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Desenvolvimento

Mudança de vida regada a leite

Produção familiar ganhou nova direção com a chegada das vacas em preto e branco no Sudoeste do Paraná. Renda fixa e chance de crescimento representam alívio para os produtores

  • PorBruna Maestri Walter, enviada especial
  • 02/01/2012 21:02
Animais da raça holandesa, campeões em produtividade na ordenha, substituíram vacas mestiças nas últimas duas décadas | Hugo Harada/Gazeta do Povo
Animais da raça holandesa, campeões em produtividade na ordenha, substituíram vacas mestiças nas últimas duas décadas| Foto: Hugo Harada/Gazeta do Povo
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Trabalho e renda

A estruturação da pecuária leiteira muda as perspectivas da agricultura familiar.

Sair de casa cedo pela manhã, deixar os dois filhos sozinhos e sofrer de depressão era a realidade vivida por Ieda Forlin há dez anos. Como a lavoura não dava lucro, trabalhava em uma fábrica de confecção para ter um ganho a mais. A situação mudou em 1996, quando ela e o marido, Euclides (com a esposa na foto), souberam dos benefícios da produção leiteira. "Começamos e fomos nos empolgando com aquilo", diz Ieda. "Hoje 50% do que a gente tem se deve à produção de leite."

O produtor rural Moisés Sauer, 53 anos, chegou a Chopinzinho em 1995 por um programa de reassentamento rural. Ele começou na atividade leiteira em 1999 e, a partir daí, passou a ter lucro. "Se não fosse o leite nós não faríamos nem o rancho (compras mensais)", diz Moisés. Ele tem três filhos – dois saíram para trabalhar e estudar fora. Já o caçula, Jorge (à direita na foto), diz que irá ficar no campo ajudando o pai e a mãe, Irene (centro).

Família Fortuna saiu do atoleiro comprando vacas com financiamento.

Fotos: Hugo Harada/Gazeta do Povo

Chopinzinho - Há 12 anos, a família de Clau­di­no Fortuna tinha prosperidade apenas no sobrenome. Morado­res de Chopinzinho, no Sudoeste do Paraná, eles criavam porcos e não tiravam nem um salário mínimo por mês. A mãe, Elenita, tentava aumentar a renda vendendo galinha, ovo e queijo, sem sucesso. A situação piorou quando a família foi à falência na suinocultura e três dos cinco filhos tiveram de sair do campo em busca de emprego.

Diante da situação, os For­­tuna resolveram implantar na pro­prie­dade uma atividade que ga­­nhava força na região no fim da década de 90: a produção de leite. Os pe­­quenos produtores perceberam que essa seria a melhor maneira de lucrar na agricultura familiar, porque não exige grandes áreas, usa mão de obra própria e gera um ganho mensal.

A família Fortuna se lançou na produção de leite graças a fi­­nan­ciamentos, que permitiram a compra de novilhas e de ordenhadeira. A propriedade foi se desenvolvendo e hoje a família tem 33 vacas e uma renda bruta de R$ 16 mil por mês. "É um in­­vestimento que veio para ficar", garante o filho Clau­­demir Fortu­­na.

O município de Chopinzinho produz mais de 60 milhões de litros de leite por ano. Está na re­­gião que mais contribuiu para dobrar a produção do estado na última década. O lucro dos produtores tem fortalecido a arrecadação municipal, injetado R$ 3 mi­­lhões por mês no comércio e diminuído o êxodo rural. Diante dos benefícios, os gestores municipais logo perceberam que era preciso profissionalizar a atividade, com monitoramento da sa­­nidade animal e certificação da qualidade do leite.

Em 2010, a prefeitura criou o serviço de urgência e emergência animal. Funciona assim: o pro­­du­tor que tem algum animal doente telefona à Secretaria da Agricultu­ra, que encaminha um veterinário à propriedade. O aten­­dimento é gratuito, fornecido das 7h30 às 17 horas. Cobra-se apenas o custo da medicação. "Sem o programa, o custo de um veterinário seria de R$ 100 a R$ 150 ao produtor", diz o secretário municipal da Agricultura, Meio Ambiente e Zootecnia, Luiz Pasquali. Como contrapartida, o agricultor familiar firma o compromisso de vender a produção com nota fiscal.

Em outra ponta da cadeia do leite, na tentativa de prevenir doen­­­­ças, a cidade implantou um laboratório para exames de brucelose e tuberculose nos animais, o primeiro do tipo no Bra­­sil, de acordo com o secretário. O laboratório foi fruto de uma parceria público-privada com sete laticínios, que doaram R$ 44 mil. A prefeitura consegue fazer os exames cobrando R$ 5,50 por animal. Pasquali afirma que na rede particular o mesmo exame custaria de R$ 25 a R$ 30. "Em 10 mil exames do ano passado, tivemos de abater sete animais doentes", relata. A vacinação gratuita também é fornecida.

Os programas dão a possibilidade de o agricultor vender o produto, a garantia de que o rebanho dele tem valor, a colocação de um produto diferenciado na região e a manutenção da sanidade humana e animal. Chopinzinho tem ainda projeto para implantar um selo de qualidade no leite dentro de três anos. "O leite veio para ficar. Se perder essa, não tem outra solução tão boa para a pequena propriedade na realidade da massa", conclui o secretário. Nada mais indicado que cuidar bem desse setor.

Sudoeste é alavanca do setor

A produção de leite do Paraná dobrou em dez anos, chegando a 3,6 bilhões de litros em 2010, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A nova marca permitiu ao setor arrecadar RS 2,4 bilhões em um ano. Um terço desse crescimento deve-se à elevação da produção no Sudoeste do estado, onde fica Chopinzinho.

A região tem funcionado co­­mo alavanca da pecuária leiteira. É a que mais produz leite no Paraná desde 2010, quando ul­­trapassou o Oeste. Detém 26% do volume e do valor bruto da produção estadual.

As novas marcas, segundo o setor, têm sido atingidas com investimento em genética. Aos poucos, o gado mestiço é substituído por vacas da raça holandesa, normalmente com inseminação artificial. Além disso, os produtores se especializam em alimentação animal. Avançam ainda oferecendo mais conforto às vacas, com sombra e água fresca garantidas no verão.

A avaliação dos técnicos é de que ainda há muito a avançar. Eles consideram que fazendas de outras regiões do estado que possuem rebanhos menores, co­­mo os Campos Gerais, atingem produtividade dobrada, com até 40 litros de leite por vaca ao dia.

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