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Religião

O sumiço da santa

Furto e depredação da imagem da padroeira resultaram em momentos de fé e comoção entre os parnanguaras

  • Rosy de Sá Cardoso
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O sumiço da santa

A maioria dos parnanguaras ignora o fato de que a imagem da padroeira Nossa Senhora do Rocio, venerada há 62 anos no atual santuário da santa, não é a original. O aparecimento desta se perde nas brumas do tempo e há pelo menos duas lendas de como ela foi encontrada, em histórias parecidas com tantas outras. Em 15 de dezembro de 1948, correu em Paranaguá a notícia de que a imagem tinha sido roubada. O fato foi publicado pela Gazeta do Povo, em manchete da primeira página do dia 16 : “Profanação da fé e do milagre”.Liderada por autoridades políticas, policiais e religiosas, toda a população lamentava a perda e rezava para que a santinha reaparecesse. No dia 19 de dezembro, o então prefeito João Eugênio Cominése ofereceu recompensa de dez mil cruzeiros a quem localizasse a imagem ou desse informações a seu respeito. No dia seguinte, um suspeito foi preso e, durante o interrogatório, confessou o roubo. Disse mais: que ao retirar a coroa da cabeça da santa – o único objeto de valor material, pois seria de ouro e poderia ter provocado a cobiça do criminoso – a imagem se estilhaçara em suas mãos. Os fragmentos teriam sido enterrados em terrenos baldios do bairro Vila Guarany, conforme registros feitos pelo médico Joaquim Tramujas, ex-vereador e ex-prefeito da cidade: “Em diligência policial da qual participaram o preso e até o prefeito da cidade, alguns deles foram encontrados”.

A coroa da Virgem não apareceu, mas o resplendor do Menino Jesus teria sido achado nas proximidades da igreja. Um negociante da cidade confessou ter comprado o broche que prendia o manto da imagem e o entregou à polícia.

Em 6 de março de 1949, coube ao arcebispo metropolitano dom Ático Euzébio da Rocha a missão de restabelecer a fé perdida pelos fiéis, tornando-se responsável pela entronização da nova imagem no altar da igreja do Rocio. Naquela data, depois de uma missa matutina na Catedral Metropolitana de Curitiba, a cópia da imagem saiu em procissão rumo à Estação Ferroviária, para embarcar em um trem especial, juntamente com autoridades e romeiros, até Paranaguá. No mesmo dia, inúmeros fiéis desceram a Serra do Mar pela rodovia.

Retorno

Conduzida pelo arcebispo em carro aberto, a imagem foi apresentada aos parnanguaras. O uso dos fragmentos da versão anterior na confecção da nova estátua ajudou a incutir junto à população a ideia de que não se tratava de colocar uma nova santa, mas, efetivamente, de receber a original, que voltava. “Eis a santa que voltou a reinar entre nós, independentemente dos percalços materiais que possam querer perturbar a sua trajetória de luz”, teria dito dom Ático, na ocasião. O médico-historiador também registrou essa passagem: ainda durante a missa, “o episódio do roubo ficara para trás e, por ser de natureza policial, esquecido”.

Tão esquecido que o opúsculo Nossa Senhora do Rocio – Breve história, de Monsenhor Vicente Vítola, desde a sua primeira edição, publicada em 1954, passa pelo ano de 1948 ignorando o roubo. Na 5.ª edição, revisada e ampliada em 1992, recorda algumas datas marianas memoráveis, a partir de 1942. A única referência a 1948 menciona a presença da imagem em Curi­tiba, vinda de Paranaguá, para presidir o Primeiro Congres­so Mariano do Paraná.

Lendas relatam o encontro da imagem

Não são raras as imagens da Virgem Maria que aparecem sob águas de mar ou de rios. O mesmo aconteceu com Nossa Senhora do Rocio, devoção tão antiga que se perde no passado e é contada em pelo menos duas lendas.

A história do Pai Berê diz que à beira da Baia de Paranaguá viviam humildes pescadores que do mar tiravam seu sustento. Certa vez, um deles, que seria índio ou africano, chamado Pai Berê, lançava sua rede e não conseguia recolhê-la com um só peixe que fosse, para mitigar a fome de seus filhos. Desesperado, suplicou aos céus que não o desamparasse e atirou a rede pela última vez. Ao puxá-la, sentiu um peso que o fez acreditar ter apanhado pelo menos um peixe. Espantado, verificou que o recolhido das águas era uma pequena imagem de Nossa Senhora, medindo 20 ou 30 centímetros de altura, coberta de gotículas de água que brilhavam como pérolas. Levou-a para sua humilde choça onde, a partir daquele dia, os demais pescadores reuniram-se para rezar e agradecer, pois passaram a recolher muitos frutos do mar.

Rosas-Loucas

Menos divulgada, a outra história foi chamada de lenda das Rosas-Loucas. Diz-se que na região onde hoje é o santuário existiam viçosas touceiras de rosas, que floresciam sempre em novembro. Eram chamadas de loucas pela facilidade com que se despetalavam, mesmo à mais suave brisa vinda do mar. Certa noite, ao largo com suas canoas, os pescadores viram um facho luminoso que, saindo do mar, descrevia uma curva e mergulhava nas moitas das perfumadas rosas. Acreditando num aviso divino que indicasse a existência de algum tesouro enterrado, no dia seguinte foram às moitas das “rosas-loucas”. Lá, encontraram uma pequena imagem de Nossa Senhora, igualmente coberta de gotículas de orvalho.

Embora as duas versões justifiquem o nome Rocio (sinônimo de orvalho) e os títulos Rosa Matutina e Estrela do Mar, com os quais é saudada em ladainhas, algumas fontes de pesquisa – inclusive o mestre Vieira dos Santos – citam ter sido a imagem encontrada na “costeira do Rossio da Vila”.

De acordo com Vieira dos Santos, em 1686 (quando a vila tinha apenas 38 anos de fundação), seus habitantes recorreram “aos favores da Virgem do Rocio para que os livrasse da terrível peste que assolava o litoral”. Com base no relato do historiador, o achado da imagem de Nossa Senhora do Rocio antecedeu em algumas décadas o da Virgem Negra de Aparecida (a padroeira do Brasil), no vale do Rio Paraiba, ocorrido em 1717.

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