
A historiadora Mary Del Priore e o professor Gian Melo enfrentam uma onda de ameaças e agressões virtuais após o lançamento do livro História das mestiçagens no Brasil. Os ataques, iniciados antes mesmo de a obra chegar às livrarias em setembro de 2026, levaram a editora Unesp a reforçar a segurança na Bienal do Livro de São Paulo para proteger os autores de grupos radicais universitários.
Qual é a principal tese defendida pelos autores no livro?
Os autores defendem que a mestiçagem no Brasil é um processo histórico natural e inequívoco que ocorre desde o século XVI. Diferente da visão de grupos identitários radicais, que enxergam a mistura de raças apenas como fruto de violência e estupro, a obra argumenta que ela nasceu do encontro cotidiano entre pessoas pobres, como colonos europeus e escravizados. O livro utiliza documentos para provar que famílias mestiças sempre estiveram presentes na sociedade, alcançando inclusive mobilidade social por meio de carreiras militares, religiosas e em profissões liberais como medicina e direito.
Como a autora descreve a composição racial da população brasileira?
Mary Del Priore afirma categoricamente que o Brasil é um país pardo. Ela explica que, embora o IBGE agrupe pretos e pardos na categoria de negros para fins estatísticos, os pardos possuem uma identidade histórica específica e culturalmente rica. Para a historiadora, existe um movimento atual de silenciamento e apagamento dessa categoria, motivado por ideologias que ignoram a realidade da nossa formação. Ela ressalta que até mesmo a elite brasileira, que muitas vezes se autodeclara branca, é na verdade fruto desse processo histórico de mistura étnica e cultural ao longo dos séculos.
Quais são as consequências desse silenciamento para a educação brasileira?
A historiadora avalia que o abandono do tema da mestiçagem prejudica seriamente o entendimento dos alunos sobre o próprio país. Ela cita que termos como mameluco (filho de branco com indígena) ou caboclo estão sendo esquecidos, o que impede os jovens de compreenderem os processos regionais de formação, como a caboclização no Norte e a mameluquização no Sul. Sem esse conhecimento, perde-se a noção de que a mestiçagem não é apenas biológica, mas cultural, influenciando diretamente a nossa gastronomia, religiosidade e até o modo de vestir e falar de cada região brasileira.
De que forma o ambiente acadêmico tem reagido ao tema da obra?
O cenário relatado é de extrema hostilidade e medo. Mary Del Priore descreve o ambiente universitário atual como tóxico para quem pesquisa a mestiçagem, revelando que muitos professores têm receio de se manifestar publicamente. Entre os casos citados, uma pesquisadora foi desligada de seu grupo de estudos e outro autor sofreu insultos homofóbicos de colegas. A historiadora compara essa perseguição intelectual a episódios de violência física recentes contra estudantes, alertando que quando pesquisadores precisam de escolta para lançar ideias, a própria história da nação está ameaçada.
Conteúdo produzido a partir de informações apuradas pela equipe de repórteres da Gazeta do Povo. Para acessar a informação na íntegra e se aprofundar sobre o tema leia a reportagem abaixo.





