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 | Alexandre Mazzo/ Gazeta do Povo
| Foto: Alexandre Mazzo/ Gazeta do Povo

Ao se aproximar do geólogo João José Bigarella chame-o simplesmente de ?professor?. É assim que gosta de ser tratado esse curitibano de 87 anos, dono das mais altas glórias da ciência, com folga o mais universal dos paranaenses. Mas é irremediável a tentação de chamá-lo de ?viajante de todos os mundos?, um Von Humboldt tropical.

Slideshow mostra os bastidores da entrevista

VÍDEO: Bigarella fala do museu do Parque Estadual de Vila Velha

O temor é sempre o mesmo ? que ao saber dos grandes feitos desse homem da cátedra algum desavisado o tome por um estudioso de vida reclusa, afundado em livros e desilusões acadêmicas. Não. Bigarella foi a quase todos os lugares onde um dia sonhamos ir ao ler a National Geo­graphic, ao ver filmes sobre países exóticos e distantes, ao assistir aos documentários da Discovery Channel.

Foi e é, do mesmo modo, passageiro de mapas muitos próximos. Criou-se numa casa de grande quintal onde hoje passa a Travessa da Lapa. Moço, vasculhava o litoral do estado em inocentes expedições do Museu Paranaense. Adulto, lançou-se com fúria às belezas plácidas dos Campos Gerais e pelas finadas Sete Quedas de Guaíra.

Nem cá, nem lá esteve a passeio. Deve-se às pesquisas do professor Bigarella o tombamento da Serra do Mar. A preservação da paisagem de Vila Velha. O salvamento dos sambaquis. Também levam seu selo uma comprovação da Teoria de Wiggert ? sobre a separação da África e da América do Sul. Seu ?bigarelômetro? ? equipamento que inventou para estudar o comportamento dos ventos ? é uma anedota suave que ajuda a desinibir diante da lenda em que seu criador se tornou.

Confira trechos da entrevista concedida pelo professor em seus dois apartamentos na Boa Vista. Num, mora com a mulher, Íris. Noutro [foto], guarda slides e anotações trazidas de incontáveis andanças. O local é uma viagem ao centro da Terra.

Bigarella nasceu num 23 de setembro, início da primavera. Diz alguma coisa?

[risos] Coincidência. Penso que meu amor à natureza nasceu nos domingos em que meus pais me levavam para passear nos arredores de Curitiba, a bordo de um Fordeco Bigode [Ford T, produzido a partir de 1908].

Quem eram eles?

Otília, minha mãe, era dos Schaffer. Embora dominasse o português perfeitamente, ela só falava comigo em alemão. Dava grande valor à educação. Os Bigarella eram de Pianella e depois se mudaram para Bolzano Vicentino, perto de Vicenza. Eram servos. Não tinham propriedade. Meu avô veio para o Brasil e começou a trabalhar como motorista de ponto de burro.

Onde o menino Bigarella já anunciava o geólogo Bigarella?

Os Bigarella tinham uma chácara onde hoje está a Visconde de Guarapuava e a André de Barros, na direção da Travessa da Lapa. Fui criado ali. Cultivavam legumes, tinham pomar. Meu pai, José João, não conseguiu estudar, mas me colocou num colégio bom, o Ma­­rista. Ali fui estimulado nas ciências. Eu fazia as lições e depois tinha de ir ao quintal, capinar, cumprir minhas obrigações na casa. [chora]

Quem o influenciou?

Eu tinha dois amigos, o Ralph Hertel, que era primo da Íris [mulher de Bigarella], e o Rodolfo Lange. Eles trabalhavam no Museu Paranaense. Com mais ou menos 21 anos comecei a participar das excursões do museu junto com eles. Numa dessas viagens, estava lá uma moça ? da turma de Geografia e História ? com dificuldade em fazer o desenho de uma cerâmica e pediu a minha ajuda. Anda até hoje por aqui. Era a Íris. [risos]

O que o senhor sonhava para sua vida?

