Família de Isaías Ribeiro dos Santos: atividade informal e Bolsa Família para garantir o sustento| Foto: Hugo Harada/ Gazeta do Povo

Coleção de polêmicas

A empresa que deu origem ao segundo bairro mais rico do Paraná possui uma história bastante controversa, que inclui não apenas a falência, mas também desdobramentos judiciais e denúncias de irregularidades. A Olvepar encerrou suas atividades em 2000, quando entrou em concordata e deixou grandes quantidades de milho e soja armazenadas em suas unidades, espalhadas pelas regiões Sul e Centro-Oeste do país.

Uma dessas unidades estava instalada em Cleve­lândia, onde iniciou as atividades em 1978. Para abrigar os diretores da empresa, foi construído o condomínio Vale do Sol. Após a falência, esses funcionários começaram a deixar o local, permitindo que as residências fossem adquiridas por valores abaixo do preço de mercado. Segundo a síndica do condomínio, Tânia Jacobsen, o último dos ex-diretores deixou o local há pelo menos dois anos. Apenas uma casa está desocupada atualmente.

A unidade de Clevelândia da Olvepar foi arrendada pela Santa Rosa, empresa produtora de óleo e farelo de soja, no início de 2010. Quando encerrou suas atividades, a Olvepar prejudicou centenas de produtores em diversos estados, que tiveram de recorrer à Justiça para receber os valores a que tinham direito.

A empresa também esteve envolvida em denúncias de irregularidades. Em 2002, quando estava em processo de falência, a Olvepar conseguiu a compensação de um crédito de ICMS junto à Copel, cujo pagamento havia sido negado pela Justiça e desaconselhado pela Re­­ceita Estadual. Originalmente o valor era de R$ 45 milhões, mas foi reduzido a R$ 39 milhões. O ex-governador Jaime Lerner, entre outros políticos, foi denunciado pelo Ministério Público Federal por participação no caso. O processo ainda corre na Justiça.

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Tânia Jacobsen, no Vale do Sol: status de bairro nobre seria reflexo do reduzido número de moradores
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Em uma ponta da cidade, um condomínio com nove residências luxuosas, sem muros, com jardins bem cuidados e segurança privada. A aproximadamente dez quilômetros dali, em outra extremidade do município, um conjunto de pelo menos cem casas modestas, distribuídas entre ruas sem asfalto e sem rede de esgoto. Esse cenário poderia fazer parte de uma metrópole, mas está em Clevelândia, na Região Sul do Paraná, que com apenas 17 mil habitantes abriga um dos maiores contrastes sociais do estado. Nela estão localizados o Vale do Sol, considerado o segundo bairro mais rico do Paraná, e o Nelson Eloy Petry, o mais pobre de todos.

São apenas duas ruas e uma história peculiar. O Vale do Sol nasceu no fim da década de 1970, como um condomínio destinado a abrigar os diretores da Óleos Vegetais do Paraná S/A (Olvepar), empresa que funcionava a poucos metros dali e que em 2000 teve sua falência decretada. Os funcionários da empresa foram aos poucos deixando o local, mas os novos moradores mantiveram tudo inalterado. Sem muros ou grades, as residências formam um conjunto separado discretamente da cidade – por um portão e uma guarita, onde um guardião faz vigília apenas à noite.

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São apenas nove residências e 29 moradores, que garantem ao bairro um rendimento médio per capita de R$ 5.283, segundo o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Renda inferior somente à verificada no bairro Bela Suíça, em Londrina, onde a média é de R$ 5.346 por habitante. Seus moradores reconhecem que têm um padrão de vida elevado, mas rechaçam o status que as estatísticas lhe conferem.

Para a síndica do condomínio, Tânia Jacobsen, a explicação para o segundo lugar no ranking dos bairros mais ricos do Paraná está no fato de contar com poucos moradores. "A maioria das casas tem apenas duas ou três pessoas morando. Como são famílias que têm um padrão financeiro um pouco mais elevado, a renda individual acaba ficando alta", avalia a veterinária, que vive com o marido e um filho. De acordo com ela, o clima de tranquilidade e amizade entre seus moradores faz a diferença.

Precariedade

Após atravessar a cidade e percorrer uma via de calçamento, chega-se àquele que é apontado como o bairro mais pobre do Paraná. No Nelson Eloy Petry, o rendimento médio de seus cerca de 500 moradores é de R$ 193, pouco mais que um terço do salário mínimo. A situação é visível na precariedade do local: são vários barracos de madeira, com um ou dois cômodos, providos de energia elétrica e água encanada, mas sem rede de esgoto. Além disso, os relatos dos moradores apontam para um elevado índice de criminalidade na região.

Em uma dessas casas vive Isaías Ribeiro dos Santos, que divide a habitação com outras nove pessoas. O sustento vem dele e do sobrinho, os únicos que trabalham, e do benefício recebido pela esposa através do Bolsa Família. "Não é muita coisa que a gente ganha, sustentamos a casa do jeito que dá", afirma Isaías. "Aqui é bom porque temos a nossa casa, mas está muito ruim de serviço."

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