A diarista Raquel Anselmo com a família, em Ortigueira: “Aqui não tem emprego. Serviço para mulher é só o de doméstica”, reclama | Jonathan Campos/ Gazeta do Povo
A diarista Raquel Anselmo com a família, em Ortigueira: “Aqui não tem emprego. Serviço para mulher é só o de doméstica”, reclama| Foto: Jonathan Campos/ Gazeta do Povo

Cidade carece de mais médicos especialistas

Um pediatra na cidade inteira. A falta de especialistas é um dos principais problemas na área de saúde em Ortigueira, onde não há hospitais. O Hospital São Francisco, que tinha sido reformado, fechou em agosto deste ano por falta de recursos. Há ainda um inquérito na delegacia local investigando suspeitas de irregularidades na instituição.

À população coube buscar atendimento em uma clínica particular, que também faz atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), e em uma unidade de saúde municipal. "Fui no posto e não tinha remédio. Gastei R$ 65 na farmácia", conta o açougueiro Elias Santana, 27 anos.

O aposentado José Louredo, 88 anos, também reclama. "Não vou mais ao médico. Não tem médico suficiente", relata. A saída tem sido usar a ajuda da prefeitura. Quando a saúde necessita de um especialista, o morador pede o transporte da prefeitura, que o leva a Curitiba ou a alguma cidade mais estruturada da região.

Prefeito

Para o prefeito Geraldo Magela (PSDB), o São Francisco é importante, mas diz que o hospital não tem feito falta até o momento. "Temos pronto-socorro próprio. Nenhum dos dois [clínica e unidade de saúde] tem especialidades. Quando há problemas mais sérios, encaminhamos para Curitiba", explica. De acordo com o prefeito, os 13 enfermeiros e quatro médicos concursados pela prefeitura têm dado conta da saúde de Ortigueira.

Projeto social alimenta sonhos de 160 crianças

Uma iniciativa implantada em Ortigueira que alcançou destaque nacional busca melhorar os índices na educação. O projeto educacional Casa da Criança de Ortigueira dá apoio a 160 crianças e adolescentes com problemas estruturais na família. A ação é mantida pela Associação Antônio Marques Cavani, da congregação católica Irmãos Cavani.

"O nível de vida mudou em Ortigueira, mas as necessidades são exatamente as mesmas. A cidade deixa a desejar na perspectiva de crescimento", afirma o diretor do projeto, Amilton Carlos Benedito. Por isso, é feita uma triagem dos candidatos – são muitos – para ingressar no projeto. Ortigueira é uma das seis cidades que recebem o projeto, que foi semifinalista do Prêmio Itaú/Unicef em 2005.

Desafio

A ideia da ação é reinserir as crianças rapidamente na sociedade. O grande desafio é fazer com que elas cresçam com projetos de vida mais ambiciosos do que o de seus familiares. "Em Ortigueira, dificilmente você vê uma dessas crianças ir além do que o pai e a mãe foram", diz o diretor.

Por isso, o projeto trabalha com temas como formação digital e humana, sexualidade, meio ambiente, integração familiar e assistência social. E tudo isso tem dado resultado. "Eu venho sempre aqui. Me ajudou com as tarefas. É importante para eu crescer", conta o aluno Wenderson Gabriel Pereira, 11 anos.

  • Crianças atendidas pelo projeto educacional Casa da Criança de Ortigueira: iniciativa ajuda alunos a pensar em projetos de vida mais ambiciosos do que o de seus familiares

A proliferação da planta urtiga, que dá origem ao nome de Ortigueira, na Região Central do estado, não causa mais tanta coceira como em 1951, quando a cidade se emancipou. Hoje o que provoca incômodo é a falta de desenvolvimento e a dúvida sobre quando o município vai evoluir socialmente. Ortigueira tem o pior Índice de Desenvol­vimento Humano (IDH) do Paraná (0,620), calculado em 2000 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). O IDH varia de 0 a 1. Quanto mais distante de 1, menos desenvolvida é a cidade.

