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A mulher dos livros

O destino da srta. Faust

Há uma década, em Francisco Beltrão, ela entendeu que deveria ajudar os livros a chegarem às mãos certas. Assim tem sido

  • PorJosé Carlos Fernandes
  • 25/09/2010 21:10
Edna Faust em seu apartamento na Avenida Batel: voluntária leva livros e revistas para o público mais adequado | Ivonaldo Alexandre/ Gazeta do Povo
Edna Faust em seu apartamento na Avenida Batel: voluntária leva livros e revistas para o público mais adequado| Foto: Ivonaldo Alexandre/ Gazeta do Povo

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Dicas de Edna Faust para amigos do livro e da biblioteca:

- Faça convites bonitos e pacotes com bom acabamento aos colaboradores, nem que dentro tenha embrulhado um maço de balas 7Belo.

- Peça livros para uma centena de editoras. Duas hão de responder e doar livros para alguma biblioteca necessitada.

- Olhe as cadeiras, mesas e placas de uma biblioteca. Mude o que não serve. Pequenas alterações fazem toda a diferença. Em Beltrão, uma plaquinha nova no banheiro melhorou o cuidado dos usuários com o local.

- Pense no perfil do doador. "A senhora tem um filho de 12 anos? Ah, então tem gibis para dar."

- Fuja do discurso "biblioteca coitadinha". Peça doações para um lugar bonito, interessante, onde se reúnem pessoas com sede de conhecimento.

- Faça várias ações a favor do livro ao mesmo tempo. Uma pode não dar certo, mas a outra funciona e não há desânimo.

- O segredo das doações é separar. Um livro sempre tem endereço certo. Por isso é preciso conhecer vários tipos de bibliotecas diferentes – da que funciona numa borracharia à Biblioteca Nacional.

- Monte um "banco de livros". Se as pessoas sabem onde deixar e que há alguém ali pronto a destinar os títulos, a tendência é fazer uso do lugar.

- O lixo vira dinheiro para o livro. Apostilas de cursinho – com sobra as mais doadas – podem ser vendidas e convertidas em livros novos.

- Empreste livros. Mas marque o "dia d" para a devolução. Assim caminha a humanidade.

Em 2000, já formada no curso de Publicidade e Propaganda da Pon­­tifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), a paranaense Edna Faust de­­cidiu brincar com o destino. Tinha 30 anos, a tal da vida inteira pela frente, deixara um emprego no Beto Carrero World e estava de volta a sua cidade natal, a próspera Francisco Beltrão, no Sudoeste do estado. Pois pegou a lista telefônica e abriu-a como se fosse uma Bíblia. Seu dedo parou em um centro de Seicho-no-Ie. Mandou-se para lá. E foi assim que tudo começou.

A filosofia oriental falava em fazer o bem sem olhar a quem e sabedorias do gênero. "Me acendeu", lembra a publicitária, hoje com 40 anos, e à frente do projeto "Amigos da Biblioteca", sua pequena grande obra. Que não esperem números absolutos da mulher alta, ex-jogadora de vôlei, dona de riso largo. Seu apoio ao mundo dos livros se dá sem pompa e sem estatísticas rígidas.

Tudo o que precisa é do sofá para esparramar material – faz uso de um no apartamento on­­de mora, num antigo edifício déco da Ave­­nida Batel –, bloquinho, ca­­ne­­ta e um computador. É dali – e com a sola dos sapatos – que co­­manda uma verdadeira rede de dis­­tribuição de cultura. Não há se­­gre­­dos: Edna ajuda a montar bi­­bliotecas, aponta o lugar adequado para fazer doações e, o melhor, ensina truques de marketing para que os livros não durmam no fundo de uma caixa. "Tem de embrulhar, fazer uma cartinha, mostrar que aquele lote é importante. Alguém vai dar-lhe atenção."

Edna não lembra ao certo qual foi o primeiro livro que leu. Suspeita ter sido Meu pé de laranja lima, clássico infanto-juvenil de José Mauro de Vasconcelos. Caso esteja certa, a obra que fez dela uma leitora – e além disso, uma agente do livro – está numa estante da Biblioteca Municipal de Francisco Beltrão, à qual mais de uma vez ofereceu seus préstimos.

O momento chave da leitora se deu quando tinha 8-9 anos. Ao lado da lavanderia de sua casa ha­­via um quartinho, delegado à ca­­çula dos seis filhos do industrial Geraldo Faust e da professora Derci Kuntze. Em tempo – Edna é gê­­mea de Márcia, hoje casada e com filhos no Mato Grosso. "Sou caçula por cinco minutos..."

Quanto ao quartinho dos fundos, poderia ser um castelinho de bo­­necas, mas virou a "Biblioteca Morgana", forrada de livros trazidos pelos manos mais velhos e, prin­­cipalmente, revistas Cruzeiro, de­­voradas até o miolo. Entre a "Bi­­blio­­teca Morgana" e os primeiros passos do projeto "Amigos da Bi­­blioteca", no entanto, a história de Edna com os livros e a leitura parece ter passado por todas as etapas. Os episódios nesse ínterim dariam uma novela educativa digna de pontificar a Coleção Vagalume.

A folhas tantas, a bibliotecária infanta deu de plantar-se numa banquinha de revistas e lá abastecer seu acervo. Comprava no fiado. O dono do estabelecimento, meio sem jeito, teve de avisar a família da dívida contraída. "Era uma fortuna para uma menina da minha idade. Não imaginava quanto tudo aquilo custava", diverte-se a caloteira involuntária.

