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| Foto: Brunno Covello/Gazeta do Povo

Instituições

Saída da UTFPR do segmento pode ter influenciado o índice

Segundo o Censo, quando as redes de ensino são analisadas separadamente, a única a registrar queda no número de matrículas é a rede federal (-33,5%). No entanto, o Instituto Federal do Paraná (IFPR) e o Setor de Educação Profissional e Tecnológica (SEPT) da UFPR afirmam que cresceram. A explicação para o número negativo pode estar, portanto, na saída da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) da modalidade.

Desde que deixou de ser Centro Federal de Educação Tecnológica e tornou-se universidade, em 2005, a instituição tem diminuído gradualmente a oferta de cursos técnicos, substituindo-os por tecnólogos e bacharelados. Segundo o professor Jair Ferreira de Almeida, chefe do departamento de processo eletivo, o número de cursos ofertados caiu de 11 em 2011 para cinco neste ano.

Segundo Almeida, a demanda estaria sendo transferida para o IFPR, criado em 2008 para o fim específico de ofertar cursos técnicos. No último processo seletivo o instituto registrou um aumento 11,2% nas inscrições, ultrapassando pela primeira vez a marca dos 13 mil candidatos para 105 cursos, conta o diretor de ensino médio e técnico da instituição, Evandro Cherubini Rolin. Ele justifica o crescimento com as políticas de incentivo à modalidade adotadas nos últimos anos, como o Pronatec e o Sisutec.

Um dos principais beneficiados pelos programas federais, aliás, o Senai-PR também não enfrenta dificuldades para expansão. Segundo a coordenadora estadual de cursos, Vanessa Frason, a entidade saiu de 7,9 mil matrículas em 2010 para 20 mil em 2014. O Tecpuc, segmento de ensino técnico da PUCPR, é outra instituição que alega crescimento, assim como o Senac-PR.

Estratégia para o futuro

Para o estudante de Mecânica no Tecpuc Lucas Fernando de Almeida, 22 anos, a opção pelo o ensino técnico foi estratégica. Ele aproveitou a inserção rápida no mercado de trabalho garantida pela modalidade para viabilizar um futuro curso de graduação em Engenharia Mecânica. Ele acaba de conseguir uma vaga de trabalho na Êxito Fundição, indústria que produz troféus e medalhas em Almirante Tamandaré. É seu primeiro emprego no ramo. Economizando, o salário que passa a ganhar deve ser suficiente para financiar seus estudos universitários quando encerrar a formação técnica. "Escolhi fazer curso técnico antes da faculdade porque o emprego que ele me garante é o que vai me permitir pagar as mensalidades da graduação", diz Almeida.

Falha nos dados

Segundo a dirigente de uma instituição de ensino técnico que prefere não se identificar, os dados do Censo podem não mostrar a realidade porque nunca houve uma orientação clara por parte do MEC de que escolas de ensino técnico seriam obrigadas a participar da pesquisa, assim como ocorre com as escolas de educação básica. Ela admite que várias de suas unidades não responderam à consulta por desconhecerem a exigência. Na opinião dela, a ausência desses dados poderia comprometer todo o resultado.

O ensino técnico do país está em ascensão. Desde 2010, a modalidade cresceu 26,3% no Brasil, chegando a 1,4 milhão de matrículas no ano passado, conforme dados do Censo da Educação 2013. O Paraná, no entanto, parece não acompanhar a tendência. A mesma pesquisa aponta queda de 1,59% nas matrículas de 2012 para 2013, e um crescimento modesto, de apenas 0,47%, quando considerados os dados desde 2010. O resultado negativo, no entanto, é relativizado por analistas. Para alguns, o fraco desempenho se deve ao fato de que o estado já havia atendido à demanda antes dos outros, e que agora teria chegado a um "teto".

INFOGRÁFICO: Compare o número de matrículas do Ensino Profissional no Paraná e no Brasil nos últimos anos

Os números também foram recebidos com estranheza pelas principais instituições promotoras dessa modalidade de ensino no Paraná, que alegam crescimento, e não queda nas matrículas. Para justificar os dados, a professora Dione Maria Menz, coordenadora do setor de política e educação profissional da Universidade Federal do Paraná (UFPR), resgata o histórico do estado na oferta de ensino técnico. Segundo ela, diferentemente de outros estados, o Paraná nunca interrompeu completamente a oferta de educação profissional na rede pública. "Temos um histórico de ofertar cursos técnicos há muito tempo, de forma contínua, enquanto em outros estados o ensino técnico esteve em declínio e só foi resgatado em meados de 2008".

Dione refere-se, principalmente, à antiga Escola Técnica da UFPR, que manteve a oferta de educação profissional mesmo após a adoção de políticas restritivas à modalidade por parte do governo federal no fim da década de 1990. Na época, o Ministério da Educação emitiu regulamentações incentivando o ensino médio comum, em detrimento dos cursos técnicos. Assim, segundo Dione, o que estaria ocorrendo no Paraná é uma estabilização das ofertas, que eram suficientes e foram ampliadas pelos novos programas federais. A hipótese explicaria porque o Paraná aparece com discrição diante do crescimento significativo de outros estados, como o de Santa Catarina, por exemplo, onde houve 77% de aumento nas matrículas.

Rede estadual

Um aspecto que contribui na relativização do declínio apontado pelos dados é o crescimento no número de matrículas na educação profissional oferecida pelas escolas estaduais, onde estão mais da metade dos estudantes que optam pela modalidade (65%) no Paraná. De acordo com Fabiana Campos, diretora do departamento de educação e trabalho da Secretaria de Estado da Educação, de 2010 a 2013 a rede cresceu 10,6% em número de matrículas, e passou de 170 municípios atendidos para 186. Ela conta que a retomada dos investimentos na educação técnica no estado teve início em 2005, antes da expansão dos institutos federais de educação profissional, criados em 2008, o que teria permitido ao estado crescer em oferta antes dos demais.

Pequenas escolas ainda carecem de qualidade

Segundo o professor Adria­­­no Rodrigues de Moraes, vice-diretor do Setor de Educação Profissional e Tecnológica da UFPR, apesar dos crescentes investimentos no ensino técnico por parte da rede federal, as pequenas instituições profissionalizantes ainda carecem de qualidade. "As escolas de periferia ainda são relegadas a um papel de sub-formação, onde o estudante não vê perspectiva de futuro", afirma.

Para Moraes, a necessidade de cursos ligados à tecnologia ainda não foi completamente suprida justamente por causa da diferença de estruturas no setor. Como esses cursos dependem da montagem de laboratórios e equipamentos, tendem a ser ofertados por escolas técnicas vinculadas a grandes instituições.

A recente inauguração da Escola Técnica da Universidade Positivo é um exemplo dessa tendência. A instituição iniciou as atividades neste ano, motivada, principalmente, pelo Sisutec, que subsidia cursos gratuitos, mediante bolsas integrais pagas pelo governo federal. "Lançamos o ensino técnico de nível médio em função desse programa. Além disso, já contávamos com toda estrutura da universidade que, muitas vezes, ficava ociosa no período da tarde", informa Ronaldo Casagrande, diretor-geral do Centro Tecnológico Positivo.

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