Cursei Ciências Químicas e me formei em 1943. Comecei a vida trabalhando no IBPT [Instituto de Biologia e Pesquisas Tecnológicas]. Fazia prospecção de matéria-prima para a indústria mineral. Posso dizer que fui eu quem localizou todo esse cimento produzido no Norte de Curitiba. Mas não era minha vocação. Em 1944, acabei nomeado para trabalhar no museu pelo interventor Manoel Ribas. Foi quando comecei a tomar contato com pesquisadores. Observar o trabalho dos outros foi a minha escola.

Seus pais não ficaram preocupados... Um filho cientista?

Não lembro o quanto ganhava no instituto ? mil ou dois mil na moeda da época? O pai da Íris não queria que eu casasse com ela, pois não ganhava o suficiente. [risos]

Como foi seu relacionamento com Reinhard Maack [1892-1969, geólogo alemão radicado no Paraná na década de 20]?

Trabalhei com o doutor Maack no Museu Paranaense. Gostaria de ter escrito algo com ele, mas não nos estimulava à pesquisa. Prefiro lembrar que no museu encontrei o paleontólogo Frederico Wal­­de­­mar Lange. Com Lange comecei a coleta de amostras de rochas. Que­­ria entender como se formaram. Penso que vem daí o sentimento de reposição do meio ambiente.

O senhor acabou rompendo os limites do Museu Paranaense. Como se deu isso?

Um dia, o geólogo Riad Salamuni [1927-2002] apareceu lá, retornando de uma temporada de estudos nos Estados Unidos. Fiquei feliz. Foi ele quem informou que o professor Pettyjohn procurava alguém que estivesse trabalhando no campo. O americano já havia procurado o doutor Maack, que não o respondeu...

Quem arquitetava essas trocas de Curitiba com o mundo?

O José Loureiro Fernandes [1903-1977] e o padre Jesus Moure [1902-2010]. Naquele momento, a Universidade do Paraná atraiu a visita de pesquisadores internacionais e até congressos científicos. Um deles, no final da década de 60, incluía uma excursão de 15 dias em campo. Atraímos 49 estrangeiros de 19 países e 40 brasileiros. Levei o diretor do serviço geológico da África do Sul, num Jeep, a São Luiz do Purunã. Ele ficou impressionado. Na volta, me convidou para conhecer a África do Sul. Quando me dei conta, estava em Johannesburgo.

Fernandes, Moure, Salamuni, Bigarella, Oldemar Blasi e Igor Chmyz, para citar alguns. O que determinou o nascimento de uma geração tão brilhante de pesquisadores no Paraná?

Talvez a gente tenha prestado atenção em como se fazia ciência fora daqui. Trouxemos essa mentalidade para cá. Chegaram a dizer que eu devia ir para o serviço geológico americano. Felizmente não fui. Não sou pessoa de procurar minérios e ganhar dinheiro com isso.

Mas os Estados Unidos cruzaram seu caminho mesmo assim...

Entre 1951 e 1952, apareceu uma oportunidade de ir para John Simon Guggenheim Memorial Foundation. Percorri o país de Leste a Oeste. Foi difícil. Por sorte, o Keneth Caster, que trabalhou no Brasil com o Maack, indicou que eu fosse passar um tempo com o professor Edwin D. McKee. Era aquilo que eu precisava. Fui indicado para um estágio no Instituto de La Roya. Conheci o Francis She­­pard, uma pessoa extraordinária.

Uma viagem chamava outra...

Sim. Em 1969, fiquei 45 dias na África do Sul. Acabei indo também à Namíbia, onde fiz medições no campo. Na ocasião, eu estava estudando a paleocirculação dos ventos há 120 milhões de anos. De lá, quis conhecer a Angola. Fui sem nenhum contato.

Comia o que lhe ofereciam...

Não tinha dificuldades. Não era às mil maravilhas, mas descia.

Falando em África, e o Deserto do Saara?

