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As tropas se dirigiram a Florianópolis em aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) | James Tavares/ Secom
As tropas se dirigiram a Florianópolis em aviões da Força Aérea Brasileira (FAB)| Foto: James Tavares/ Secom

101 atentados

O reforço chegou no dia em que o estado registrou o 101º ataque, em Guaramirim.

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Entrevista

"Pensava que eu ia morrer", desabafa vítima de atentado

Sebastião Dimas, abordado enquanto levava a esposa para o trabalho e teve carro incediado

Na madrugada de ontem, Sebastião Máximo Dimas, que nasceu e ainda é morador de Içara, foi surpreendido como vítima número 100 dos atentados em Santa Catarina. Em entrevista, ele conta como foi abordado pelos dois criminosos ao levar a esposa para trabalhar e detalhes de como é se sentir inseguro na cidade onde se vive. Por volta das 4 h, o carro do aposentado estava parado em uma avenida e foi incendiado.

Como vocês foram abordados?

Eu estava de manhã com a minha esposa dentro do carro para ela ir trabalhar na Copasa. Parou um cara de moto e quando eu vi a moto estava em cima de mim. Eles pegaram uma arma, botaram no meu pescoço, falaram ‘desce do carro e deixa a chave na ingnição’. Eles falaram ‘sai, sai, sai’. Um cara era mais alto e outro era mais baixo. Um estava com uma bolsa, onde estava com combustível. Mas na minha avaliação, e na da perícia, eles queriam roubar o carro. Eu andei uns 30 metros para cima, e o alarme disparou. Aí eles [os criminosos] ficaram apavorados, e os vizinhos começaram a acordar. Eles jogaram gasolina ou álcool e tocaram fogo. Em 30 ou 40 segundos o carro já estava em chamas.

Como você se sentiu naquele momento?

Pensava que eu ia morrer, porque eles vinham com uma arma em punho e com o dedo no gatilho. Então, o que eu posso mais dizer? Dizem eles [policiais] que farão de tudo para apurar. É tanta tragédia no nosso estado, é triste mesmo. Eu e minha mulher poderíamos estar mortos. A nossa sorte é que saímos no mesmo momento.

E daqui pra fente?

Daqui para frente é cada vez ser mais cuidadoso, é um olho no padre e outro na missa. Mesmo com 62 anos de idade, eu achava que era experiente e por fim apanhei, quando eu vi a moto estava em cima de mim. Coisa de loucura mesmo. Ontem eu passei o dia no hospital tomando medicamento e soro, quase tive um enfarte, e não é pra menos.

O Ministério da Justiça enviou ontem à Santa Catarina tropas da Força Nacional de Segurança para ajudar no combate à onda de violência urbana iniciada em 30 de janeiro. São 350 homens que vão atuar na tentativa de conter os ataques que já atingiram 31 cidades catarinenses. O reforço chegou no dia em que o estado registrou o 101º atentado. Ele ocorreu em Guaramirim (a 171 km de Florianópolis), onde dois homens jogaram gasolina contra um ônibus escolar estacionado em um posto de combustíveis. Ninguém foi preso.

O envio dos militares foi autorizado pelo Ministério da Justiça depois de uma reunião entre o governador e o ministro José Eduardo Cardozo na quarta-feira. As tropas chegaram a Florianópolis em aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) no início da tarde, por volta das 14h20. Às 16 h, 25 homens se deslocaram em direção à Academia de Polícia. Cerca de 150 soldados já estariam na cidade.

Informalmente entre os policiais, a mobilização foi batizada de Operação Salve SC, em referência ao termo utilizado pela facção para dar o "sinal verde" à onda e ataques.

O governo do estado não informou como usará o reforço, nem confirmou o efetivo enviado a Santa Catarina. "Não podemos dar detalhes sob risco de frustrar nossas expectativas", disse o coronel Nazareno Marcineiro, comandante-geral da Polícia Militar no estado.

A reportagem apurou que a Força Nacional será usada na transferência de pelo menos 20 criminosos de penitenciárias catarinenses a unidades federais de segurança máxima. As tropas também ficarão dentro das penitenciárias de São Pedro de Alcântara, Chapecó, Criciúma e Itajaí, onde está a maioria dos presos que devem ser transferidos, por 10 dias.

Ônibus

Motoristas e cobradores de ônibus da Grande Florianópolis chegaram às 17h30 a um entendimento com o governo do estado e a prefeitura da capital e anunciaram que vão trabalhar até as 23h, como fazem desde o início dos atentados.

Na quinta-feira, a categoria anunciou que trabalharia só até as 19h por medo dos ataques – dos 101 casos registrados no estado desde 30 de janeiro, 38 foram contra ônibus, a maioria deles vazios.

O recuo de motoristas e cobradores ocorreu depois que a prefeitura anunciou o aluguel de mais 20 carros – na semana passada já haviam sido 15 – e o empréstimo de 10 carros da Guarda Municipal para as escoltas.

O governo do estado disponibilizou outros 40 carros para as escoltas feitas pela Polícia Militar, que diz ter efetivo, mas não ter carros suficientes para o trabalho. Agora são 85 carros particulares nas escoltas.

Pelo menos 71 suspeitos foram presos até agora

Até ontem, pelo menos 71 pessoas haviam sido presas e 22 adolescentes apreendidos por suspeita de envolvimento nos atentados em Santa Catarina.

Nesta sexta-feira, em La­­guna (a 183 km de Floria­­nó­­polis), o alvo dos criminosos foi um caminhão-guincho estacionado do bairro Mar Grosso. À 0h11, dois homens de moto jogaram uma garrafa com gasolina contra o veículo, que não chegou a queimar.

Em Içara (a 116 quilômetros de Florianópolis), às 4h, bandidos queimaram um carro depois de render um casal. O dono do veículo deixava a mulher no trabalho no momento em que dois homens os renderam e usaram gasolina para incendiar o carro. Ninguém foi preso.

O delegado-geral da Po­­lícia Civil em Santa Catarina, Aldo Pinheiro D’Ávila, disse que, dos cerca de cem atentados registrados até o momento, 70 têm relação com facções criminosas e 30 são "só atos de vandalismo". "Nós temos uma pulverização dos ataques pelo estado, e isso dificulta o trabalho da polícia", disse.

Família espera ônibus por duas horas

Ao chegar ao principal terminal de ônibus de Florianópolis ainda na madrugada de sexta-feira, uma família precisou de paciência. Pais, filha e neta esperaram por mais de duas horas pelo transporte público. Os ônibus só começaram a circular depois das 7 horas, medida adotada pelos trabalhadores em razão da onda de atentados em Santa Catarina.

A família do pedreiro Edimilson Malheiros, 48 anos, chegou ao Terminal Rita Maria por volta das 4h50min, vindos de Sapiranga, no Rio Grande do Sul. Ednilson, a esposa, Elenita Pereira, 48 anos, a filha, Andreia Malheiros, 23 anos, e a neta Maria Fernanda, de apenas 10 meses, esperavam por ônibus para seguir até Canasvieiras, onde moram. "Apesar de tudo considero Florianópolis uma cidade segura", disse Elenita.

Por volta das 7h15, o primeiro ônibus estacionou no terminal e foi recebido com aplausos pela família. Soldados da Polícia Militar, que mantém base no terminal, aguardavam para seguir em escoltas atrás dos primeiros ônibus.

A PM utiliza os carros alugados pela prefeitura – todos sem indicação da Polícia — para fazer rondas e para as escoltas ao transporte público.

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