Passados 11 anos da medição do índice que leva em conta números da educação, longevidade e renda da população, é possível verificar que quase nada mudou na cidade. O baixo IDH pode estar por trás do êxodo no município. Entre 1980 e 1991, o número de moradores passou de 50.113 para 27.504 – uma diminuição de 45%. De acordo com o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Esta­tística, de 2010, a cidade tem 23.380 habitantes. A perda populacional nos últimos dez anos foi de 1.836 pessoas.

Segundo a doutora em Geo­grafia e especialista em Ciên­cias Sociais da Universidade Estadual de Maringá (UEM) Ângela Maria Endlich, o êxodo pode significar que ficou inviável a sobrevivência na cidade. "Quando há grande perda de população, quase sempre ela está marcada pela necessidade de sobrevivência", explica. Permanecer em Orti­gueira, para muitos, pode significar desistir de estudar ou desenvolver uma carreira profissional, de acordo com a especialista.

Sem emprego

É o que ocorre com Raquel An­sel­mo, moradora do Jardim Alvorada, um dos bairros mais pobres de Ortigueira. Ela mora com a tia, a irmã e mais dois sobrinhos em um casebre. É diarista, mas planeja vir para Curitiba e tentar um emprego como vendedora em algum shopping. "Aqui não tem serviço. Em Ortigueira, serviço para mulher é só o de doméstica", reclama.

Relatos como o de Raquel são comuns na região. O mais preocupante é que a perspectiva de melhora se resume às opiniões políticas. "Quase sempre a expectativa das pessoas é que uma grande planta industrial seria a saída. É preciso pensar em várias estratégias, que somadas podem trazer resultados positivos: estímulo a associações e cooperativas diversas, formação humana e profissional da população, melhorias na articulação local/regional, dentre outros", opina a professora Ângela.

Cálculo

O IDH é a média feita com base em três subíndices: longevidade (que mede o tempo de vida e outros aspectos da saúde), educação (alfabetização e taxa de frequência escolar) e renda per capita e outros aspectos econômicos da população. De acordo com o sociólogo e cientista político da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Ricardo Oliveira, o índice concede uma base de dados para estruturar políticas públicas em regiões mais necessitadas. "O IDH expressa as condições sociais. É uma ferramenta fundamental", aponta.

Índices semelhantes são calculados por outras entidades. A Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), por exemplo, lançou há cerca de um mês o estudo sobre o Índice de Desen­volvimento Municipal relativo ao ano de 2009. Pelo índice Firjan, Ortigueira chegou à taxa 0,624 de desenvolvimento municipal e ficou na 365.ª posição entre os 399 municípios do Paraná.

Trabalho bom é difícil de encontrar

A renda é o pior indicador no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de Ortigueira. Uma das razões é a falta de oportunidades de trabalho, que causa a saída de muitos moradores. De acordo com o IBGE, havia em 2009 apenas 302 empresas atuantes na cidade. A maior parte da população mora na área rural e trabalha nas fazendas da região.

"Eu mexo com obra num dia e às vezes não tem no outro. Não há emprego em Ortigueira", afirma o pedreiro Jair Pontes, 39 anos, morador de uma área de invasão próxima ao centro do município. Ele e o irmão, José Pontes, 52 anos, sustentam uma família de cinco pessoas com R$ 350 por mês. A família mora ao lado da construção de algumas casas do programa Minha Casa, Minha Vida, da Caixa Econômica Federal, para onde esperam se mudar quando tudo estiver pronto. Enquanto isso, ficam alojados em um casebre improvisado, com chão de barro, apinhados em um sofá, e sem emprego fixo.

Dependência

Uma característica de cidades como Ortigueira é a dependência da prefeitura e de programas públicos de transferência de renda. Hoje há 2.696 famílias cadastradas no Bolsa Família. De acordo com a professora da UEM Ângela Maria Endlich, a oferta de serviços em regiões como a de Ortigueira poderá evoluir quando houver um sistema de cooperação intermunicipal.

Ao contrário do senso comum, o prefeito Geraldo Ma­­gela garante que não falta emprego. "Você chega a Or­­ti­gueira procurando algo e tem. Há sete mercados de bom porte. Tem cinco lojas de material de construção. Fizemos de Orti­gueira o maior produtor de mel do Paraná. É o maior rebanho bovino do estado", rebate.

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