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A dama paranista

Adalice Araújo, a guerrilheira Dadá

Em meio à efervescência da década de 60 ela entrou na briga pela cultura. Enfrentou uma Curitiba resistente, Sem erguer a voz, impôs-se como crítica de arte

  • José Carlos Fernandes, com fotos de Marcelo Elias
 
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Ela nasceu em uma tradicional família de ervateiros de Ponta Grossa. Cursou Belas Artes, estudou na Itália e voltou ao Brasil para uma rotina serena de casamento, filhos e algumas vernissages. Mas sua vida de moça de fino-trato não resistiu aos abalos de 1968. Foi quando deu de brigar pela cultura, defender artistas e museus, tornando-se a mais prolífica crítica de arte da história local. Folhas tantas, à Greta Garbo, retirou-se para escrever um dicionário de quatro volumes, 2,4 mil páginas.

"Eu me comparo a uma tartaruga", gargalha a crítica e pesquisadora de arte Adalice Maria de Araújo, idade não-declarada nem sob juramento no tribunal. Sua risada merecia ser gravada e distribuída por aí como um documento sonoro, do naipe de Donga cantando o samba "Pelo telefone". Não faltariam candidatos a guardá-la no celular e exibi-la aos quatro ventos.

Motivos para o fetiche – a rodo. Adalice desfruta de uma rede sem igual, com folga a maior em seu ramo de atuação. Apenas na parede de seu amplo apartamento-arquivo, nas rabeiras da Praça da Ucrânia, guarda nada menos do que seis mil pastas apinhadas de fotos, catálogos e recortes de jornal sobre artistas paranaenses. Boa parte foi visitada em ateliê, entrevistada ao gravador e apoiada como filhos. Mui­tos, hoje marmanjos, ainda a chamam de Tia Dadá.

Sobram-lhe, a propósito, poucas paredes para quadros – e não por menos doou quase toda sua coleção aos sobrinhos. Intocável, somente a tela de Helena Wong, a primeira a quem resenhou, ainda em 1968, o ano em que tudo começou. Livre da tutela do pai e do marido, fez sua própria revolução. Tornou-se a guerrilheira mais bem penteada e ilustrada da República, com várias chamadas para depor no SNI. Não pegou em armas – mas teria sido mais fácil do que sacudir o academicismo da Curi­tiba daqueles tempos. Virou sua causa secreta. Assim permanece.

Mesmo sem ser uma unanimidade, é raro encontrar quem não reconheça a militância de Araújo. Até os não-incluídos nas famosas colunas, publicadas do final dos anos 1960 a 1995 no Diário do Paraná e depois na Gazeta do Povo, se rendem à mulher. A propósito, ela batiza duas galerias de arte em Curitiba – a da Universidade Tuiu­­­ti e outra particular, ainda em trâmite, pertencente ao artista plástico Edílson Viriato, no bairro Rebouças. Quem pode tanto?

Outro motivo para guardar o sorriso de Adalice: dentro e fora de seu círculo havia quem apostasse que ela jamais se livraria da cara de esfinge. Desde 1995, quando se retirou ao silêncio para escrever o Dicionário de Artes Plásticas no Paraná – uma coleção ambiciosa, de quatro volumes somando 2,4 mil páginas – acumulou dores de cabeça, rusgas com a burocracia e até queixas-crime contra traficantes de informações. O tomo I saiu em 2006. Os outros, a Deus pertencem.

Nessa via-sacra, faltou-lhe sobretudo apoio do poder público para consolidar o projeto cultural que, com folga, é o mais completo já dedicado às visualidades em toda a América Latina. Certa vez, a mulher que pagou do bolso cada um dos 500 cromos e 6 mil slides de sua coleção, obras e tudo mais, chegou a declarar ter consumido R$ 1 milhão com esse que é o livro de sua vida. Sugou heranças recebidas de família, raspou tachos de aposentadorias na UFPR e Embap, onde lecionou. Mas não foi nada.

