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Festividade

Imigração suábia no Brasil faz 60 anos

Comemoração na colônia Entre Rios, em Guarapuava, vai até amanhã com músicas, danças típicas e muita história para contar

  • Derek Kubaski, da sucursal, especial para a Gazeta do Povo
Pioneiro de Entre Rios, Thomas Leh, de 82 anos, à frente de uma réplica das muitas casas que ajudou a levantar |
Pioneiro de Entre Rios, Thomas Leh, de 82 anos, à frente de uma réplica das muitas casas que ajudou a levantar
 
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Imigração suábia no Brasil faz 60 anos

A vinte quilômetros de Guarapuava, na Região Central do Paraná, está um legítimo pedaço da Alemanha no Brasil. É raro encontrar moradores do distrito de Entre Rios conversando em português. E é assim há 60 anos, desde que os primeiros suábios chegaram à localidade, fugindo de uma Europa destruída pela Segunda Guerra Mundial. A denominação vem da terra de origem desse povo, a Suábia, no sudoeste germânico. Esse grupo desceu o Rio Danúbio no século 18 para povoar a região dos Balcãs (onde hoje ficam a Croácia e a Hungria). Por serem alemães, acabaram sendo discriminados, aterrorizados e até mesmo expulsos daquela região. Refugiados na Áustria, viram no Brasil uma alternativa para construir vida nova. Cerca de 500 famílias, com a pouca bagagem que tinham, mudaram-se para a região de Guarapuava entre 1951 e 1952. Eles foram auxiliados pela Aliança Suíça à Europa, que ajudou diversos países devastados pelos combates.

A chegada a Entre Rios, porém, não foi nem um pouco fácil. A região delimitada pelos rios Jordão e Pinhão era um local de mato bruto e pequenas propriedades rurais. Por este motivo, a primeira tarefa do grupo foi tornar agricultável a região para, depois, construir as primeiras casas.

Thomas Leh, que chegou ao distrito com 22 anos, lembra bem desses dias. Ele foi um dos marceneiros que ajudou a erguer as primeiras construções da colônia. Leh afirma que a madeira farta ajudou, mas não muito. “Não tinha como caprichar. Era muita gente querendo ter sua casa e pouco tempo para construir”, conta. Para as comemorações dos 60 anos de Entre Rios, foi montada uma réplica da casa dos pioneiros. O imigrante suábio, agora com 82 anos, olha com saudade para uma réplica daquelas casas simples, sem pintura, igual a muitas que ajudou a erguer.

Além da adaptação ao local, os primeiros imigrantes tiveram de lidar com mais uma barreira: o idioma. Leh afirma que não economizava nos gestos para se fazer entender. A dificuldade para aprender o português se repetiu com o primeiro filho. “Quando ele pisou na escola, conheceu a primeira palavra em português e a professora conheceu a primeira palavra em alemão. Não foi fácil, mas eles acabaram se entendendo”, relata.

União

Para manter o grupo coeso, logo que chegaram os suábios fundaram a Cooperativa Agrária Mista de Entre Rios. Além de ajudar os pioneiros, a entidade foi a grande responsável pelo desenvolvimento do distrito. “Nós temos a particularidade de a comunidade ter se desenvolvido em função da cooperativa, e não o contrário. Por isso, a história do distrito não se descola da história da Agrária”, destaca Jorge Karl, presidente da entidade.

Até o final da década de 1960, os suábios testaram diversas culturas, mas não obtiveram sucesso. O cenário começou a melhorar no começo dos anos 1970, com o advento da soja. Nessa época, porém, mais da metade das famílias alemãs voltaram para a Europa ou emigraram para grandes cidades. Apesar de a soja ser a principal fonte de renda dos cooperados ainda hoje, a cevada representa cerca de 30% dos negócios da cooperativa. “Hoje nós produzimos aproximadamente 240 mil toneladas de malte por ano. A grande maioria das cervejas consumidas no Brasil é feita com matéria-prima nossa”, afirma Karl.

Pioneiro lembra fatos da Segunda Guerra

As saudades que o pioneiro Thomas Leh sente dos tempos em que morou na atual Croácia são mínimas diante das lembranças amargas da sua juventude. Dois irmãos e dois cunhados de seu pai foram obrigados a servir no exército alemão. Enquanto isso, o restante da família sofria constantes ataques de milícias paralelas que não aceitavam alemães em seus territórios. Sem alternativa, a família Leh colocou tudo o que coube numa carroça e se mudou, às pressas, para a Áustria. Por lá, foram sete anos morando em habitações coletivas e trabalhando para pagar o pouso e a comida. “A gente sofria muito com o frio. Às vezes tinha que dormir perto do telhado e lá fora nevando”, conta Thomas, com um forte sotaque alemão. Quando havia ameaça de bombardeio dos Aliados, ele tinha de se esconder em túneis. “Mesmo lá dentro, a gente sentia o tremor na terra. ” Depois de chegar ao Brasil, ele nunca pensou em voltar para a Europa. “Eu até visitei a Croácia, muito anos depois. Mas não troco aqui por nada”, afirma.

Festa começou quarta e termina no domingo

Para comemorar o aniversário da imigração suábia no Brasil, a Agrária promove uma festa em Vitória, uma das cinco colônias que compõem o distrito de Entre Rios. Uma estrutura coberta foi montada em frente à sede da cooperativa. A festa, que começou na quarta-feira, tem uma extensa programação de músicas e danças tradicionais, inclusive de artistas vindos da Alemanha. Na quinta-feira, os visitantes puderam acompanhar um desfile de cerca de 35 tratores antigos, usados entre as décadas de 1950 e 1970 e restaurados pelos filhos e netos dos imigrantes. Naquele dia também foi inaugurado o novo Museu Histórico de Entre Rios. Hoje, entre 8h e 12h30, acontece a competição de Trekker Trek, em que tratores preparados têm de puxar um “trenó” – uma espécie de carreta sem rodas pesando cerca de 15 toneladas – numa pista de 100 metros. Hoje também estão programadas trilhas ecológicas pela região e visitas a indústrias e propriedades rurais ligadas à cooperativa. A festa será encerrada às 18h de amanhã. A programação está disponível no site www.agraria.com.br/brasil

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