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Memória

Guaratuba: 20 anos de uma tragédia

Em 28 de janeiro de 1995, o Edifício Atlântico ruiu e matou 29 pessoas. Duas décadas depois, parte das vítimas ainda não foi indenizada

  • PorFelippe Aníbal
  • 31/01/2015 21:04
O desabamento do prédio mobilizou a comunidade local. Os próprios moradores ajudaram a retirar os escombros em busca de vítimas | Edson Silva/Gazeta do Povo/Arquivo
O desabamento do prédio mobilizou a comunidade local. Os próprios moradores ajudaram a retirar os escombros em busca de vítimas| Foto: Edson Silva/Gazeta do Povo/Arquivo

Acordo

"Punições não poderiam ir além do que foram", diz advogado

A ação penal que tinha como réus o engenheiro Ney Baptista Torres, o filho dele Luiz César de Mello Torres e o mestre de obras Cézar Luiz da Silva foi extinta em 1996, após o construtor fechar acordo com parte das vítimas. Apesar de envolver 29 homicídios culposos (quando não há intenção de matar), o caso foi resolvido em Juizado Especial. Criminalmente não houve penas.

"Foi feita justiça. Não se poderia ir além disso, porque seria como aplicar a ‘Lei de Talião’. O Ney deu tudo que tinha para indenizar as vítimas, exceto o apartamento em que morava. Foi uma fatalidade. O próprio Ney perdeu parentes na tragédia", diz o advogado Renato Andrade, que defendeu o réu.

Após o encerramento do caso, Andrade perdeu contato com Torres, a quem classifica como um homem "justo e sério". "Aquilo não foi fácil para ninguém. Ele enfrentou tudo com constrangimento e consternação."

Em 2008, o registro profissional do engenheiro foi cassado pelo Conselho Federal de Engenharia. A reportagem não conseguiu contato com nenhum dos réus.

Negligência

Rachaduras "avisaram" que o prédio cairia

Os dias que precederam a queda do Edifício Atlântico foram permeados de indicativos de que uma tragédia iria ocorrer. Mas os sinais foram ignorados. Segundo o processo, na véspera do desabamento as rachaduras chegavam a expor as ferragens das pilastras, o concreto se soltava e ouviam-se estalos. Mesmo assim, o prédio não foi esvaziado. Uma reunião para tratar do problema havia sido marcada para a tarde daquele sábado. Não deu tempo.

"Ainda me pergunto por quê não bateram na porta do meu apartamento e disseram que o prédio estava para desabar. Viram que ia cair e não fizeram nada", diz Polliana Pundek.

Em depoimentos prestados à polícia, operários da obra deixaram claro que queriam interromper os trabalhos, pois temiam que o prédio ruisse. Antes de o edifício cair, um estalo fez com que todos saíssem correndo para fora. Mas, convencidos por alguns proprietários, voltaram ao trabalho. Minutos depois, houve um segundo estrondo e a queda.

O processo contém declarações de moradores mencionando as rachaduras e os indicativos de que o prédio estava comprometido. "No dia anterior, eu estava andando de bicicleta na garagem com a minha irmã e um pedaço do pilar se soltou e caiu na minha cabeça", conta Flávia Torres, que à época tinha 9 anos.

Além disso, o edifício não tinha projeto estrutural, só planta arquitetônica. Ainda assim, a prefeitura de Guaratuba autorizou a obra e o "habite-se". À polícia, o mestre de obras Cézar da Silva declarou que o ferro usado na construção "era muito fino", mas que o construtor Ney Torres teria dito que "sabia o que estava fazendo".

Relato

Para sobrevivente, superar o trauma é tarefa impossível

Da sacada, Flávia Mocha de Mello Torres, então com 9 anos, sua mãe e dois irmãos ouviram gritos, alertando que o prédio iria desabar. Correram em direção à porta, mas não houve tempo. "Eu vi a parede rachando, se abrindo. Tudo desabou em seguida", relembra. Flávia sofreu cortes nas pernas. A mãe dela e os irmãos não sobreviveram.

Neta de Ney Torres e filha de Luiz César Torres, Flávia conta que o desastre se tornou uma espécie de tabu para a família. Apesar do trauma, conseguiu tocar a vida: aos 29 anos, mora com um companheiro, com quem tem um filho. Mas o Atlântico ainda a assombra. "Eu achei que tivesse superado, mas não é fácil. Nunca ninguém me contou direito o que aconteceu. Minha família não toca no assunto. Acho que não se supera, só se vive com isso", disse.

O procurador de Justiça Lewin havia chegado ao edifício minutos antes do desabamento. Viu a movimentação de moradores e operários, discutindo sobre os reparos das colunas. Estranhou. "Eu subi e falei para minha esposa que estava um clima ruim. Resolvemos sair com nossos sobrinhos e filhos. Quando descemos, em seguida o prédio veio abaixo. Não houve tempo para avisar ninguém. Ainda tomei um ‘tijolaço’ nas costas", conta.

"Eu não consigo explicar porque eu não estava entre os 29 que perderam a vida. Porque eu poderia ter sido um deles. Embora eu não seja um homem de grande fé, imagino que deva haver uma explicação", completa.