Em 2003, quando Adalice já tinha salvo umas tantas almas com seu purgatório, morreu-lhe o único filho, Marco Francesco Gianatti, de 40 anos, do casamento com o industrial milanês Ermínio Gianatti. A tocante coletânea de poema Odes a Francesco, com ilustrações da fiel escudeira Heliana Grudzien, traduzem a fundura do abismo. Depois das exéquias, foi-se também a saúde. Cada vez se via menos a mulher que fez de sua casa uma pequena editora para um livro gigante. Até que ela voltou – e com os dentes de fora, falando em quadrinhos e em artistas recém-descobertos. "Adorei o André Ducci, da exposição 'Esqueletos são simpáticos'". Riso solto no Bigorrilho.

Adalice já avisou – se aos cinco minutos de mandar para o prelo o último volume do dicionário descobrir um novo artista paranaense de talento, parem as máquinas. Vai incluí-lo na sua curadoria. Se morrer antes de terminar o serviço, os arremates serão feitos por Nilza Procopiak e Marisa Bertoli. Ela acha graça do que diz, acompanha pela casa o persa himalaia Chico, mostra a traquinagem que o gato fez numa tapeçaria de Janete Fernandes. Depois, apresenta suas pesquisadoras – Ruth Be­­­­natto e Lindsay Rocha – e serve um café. "Sou uma paranista. Muitos não gostam dessa palavra. Mas é o que sou...", puxa conversa, a menina do Sion que chutou o balde.

Diria que se tornou "uma dama paranista". E se o termo não existe nos anais da província, que agora seja. Mulheres dessa estirpe, "mix de tropeiro com simbolista", insistem na peleja: Adalice, para quem há tempos não a encontra, continua em riba: fala das velhas rusgas com a paixão de ontem. Nunca revela o nome dos desafetos. No mais, as unhas feitas na Torriton, 12 horas de trabalho por dia, maquiada para uma exposição. Ah, mudou o corte de cabelo. Fez bem. Lembra mais a bela mulher que em meados da década de 1960 surpreendeu ao promover encontros de arte contemporânea, ao criar cursos de História de Arte na UFPR, ao brigar, em voz baixa, que Adalice é de berço.

Seu pai, o industrial da erva-mate Adalberto Araújo, descendia de bandeirantes e índios. A mãe, Inece, era dada a óperas e a poesias. Vinha de uma família de Piza, os Gambassi, participantes da Colônia Cecília, marco do anarquismo no Brasil. A rotina dos Araújo em Ponta Grossa, na primeira metade do século, mais lembra os filmes de Visconti. Quando Adalice e Ada, uma de suas irmãs, partiram para Roma, em longa viagem de estudos, tudo indicava que seriam seduzidas pelos ares europeus. Uma nas artes, a outra na alta-costura.

"Fiquei com o lado mais fraco", conta, sobre sua atitude ao voltar. Em vez de assumir a posição de intelectual deslocada, abraçou a produção visual paranaense com a fúria de um titã. Chegou mesmo a encontrar detratores. Sua geração não entendia muito bem a facilidade com que percebia o it dos jovens artistas, surgidos a cada década, estampados nos jornais dominicais quando mal tinham saído do prédio da Belas, na Emiliano Perneta.

"Mas eu nunca errei", diverte-se, tirando do rosário Bia Wouk e Zimmermann, Schwanke e Raul Cruz ou Newton Goto e Fábio Noronha, para citar 0,00001% do que Adalice farejou. "Briguei pela Liz Szezpanski num salão...", costura. Conversa da boa. Ela até fala na pasta "ET" – "escapou ao tema", na qual guarda os que não nasceram para a coisa. Os nomes rejeitados, segredo para o túmulo, fica devendo à reportagem.

A propósito, não espantem se encontrá-la, loiríssima e finésima na Livraria Itiban, especializada em quadrinhos, batendo um plá com o quadrinista José Aguiar. Seu artigo sobre arte e humor, a constar num dos volumes do dicionário, tem 60 laudas. Ela é capaz de falar uma hora sobre o assunto, com a mesma devoção dedicada a gente como Francisco Faria, Letícia [Faria] Marques ou Eliane Prolik.

"Eu só conhecia o Solda e o Dante. Mas não sou de colocar meia dúzia de nomes e me dar por satisfeita". É verdade. Apenas no volume 1, descreveu 1,3 mil artistas. Nos próximos, pode chegar a 1,301: ela sempre vai alcançar o "um" que falta. Na Itiban se for preciso. Eis a grande virtude da tartaruga.

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