Publicidade
Latim x avaliação de desempenho

Tradição clássica e ciência travam disputa pela autoridade na educação conservadora

Debate opõe defensores do ensino clássico (marcado por latim, filosofia e grandes livros) a pesquisadores da ciência da aprendizagem. (Foto: Foto de Jessica Lewis / Unsplash)

Ouça este conteúdo

Os educadores conservadores, que nos últimos anos se uniram em torno de críticas ao construtivismo e às ideias de Paulo Freire, passaram a travar um novo debate dentro do próprio movimento. A principal divergência já não é sobre o que ensinar, mas sobre quem deve orientar as decisões pedagógicas: de um lado, educadores defendem a tradição clássica; de outro, pesquisadores sustentam que os métodos de ensino devem ser guiados pelas evidências produzidas pela ciência da aprendizagem.

A divergência não está no ensino de gramática, literatura ou matemática, mas em definir qual deve ser a principal autoridade para orientar a educação. Representantes da educação clássica criticam o que chamam de "cientificismo pedagógico". Para eles, estudos científicos conseguem medir aspectos específicos da aprendizagem, mas não respondem às questões fundamentais sobre o propósito da educação, a formação das virtudes e o desenvolvimento da inteligência. Esses temas, afirmam, pertencem ao campo da filosofia e da antropologia.

Já os defensores da educação baseada em evidências argumentam que tradição, autoridade e experiência acumulada não são suficientes para justificar métodos de ensino. Na avaliação desse grupo, muitas práticas pedagógicas se apoiam apenas em evidências anedóticas (isto é, relatos individuais ou casos isolados), sem terem sido submetidas a testes sistemáticos. Se pesquisas robustas demonstram que determinados métodos produzem melhores resultados de aprendizagem, afirmam, eles deveriam orientar a prática pedagógica, ainda que contrariem tradições consolidadas.

Autoridade da tradição ou resultados mensuráveis?

A grande divergência entre as duas correntes está nos critérios centrais utilizados na escolha dos métodos de ensino.

A educação clássica se fundamenta na tradição pedagógica ocidental, iniciada na Grécia Antiga e desenvolvida ao longo dos séculos, especialmente baseada no pensamento cristão medieval. Seu objetivo é promover a formação integral da pessoa, unindo inteligência, caráter e virtudes. Seus defensores afirmam que essa tradição adquiriu autoridade por ter sido transmitida e aperfeiçoada ao longo dos séculos.

A educação baseada em evidências é considerada bastante recente e surgiu da aproximação entre a pedagogia, a psicologia cognitiva e a neurociência. Inspirada na medicina baseada em evidências, ela defende que métodos de ensino sejam escolhidos conforme pesquisas experimentais, revisões sistemáticas e meta-análises, e não apenas pela tradição ou pela experiência acumulada.

Para Rafael Falcón, professor independente e defensor da educação clássica, a ciência aplicada à pedagogia alcança apenas uma parcela da complexidade da educação. “A ciência moderna não tem instrumentos cognitivos para entender o que é a inteligência. Não há nenhum cientista sério que afirme que ele saiba o que é a inteligência. Não há instrumentos filosóficos para isso”, avaliou Falcón em vídeo publicado em seu canal no YouTube.

Como exemplo, Falcón explica que uma pesquisa, por exemplo, pode avaliar como a leitura afeta o cérebro, mas não medir a qualidade de uma obra literária. Ainda segundo o professor, um outro tipo de problema é que para fazer esse tipo de mensurações são estabelecidos critérios arbitrários, estabelecidos por cientistas, e não filosóficos. “O grande problema do cientificismo, no fim das contas, é que ele troca a inteligência humana por um modelo que foi estabelecido mais ou menos arbitrariamente”, disse.

Renan Sargiani, professor e neurocientista, avalia que o debate muitas vezes é artificial pois considera a educação baseada em evidências científicas apenas como algo mecanicista. “Mas não é isso que acontece. Dentro da perspectiva de educação baseada em evidência, há um olhar para o ser humano como um todo. Um ser humano que é biopsicosocial, que vai ter princípios e valores”, pontua.

Para Sargiani, a ciência da aprendizagem não substitui os objetivos da educação, mas ajuda a definir a melhor forma de alcançá-los. "Para que uma criança consiga apreciar, por exemplo, um grande clássico, ela vai precisar, antes de tudo, ter habilidades básicas de leitura, de decodificação. A gente não pode colocar o carro na frente dos bois, há uma ordem para as coisas acontecerem", complementa.

Há pontos de convergência?

Apesar das divergências, as duas correntes compartilham princípios importantes. O principal delas é a crítica ao construtivismo, abordagem pedagógica mais difundida na educação brasileira. Tanto a educação clássica quanto a educação baseada em evidências rejeitam a ideia de que o aluno constrói o conhecimento de forma espontânea, cabendo ao professor apenas atuar como mediador do processo.

Em vez disso, ambas defendem que o professor exerce um papel ativo na aprendizagem, sendo o responsável por transmitir conhecimento e conduzir o processo de ensino. Também concordam na valorização de um currículo consistente, da exigência acadêmica e da importância do conhecimento como base para o desenvolvimento intelectual.

A convergência também aparece em práticas pedagógicas concretas. A memorização, por exemplo, é incentivada pelas duas correntes, embora por fundamentos diferentes. Para a educação clássica, ela amplia o repertório cultural e fornece a base necessária para o desenvolvimento da inteligência. Já a educação baseada em evidências a considera essencial para consolidar a aprendizagem e favorecer a recuperação de informações na memória de longo prazo, conclusão respaldada por pesquisas da psicologia cognitiva.

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.