Na década de 1960, depois de ter publicado o primeiro trabalho sobre a deriva continental, movimentos de gelo, essas coisas, me senti mais entrosado no mundo científico. Isso me levou a ser chamado pelo Instituto Argelino de Petróleo para trabalhar no deserto do Saara. Foi espetacular. Acabou sendo um pequeno pulo para participar de projetos da Unesco.

Qual o lugar mais longe que o senhor foi...

O Ártico. Tentei tantas vezes ir à Amazônia e nunca consegui da maneira como eu queria. Foi mais fácil ir ao Saara. Queria ir à Antártida, também não consegui. Mas o Instituto Ártico Americano me levou no Ártico. Veja como são as coisas.

O senhor se considera um pioneiro do ambientalismo...

[risos] Aconteceu algo simples. Quando eu voltava do trabalho do campo, comentava com a Íris, minha mulher, os perigos ao meio ambiente. Naquele momento, foi ela quem mais se preocupou com o assunto. No início de 1970, criou o Movimento de Educação Ambiental, junto com alguns professores e com o Belmiro Castor. Não havia estatuto, era uma ação informal. Foi ela. Dessas conversas surgiu a Adea [Associação de Defesa e Educação Ambiental, uma das primeiras ONGs verdes brasileiras, criada pelos Bigarella].

O senhor sofreu alguma pressão durante o regime militar?

Fui respeitado. Quando estava estudando a Baía de Paranaguá, os militares queriam saber o que eu achava da abertura do Canal da Galheta. Sugeri um levantamento do tipo de sedimento que havia no fundo do mar. O resultado foi assustador. Na ocasião, havia a tendência das madeireiras se instalarem na Serra. Eu disse: ?Derrubem a mata e podem tirar o Porto de Paranaguá dali?. Ia desabar tudo. O corte foi imediatamente proibido.

E o museu de geologia em Vila Velha? Lá se vão dez anos de espera...

Não quero entrar na política do Parque Estadual de Vila Velha. Propus um museu de geociências, um espaço virtual em que se possa assistir, em cenários, ao Big Bang, à formação do sistema solar, à origem da Terra há 4,5 bilhões de anos. O projeto é do professor Maurício Cândido da Silva. É dedicado a crianças e jovens, para que descubram a geologia.

Está em que estágio?

O prédio está construído, mas so­­fremos muitas perdas de recursos pela falta de vontade política: R$ 1 mi­­lhão da Petrobras, mais R$ 2,5 mi­­lhões de outro investidor. Quando este museu estiver pronto para a Copa, novos turistas vão ser atraídos a Vila Velha. São 3 mil e poucos metros quadrados. No primeiro módulo há uma cena da minha namorada. Eu a adoro, só que ela tem 11 mil e poucos anos. Chama-se Luzia. Eu a achei [os vestígios arqueológicos] quando estava orientando um mestrado na Serra da Estrela, na Bahia.

O museu é seu grande sonho?

É o canto do cisne na minha vida.

Quem é o geólogo João José Bigarella?

Quando eu olhava para o recorte de uma estrada, ele era mudo. Não dizia muita coisa. Mas eu fiz um curso de quiromancia. [risos] A quiromante lê a mão da pessoa e o geólogo lê a mão da Terra. Tem de entender o que a Terra quer dizer... Está tudo escrito no livro da Terra. Está tudo gravado lá. Hoje, quando olho uma rocha entro no túnel do tempo e vejo como era o momento de sua formação. Vem sem querer e me faz navegar. Isso se adquire gastando muita sola de sapato. Ser geólogo é 5% de inteligência e 95% de barriga da perna.

Professor Bigarella, como gosta de ser chamado, fala do projeto do Museu de Geologia, há dez anos em construção em Vila Velha, Ponta Grossa. O museu ? pensado para ser interativo e voltado para o grande público ? enfrenta os labirintos da burocracia. ?É meu canto do cisne?, diz o pesquisador.

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