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Crônica policial

Esqueça-me se for capaz

Historiador “por hobby” tira do limbo espetacular estelionatário que zombou da Justiça, inspirou escritores e acabou vítima de crime passional

  • PorJosé Carlos Fernandes
  • 02/11/2012 21:09
Afonso e a família: contraventor se safou da Justiça, mas não dos dramas familiares | Acervo Biblioteca Nacional
Afonso e a família: contraventor se safou da Justiça, mas não dos dramas familiares| Foto: Acervo Biblioteca Nacional

No Paraná

Golpe nos barões da erva-mate em Curitiba

Numa das fontes encontradas pelo pesquisador Ely Carneiro de Paiva, consta que Afonso Coelho de Andrade, durante o período de sua regeneração, foi acusado de derramar notas falsas. Defendeu-se, lembrando estar fora do ramo havia tempo. Mas que não pensaria duas vezes em retomar a contravenção, caso fosse um bom negócio.

A ocasião fez o ladrão. Em 1919, aplicou nos barões do mate paranaenses golpe semelhante ao aplicado nos barões do café paulistas. Estava fora de forma. Ele e dois comparsas foram pegos. Julgado em Curitiba, acabou condenado a 4 anos de prisão, reduzidos a três meses, período em que desfrutou da hospitalidade dos cárceres paranaenses.

Sabe-se pouco sobre o quanto e como lesou a economia local. Mas se sabe o bastante: Godofredo Rangel, seu cunhado, conseguiu indulto junto ao presidente do estado, Afonso Alves de Camargo. De nada adiantou a peleja do advogado de defesa e do promotor Oliveira Franco, ocupado em levá-lo a pagar com juros.

O caso recebeu destaque na Gazeta do Povo, fundada naquele ano. "Não fossem os jornais, não haveria como recuperar os passos de Afonso Coelho", diz Ely. (JCF)

Heterônimo

Raul de Albuquerque era como Afonso se apresentava, confundido a polícia.

Curiosidades

R$ 5 mil foram os gastos do pesquisador Ely Carneiro de Paiva com reproduções de microfilmes e pagamento a pesquisadores. "Também fui roubado pelo Afonso", brinca ele. Várias editoras se negaram a publicar o livro.

30 capítulos

Surpreso, Ely localizou na Biblioteca Nacional uma novela ilustrada, em 30 capítulos, sobre as proezas de seu biografado. Em 1922, a revista O Malho iniciou uma série sobre Afonso, logo após o assassinato. Com a morte de Ruy Barbosa, em 1923, o culto ao estelionatário fanfarrão é apagado pelo culto ao "Águia de Haia".

O engenheiro elétrico Ely Carneiro de Paiva, 47 anos, professor da Unicamp, faz história nas horas vagas. A exemplo de muitos diletantes, inventou de montar árvores genealógicas familiares. O resultado poderia ficar restrito ao quarto e sala de sua casa, não fosse ter encontrado, sem querer, o mapa do tesouro. O "mapa" atende pelo nome de Afonso Coelho de Andrade, o mais famoso estelionatário da Primeira República brasileira, cujas peripécias, misteriosamente, desapareceram do imaginário e do anedotário nacional.

Os parentes de Afonso Coelho foram vizinhos dos antepassados da mulher de Paiva. Não passava de uma curiosidade – os tais seis graus de separação entre os anônimos e os famosos. Mas na medida em que o pesquisador encontrava mais informações, mais se dava conta de que em algum momento tinha faltado memória ao país, única explicação para um bandido tão charmoso e inteligente não figurar em uma biografia, um filme ou um desfile de escola de samba.

Ely bem que tentou convencer historiadores profissionais a se debruçarem sobre as fartas fontes disponíveis a respeito de Afonso, na maioria jornais, nos quais diálogos inteiros do contraventor costumavam ser reproduzidos. Em vão. Restou-lhe fazer o serviço sozinho. O resultado é O homem do cavalo branco – uma história policial da Belle Époque, lançado pela editora Documenta, livro que deixa os leitores tão pasmos quanto o próprio Ely.

Afonso teria se iniciado ainda jovem na vida do crime, possivelmente entediado com a rotina do ofício de guarda-livros em Santos (SP). A contabilidade foi sua escola. Verdadeiro bandido à moda antiga, aplicava golpes com estilo, em especial contra casas exportadoras de café. Mas também apreciava pequenas contravenções, à moda "conto do vigário". Se preciso fosse, mestre nos disfarces, vestia-se de padre, velho, ex-escravo ou de caipira. As fugas eram tão espetaculares quanto os golpes.

A mais famosa delas se deu em 1897, no Rio de Janeiro, quando tinha 22 anos. Condenado, convenceu os guardas a jantar, por sua conta, embebedou-os e fugiu num cavalo branco, proeza pela qual ficou famoso. Passou a ser o "homem do cavalo branco", uma figura tão típica que cronistas e escritores da época, como Monteiro Lobato e João do Rio, escreveram sobre ele. Inspirou, inclusive, duas poesias de Olavo Bilac. E bem parecia um personagem de Eça de Queiroz. "Tinha lábia. Ele percebeu a fragilidade do Código Penal e a ingenuidade das forças de segurança", explica o autor.

As comparações entre o doidivanas Afonso Coelho de Andrade e Frank Abagnale – o personagem verídico de Leonardo DiCaprio no divertido Prenda-me se for capaz – são imediatas. "Acho que assim como Abagnale, Afonso tinha alguma patologia. Nas vezes em que se viu preso, levava numa mala livros de filosofia e as matérias publicadas sobre ele", diz. Como algumas fugas são lendárias, e carregadas de tintas, prefere chamar o livro de romance-reportagem. "Comparavam-no ao Rocambole, uma figura dos folhetins publicados pelos jornais. Havia muita fantasia. Nem seus herdeiros, aos quais procurei atrás de fontes, faziam ideia."

A família, aliás, é um dos grandes capítulos da vida de Afonso. Nascido abastado, precisou dos seus para "limpar sua barra", clamando misericórdia às autoridades fluminenses, paulistas, baianas, gaúchas e paranaenses [leia nesta página). No casamento, da mesma forma, virou casas de canelas para o ar. O primeiro casamento, com Risoleta, acabou – à revelia de o "meliante" se declarar católico e um híbrido improvável de monarquista com socialista. Em segundas núpcias, casou-se com uma irmã de Godofredo Rangel, homem de leis e o melhor amigo de Monteiro Lobato. Não houve final feliz.

A moça se chamava Sílvia Rangel. Deu-lhe seis filhos e nove anos de vida regenerada, numa chácara de Nova Friburgo. Em dezembro de 1922, numa briga de casal, deu-lhe também tiros. Foi o fim da carreira de Afonso Coelho. Tinha 47 anos e a ficha criminal mais atribulada de seu tempo. A Justiça, seguidas vezes desdenhada pela celebridade da crônica policial, foi branda com a assassina. Sílvia deveria ter lá as suas razões. Ninguém ousou duvidar.

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