreu nova tortura depois de roubar umas batatas. “Me chamaram pelo meu número de prisioneiro e me deram laçaço com o membro de um boi. Faziam de tudo para nos rebaixar mais do que já estávamos.”

Quando soube que iria para o campo de Makstard, ficou feliz com a possibilidade de reencontrar o irmão. “Alguns haviam comentado comigo que Itzhak estaria lá.” Mas, quando chegou, só recebeu a notícia de que o irmão tinha sido queimado dois dias antes porque estava muito doente. “Era um golpe duro atrás do outro. Toda manhã, acordava entre defuntos. Sempre tinha alguém que morria durante a noite.”

Já próximo à queda dos nazistas, em 1944, Naftaly foi obrigado (com os outros presos) a se deslocar do campo onde estava para outro mais distante, para que os soviéticos não os salvassem. Essa movimentação era conhecida como marcha da morte. Ele participou da marcha para Rosrozen e, de lá, foi para o campo de Buchenwald. “Um avião americano veio e começou a atirar. Fomos salvos.”

Aos 23 anos e sem família, Naftaly foi levado para o Centro de Reabilitação Kloster In­­dersdorf, na Baviera, onde eram acolhidos crianças e jovens desabrigados. De lá, foi para Israel e serviu ao exército. Mas o trabalho também era muito duro. Migrou para a Áustria e depois veio ao Brasil por indicação de amigos. Dos 1,1 mil abrigados de Indersdorf, somente 330 foram reconhecidos até hoje. Apenas um é do Brasil: Naftaly Sztajnberg.

Sobreviventes do Holocausto

VIDA E CIDADANIA | 4:15

Vivo por um milagre

Naftaly passou por nove campos de trabalho forçado e só sobreviveu, segundo ele, porque trabalhava sem reclamar. Fazia tudo o que mandavam. Foi torturado. Nenhum familiar sobreviveu. O irmão, a última vez, ele encontrou num campo de trabalho.

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