Vista urbana de Telêmaco com a Klabin ao fundo: 95% do território da cidade é coberto de pinus para o extrativismo | Henry Milléo/ Gazeta do Povo
Vista urbana de Telêmaco com a Klabin ao fundo: 95% do território da cidade é coberto de pinus para o extrativismo| Foto: Henry Milléo/ Gazeta do Povo

Resultado da "parada" vem 9 meses depois

A Klabin impacta a demografia de Telêmaco Borba não só atraindo migrantes em busca de emprego. Uma vez por ano a fábrica para por duas ou três semanas para manutenção das máquinas. É quando os operários interagem com os locais em bares e outros pontos de encontro. Dessas rápidas relações nasce um fenômeno muito conhecido na cidade: "os filhos da parada".

Só para efeito de ilustração, a secretária municipal de Assis­­tência Social, Rita Mara de Paula Araújo, cita o caso de uma moça da zona rural que engravidou de um funcionário da Klabin de quem não sabia nem o primeiro nome. Esse é só um entre tantos casos, ainda que faltem estatísticas a respeito. "O resultado da ‘parada’ a gente vê nove meses depois", brinca o prefeito Eros Danilo Araújo.

Seja com a migração, seja com os "filhos da parada", a administração municipal se vê às voltas com uma procura crescente por cestas básicas, serviços nas escolas, creches, hospitais, postos de saúde. As vacinas, por exemplo, nunca chegam em lotes suficientes dada a oscilação da população. "Infe­­lizmente o orçamento não cresce na mesma proporção", lamenta o prefeito.

Cidade parece ter vocação para grandes obras

Telêmaco Borba vive numa constante roda-viva. A topografia ajuda na vocação para grandes obras. Quando ainda nem havia terminado a ampliação da Klabin, iniciaram-se em 2008 as obras da usina hidrelétrica de Mauá, no Rio Tibagi, entre Telêmaco Borba e Ortigueira, nos Campos Gerais. Ao entrar em operação, possivelmente no primeiro semestre de 2012, a usina vai gerar energia suficiente para atender o consumo de 1 milhão de pessoas. Mas antes mesmo de começar a pagar royalties pela geração de energia, a usina já mexe com a economia regional.

O investimento total na obra, que faz parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), é de cerca de R$ 1,2 bilhão. Ainda que só uma mínima parte dessa quantia fique em Telêmaco, já é o suficiente para estimular o comércio local. Afinal, são 1.800 operários que precisam comer, se vestir, se divertir. Na avaliação do coordenador do curso de Ciências Contábeis da Faculdade de Telêmaco Borba, Getúlio Nunes Gonçalves, a usina está mudando o perfil socioeconômico da cidade porque trouxe gente de várias partes do Brasil.

O advogado e historiador André Miguel Coraiola acredita que os ganhos ainda estão por vir. A maior expressão disso, diz ele, estará nos setores náutico e turístico com o futuro reservatório. A usina é alvo de polêmica desde o anúncio da construção. Chegou a ficar embargada por oito meses devido ao licenciamento ambiental. Movimentos sociais, ambientalistas, setores da Igreja Católica e índios também contestam a obra. Para Coraiola, isso tudo vai passar. "As pessoas precisam ver que os ganhos serão maiores do que as perdas", diz. "Só lamento que ela não seja maior do que é."

  • Doze mil moradores dependem do Bolsa Família e mais 20 mil estão na fila de espera ou se viram com algum outro programa estatal.

Telêmaco Borba - Telêmaco Borba é uma cidade cercada de Klabin por todos os lados, um rasgo urbano em meio a uma vastidão de pinus na região centro oriental do Paraná, distante 250 quilômetros de Curitiba. Principal planta da Klabin, a fábrica de Telêmaco puxa a dianteira da maior produtora, exportadora e recicladora de papéis do país, um conglomerado com receita líquida de R$ 3,7 bilhões e 17 indústrias em oito estados e na Argentina. Foi por obra e graça dessa fábrica que a Fazenda Monte Alegre saiu da condição de povoado para virar cidade. Não uma cidade qualquer. Telêmaco é a capital do papel.

A Klabin é, por assim dizer, a mãe de Telêmaco. A grande provedora. Pelas contas do prefeito Eros Danilo Araújo, a empresa responde de forma direta e indireta por 50% das receitas municipais, que em 2012 devem chegar fácil a R$ 100 milhões. A interação é constante, já que a maioria dos funcionários da indústria mora na cidade. Os maiores empregadores do município são, pela ordem, a Klabin, a prefeitura e o Instituto Nacional de Seguro Social (INSS). Ainda que não faltem recursos e incentivos, a cidade não consegue traduzi-los em bons indicadores sociais.

Dos 70 mil habitantes, 12 mil dependem do Bolsa Família, levando-se em conta que os 2.926 benefícios atendem quatro pessoas por família, em média. Além desses, mais 20 mil estão na fila de espera ou se viram com algum outro programa estatal. "Isso nos assusta", diz o prefeito. A frase, mesmo em tom casual, sintetiza a instabilidade de um município onde o entra e sai é constante. Só entre 2007 e 2009, pelo menos 10 mil pessoas chegaram atraídas pelo anúncio da ampliação das instalações da Klabin, um investimento de R$ 2,2 bilhões e 4,5 mil empregos durante as obras.

A maioria não conseguiu colocação, pela falta de vagas ou de qualificação profissional, mas muitos ficaram e acabaram pendurados nas abas do poder público, como muitos outros antes deles. Na esteira dessa população flutuante, em média 30 mil pessoas costumam orbitar em torno da Secretaria de Assistência Social. Atualmente são 32 mil, ou 45% da população local. O prefeito garante que Telêmaco tem gordura para queimar. E não só graças à Klabin. A usina de Mauá, em fase de conclusão, vai irrigar a região com dinheiro dos royalties (leia mais nesta página).

O município tem uma área de 1.225 km², dos quais apenas 64 km² destinados à ocupação urbana. Ou seja, 95% do território é coberto de pinus para o extrativismo. E a cidade ainda perdeu em 1997 o único cinturão agrícola, com a emancipação política de Imbaú. Mas Telêmaco não tem do que se queixar. Afinal, seu desenvolvimento se deve à compra da Fazenda Monte Alegre pelas famílias Klabin e Lafer, em 1933, para expandir os negócios de produção de papel iniciados em 1899 no interior de São Paulo.

Nove entre dez moradores de Telêmaco sonham com um emprego na fabricante de papéis. A necessidade de formar mão de obra especializada levou à criação da Faculdade de Telêmaco Borba (Fateb), além de um câmpus da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). "Essas instituições deram uma nova perspectiva para os jovens", avalia o coordenador do curso de Ciências Contábeis da Fateb, Getúlio Nunes Gonçalves. "Hoje eles sonham ser engenheiros, médicos, advogados", diz. Um futuro que não existiria não fosse a Klabin, arrisca dizer o professor.

O projeto Retratos Paraná, iniciado em 26 de setembro, traz reportagens sobre aspectos sociais e econômicos de diversas cidades do estado. Confira todo o conteúdo e um banco de dados on-line em www.gazetadopovo.com.br/retratosparana

Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]