O erro nas finanças lhe valeu. Hoje, uma das especialidades da ati­­vista é fazer com que bibliotecas, salas de leitura e prefeituras lucrem com as doações que ela pro­­move. Pelo seus cálculos, com apenas uma das ações que engendrou em Francisco Beltrão, o poder municipal economizou R$ 56 mil. Foram cinco mil títulos. Cada livro ganho valeria R$ 10, mais a publicidade conseguida junto a apoiadores custando "tanto". A conta é de mais.

É bom lembrar que houve o momento em que Edna se afastou do ramo. Foi quando, do alto de seu 1,80 metro, caiu nas raias do vo­­leibol e achou que seria esse o seu ofício. Naquele momento, sua vida de menina encontrara o vértice. É curioso ouvi-la contar o que deixou para trás ao se encantar com as quadras de esporte.

Além da Biblioteca Morgana, abandonou sua "caixa de pessoas" – na qual guardava recortes de revistas de gente famosa e bonita. Dei­­xou também uma mania deliciosa: a de procurar livros escondidos pela casa. Em plena ditadura mi­­litar, um dos meninos da família Faust inventou de gostar mais de política do que o recomendado na­­queles tempos obscuros. Dona Derci tremia só de imaginar um dos guris metido com a guerrilha. Ima­­­ginava a polícia entrando pelo quintal, em busca daquela literatura nada católica. Por isso escondia tudo o que lhe parecesse suspeito.

Em meio à rotina pacata do Sudoeste, Edna encontrou com o que se ocupar. Ela ainda acha graça do jogo de gato e rato, à cata de esconderijos de livros proibidos. E tece longas histórias sobre os manos Cledson, Gláucio, Klênio, Kiko, não raro transformando-os em quase personagens de ficção.

O projeto "Amigos da Bi­­blio­­teca" estava em gestação du­­rante todo esse tempo. A mistura de diversão, boas histórias e gosto pela leitura ajudou para que se tornasse algo simples como abrir uma biblioteca ao lado da lavanderia. Para que se tenha uma ideia do quão pouco Edna gasta para dar vida a seu empreendimento, basta reparar em seus métodos.

Um deles é ir à missa. Depois da bênção final, de comum acordo com o padre, pede a palavra e mostra o livro e a revista aos fiéis. Quem sabe a imagem lhes avive a piedade. Pergunta se está sobrando ma­­téria-prima e se dispõe a recolher. Com a ajuda de um carrinho de supermercado e o braço forte de algum voluntário, faz o que prometeu, sem nunca deixar de mandar uma cartinha de agradecimento. A educação, lembra, é a alma do negócio. "Na primeira vez as pessoas mandam o que têm de pior. Mas da segunda, quando já se livraram do estorvo, tendem a doar títulos melhores".

Em ambos os casos, o trabalho da senhorita Faust é sempre o mesmo: encontrar um abrigo para os livros, seja uma biblioteca pública, particular, um centro comunitário ou coisa que valha. Não existe livro ou revista sem público. Em casos gravíssimos, dá-se um jeito. Edna costuma fazer acertos com cooperativas de catadores de papel. Dá-lhes a maior porcentagem das sobras – 60%. O que volta, trans­­for­­ma em compra de acervo.

Muitos se perguntam de onde ela tira essa ciência do livro. Edna reconhece que deve muito à publicidade, mas afirma que sua maior escola é a mania de fuçar. Pre­­parem-se. Há uma década, desde que decidiu se tornar uma militante do livro e da leitura, entendeu que deveria conhecer todo o per­­cur­­so das obras. De modo que manja de editoração, distribuição, im­­pressão e tudo mais. Radi­­calmente.

Tempos atrás, ficou sabendo que a Biblioteca Pública do Paraná estava oferecendo um curso de limpeza de livros. Fez que fez e conseguiu – do alto de seu porte de baronesa germânica – dividir os subsolos da Rua Cândido Lopes com as humildes senhoras da limpeza. E se tornou uma catedrática nessa modalidade de faxina.

Gostou tanto da brincadeira que, tempos depois, se viu enfurnada no setor de encadernação – com licença, inclusive para uma gafe. "Descobri bem depois que os meninos que trabalham lá são cegos". Também virou chapa dos seguranças. De modo que Edna Faust, a quem interessar possa, é capaz de discorrer sobre o livro, do piso ao teto, como provavelmente poucos o sabem.

Por essas e outras, fica impossível não relacioná-la à personagem Amélie Poulin, vivida no cinema pela atriz dos olhos mágicos, Audrey Tautou. Edna circula pelo mundo sem pedir nada em troca. E tem lá suas manias. Adora fazer listas. Ligar para 0800. Mandar e-mails para a Rede Globo.

Como Amélie, brinca com as coincidências. Nasceu em 5 de junho de 1970. "Cinco-seis-sete", diz ela. E fundou o "Amigos da Biblioteca" em 20 de fevereiro de 2000: "Dois-dois-dois" Dança valsas sozinha, sem mágoa. Um belo dia, desviou, tímida, da poeta Helena Kolody. Noutro se viu, por e-mail, ensinando um desconhecido da África a montar uma salinha de leitura. Pediu que procurasse duas tábuas e alguns tijolos, formando uma estante. Quem já montou uma – e a povoou de livros –, bem o sabe: é fabuloso.

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