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Aconteceu em Irati

Os Stoklos - uma família em performance

Pai da performer Denise Stoklos bateu na porta de um grande colégio. Não entrou. Mas foi ali que sua vida começou a mudar

  • Larissa Jedyn, com fotos de Marcelo Elias
 
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Do alto do morro, o Colégio São Vicente olha para a Irati aos seus pés. Não há quem não veja a construção imponente lá em cima. Deve ter sido por isso que João Stoklos, com apenas 11 anos, escolheu bater à porta – quando ainda era um seminário – em busca de abrigo.

O menino tinha perdido o pai, André, que veio da Ucrânia para Prudentópolis, no Centro-Sul do Paraná. Com a morte dele, foi-se o sossego: os negócios deram para trás, a mãe se fechou numa melancolia de dar dó e João foi pingando de casa em casa.

Resolveu seguir para Irati, ao Sul. Só que no São Vicente não foi aceito, pela falta de um enxoval. Metros dali, João sentou, chorou e em meio às lágrimas lembrou dos biscoitos Matilde, que, segundo a embalagem, nasciam e moravam em Irati. Era madrugada quando chegou à porta da Panificadora Wasilewski, a fabricante das bolachas, e dona Madalena e seu João acolheram o menino.

"Dali em diante, ele passou a trabalhar na panificadora, a descarregar as mercadorias que vinham de trem, aprendeu a fazer pão e, mais tarde, passou a fazer entregas bem cedinho. Quando sabia que uma família tinha mais gente do que o previsto, deixava algumas unidades a mais e descontava do próprio salário", conta Sérgio, 48 anos, filho caçula de João e atual prefeito de Irati.

Esse é só o começo da história de João Stoklos, que hoje é nome de rua na cidade paranaense, e teve com dona Jany, além do prefeito Sérgio, a psicanalista Dayse, 61, o comerciante João Luiz, 57, e a atriz Denise Stoklos, 60 – aquela das caras e bocas e cabelo descolorido, que figura entre os grandes nomes da mímica internacional.

"De padeiro virou projetor de filmes. Começou com os mudos, passou aos falados. Sem contar que também desenhava os cartazes de divulgação. Quando via o ex-presidente dos Estados Unidos na tevê, enchia o peito e dizia: 'Eu projetei esse homem'", diverte-se Dayse.

Pelas contas dela e de Sérgio, depois do cinema João resolveu montar rádios para vender. "Da primeira vez em que o rádio 'falou', o pai não conseguiu dormir", recordam.

A estratégia para o negócio era a seguinte: ele colocava um rádio na carroceria do seu Ford e ia para as colônias mais distantes. Como sabia que não comprariam nada de cara, chegava às casas perguntando por um qualquer. Quando diziam que não havia ninguém com aquele nome, vinha o bote: "Contava que tinha trazido o rádio para a pessoa, mas que não podia levar o equipamento de volta. Pedia para que guardassem até que encontrasse o verdadeiro dono. O detalhe era que ele deixava o rádio com bateria suficiente para uns 15 dias e ensinava a usar. Quando voltava, ninguém mais queria se desfazer do rádio", conta Sérgio.

Jany

Quando dona Jany entrou na vida do João, tudo passou a ter mais graça, dança e música. Basta dar uma olhada nos álbuns em que não demora a surgir uma foto da professorinha Jany fantasiada para o carnaval. A vitrola da casa ainda guarda o vinil "Recu­­­erdos del Tango", na voz do incontestável Carlos Gardel. Ela se foi há cinco meses. Ele, há sete anos.

"Lembro de acordar com ela rindo logo cedo", comenta João Luiz. "Minha mãe foi a primeira performer que conheci. Ela narrava o mesmo episódio de um jeito sempre novo, repleto de humor. Contava as cenas que presenciava compondo o quadro inteiro, com direito a imitações do jeito que as pessoas falavam. Acho que foi aí que tive a primeira noção de 'repertório'", comenta Denise.