  • Polliana sente que parte de sua vida ruiu com o Edifício Atlântico:

Era pouco mais de 10 horas da manhã quando os doze operários que trabalhavam para reparar rachaduras profundas, que ameaçavam as colunas de sustentação do Edifício Atlântico, em Guaratuba, ouviram um estrondo. Só tiveram tempo de correr. Segundos depois, o prédio veio abaixo. A poeira que violou aquele sábado de verão – que completou exatos 20 anos na última quarta-feira – deu o tom de uma das maiores tragédias do Litoral do Paraná. O desabamento matou 29 pessoas e feriu outras quatro. Duas décadas depois, muitas famílias ainda esperam por justiça.

Uma das sobreviventes, Polliana Pundek, hoje com 40 anos, sente que parte de sua vida desabou junto com o prédio. Ela perdeu o pai, a mãe e o irmão. Resgatada dos escombros após ficar mais de oito horas soterrada, Polliana passou um semestre internada no Hospital Cajuru, em Curitiba. Teve que se reconstruir. Ainda hoje caminha com dificuldade, faz fisioterapia e toma medicamentos diariamente. Nunca recebeu um centavo de indenização.

"Nunca fui procurada pela Justiça, Ministério Público ou pelo Ney Torres [engenheiro e construtor responsável pelo prédio]. Me sinto indignada e injustiçada. As pessoas perguntam o que se deu dos responsáveis. Não deu nada."

Além dela, brigam na Justiça para obter reparação a família Trauczynski (que perdeu um casal e seus dois filhos) e a família Toaldo (morreu um casal). Parentes de outras pessoas que perderam a vida na tragédia nunca foram indenizados, entre eles familiares de duas babás e de um jovem que acompanhava um amigo. Uma empregada doméstica que sobreviveu ao desabamento também não recebeu compensação.

A ação penal foi encerrada em 1996, depois que os réus fecharam um acordo, segundo o qual indenizaram parte das vítimas. Dos 12 acordos cumpridos, cinco dizem respeito a acertos com proprietários que não perderam parentes no desabamento (tiveram só prejuízos materiais). Alguns dos que tiveram familiares mortos no episódio optaram por fechar acordo, como forma de sepultar o ocorrido.

"O que eu recebi não pagou as despesas funerárias, mas me livrou de participar das reuniões [com os outros proprietários para negociar o acordo]. Parecia um leilão: quem não tinha perdido familiares estava preocupado só com o dinheiro. Mas [o acordo] foi como virar uma página", diz Guilherme Cury Saliba Costa, hoje com 36 anos e prefeito de Tomazina, no Norte Pioneiro. O pai, a mãe, dois irmãos, tios e a avó dele morreram no desastre.

O procurador de Justiça Hélio Airton Lewin era subsíndico e conselheiro do Edifício Atlântico. Ele e os familiares conseguiram escapar. Hélio se emociona ao recordar daquele sábado. "Não são boas lembranças pra ninguém", resume. Segundo os autos, ele recebeu, à época, R$ 25 mil de indenização. "Ninguém recuperou 10% do que perdeu, mas chegou uma altura que a questão material era de menos. A gente estava preso àquela tragédia e queria superar aquilo."

Em meio aos escombros, a luta para sobreviver

Guilherme Cury Saliba Costa foi despertado por um forte estrondo naquele sábado de 1995. Lembra-se da sensação de seu corpo caindo, junto com os escombros do prédio que ruia. Desmaiou. Horas depois, acordou com gritos dos bombeiros. Foi o primeiro sobrevivente do Edifício Atlântico a ser resgatado. Àquela altura, ainda não sabia que seus familiares tinham morrido no desabamento, inclusive o pai, Ivaldo Costa, que era prefeito de Tomazina. "Eu procurei entender e aceitar. Se morreu toda minha família, mas Deus quis me manter vivo, é porque havia algum propósito", avalia.

Saliba demorou seis meses para recuperar o movimento das pernas. Passou nove anos em Curitiba, sob a tutela de uma tia. Por fim, decidiu voltar a Tomazina, sua cidade natal, onde se elegeu prefeito. "Eu quis voltar e terminar o trabalho que meu pai tinha começado." Hoje, Saliba é casado e tem dois filhos – Vinícius e Adriano – batizados com o nome dos dois irmãos que perdeu na tragédia.

A guerreira

Além de ter perdido a família, Polliana Pundek é a única sobrevivente que tem sequelas físicas do desabamento. Ela foi salva pelo caixilho de uma porta, que impediu que os escombros a esmagassem. Apesar disso, teve as pernas comprimidas por uma viga. Hoje, não tem sensibilidade nos pés e caminha com dificuldade. "Na hora, fiquei calma. Eu pensava: se me apavorar, vou morrer. Ajudei os bombeiros a me resgatarem. Por um vão no concreto, eles jogavam um balde com uma corda. Eu enchia o balde com pedras e eles puxavam. Tudo para retirar os escombros e eles poderem me retirar dali", lembra Polliana, que só foi salva no início da noite.

Para voltar a andar, lutou contra os próprios limites e o ceticismo de médicos. A reconstrução da vida foi lenta. Concluiu o curso de Arquitetura e casou-se com o namorado da época, que sempre esteve ao seu lado. "Tive que superar a mim mesma. Minha força veio de acreditar que, se Deus me manteve viva, é porque tenho que continuar."

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