Da mãe, todos juram ter um pouco: "Eu puxei o referencial feminino, o Sérgio tem esse respeito ao outro, a Denise tem o humor e o João esse jeito de se dar bem com todo mundo", analisa Dayse.

O gosto do casal Stoklos pelas artes acabou fazendo com que na casa da Avenida Munhoz da Rocha houvesse sempre uma coleção de discos de música clássica, uma enciclopédia nova, um catálogo de peça de teatro, ingressos de sobra para o cinema e o circo.

O mais bacana, segundo Deni­­se, é que o incentivo vinha acompanhado de curiosidades. "O pai gostava de explicar como eram criados os efeitos especiais, contava que os cenários eram feitos de papelão", lembra Denise. Isso tudo ajudou a fazer dos Stoklos diferentes dos demais. Eles aprenderam, por exemplo, a rir de si mesmos.

"O pai dizia que a gente sabia das coisas mais do que ele. E graças a isso estudamos, vivemos em Curitiba sozinhos e sempre soubemos até onde podíamos ir. Nunca nos repreendia. Nem precisava. Seu silêncio valia por um discurso inteiro", comenta Sérgio.

"Lembro de uma vez em que fui comentar sobre um amigo do pai, que tinha um papo e usei essa característica para identificá-lo. Ele me olhou e disse que não sabia de quem eu estava falando, que nunca tinha reparado que algum amigo seu tivesse papo. A lição foi aprendida. O preconceito estava fora de nossas vidas", diz Dayse.

Pela vida afora

Desde pequena, Denise dava sinais de que se encaminharia para as artes. Os teatros feitos com lençóis eram comuns em casa, assim como a família inteira na plateia. Isso sem contar a imitação dos professores, do padre, da freira do colégio. "Tudo que passava por mim, se não fosse representado, pareceria não vivido", comenta a filha mais famosa de João e Jany, hoje vivendo em São Paulo.

Dayse ria de tudo o que Denise aprontava. Ainda mais quando se escondia de medo da avó que sofria de distúrbios psíquicos. "Quando meu pai pôde, ele a internou num hospital em Curitiba. A gente ia visitar. Ele chegava falando em ucraniano e minha vó ficava quieta, repetindo gestos. Eu me encantava com aquilo, tentava imitar, para desespero da minha mãe que achava que aquela melancolia podia ser hereditária", lembra.

"Meu pai dizia que ela era doente, mas, pra mim, doença era sarampo. Queria descobrir o que ela tinha", diz. Menina de tudo, Dayse passou a vasculhar os dicionários atrás de tudo que começasse com "psi": psicose, psicanalista, psicotrópicos... Virou psicanalista.

Os meninos, repetem os Stoklos, saíram ao pai. João Luiz virou comerciante no Rio Grande do Sul. "Eu acho que foi por causa dele. O pai sempre teve comércio. Lembro quando eu e a Denise íamos para a loja e, após o expediente, ficávamos horas brincando com os carrinhos de pedal, bolas, jogos, triciclos. Aquilo era um paraíso."

Sérgio resolveu ser médico e enveredou pela política – arranjou um jeito próprio para continuar a ajudar as pessoas, como fazia o pai. "De pequeno, eu gostava de montar cidades, identificar problemas e arranjar soluções. Gostava também de fazer discursos", comenta o caçula, o único a viver em Irati.

Desde a morte de dona Jany, em abril, Denise e João Luiz não voltaram à cidade. Planos não faltam. Dayse saiu de Curitiba e foi para lá em uma das entrevistas à Gazeta do Povo. Todos na cidade estarão à espera deles. E o primeiro a vê-los chegar será o Colégio São Vicente, a escola do alto do morro onde João queria se abrigar.

A propósito, seus quatro filhos – Dayse e Denise, João e Sérgio – estudaram lá.

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