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Paulo mora há 30 anos na região do Parque São Lourenço e diz que a água do lago está sempre turva | Antônio More/Gazeta do Povo
Paulo mora há 30 anos na região do Parque São Lourenço e diz que a água do lago está sempre turva| Foto: Antônio More/Gazeta do Povo

IAP, Sanepar e prefeitura veem melhora nos dados

Ivonete Coelho da Silva Chaves, diretora de monitoramento ambiental e controle da poluição do IAP, disse que o fato de a qualidade das águas não ter piorado nos últimos anos é algo a ser visto como uma boa situação. "A cidade cresce. A gente já pode dizer que a não piora é uma questão relevante. Mas, para termos uma situação ideal, é necessário que sejam feitos altos investimentos."

A Sanepar, responsável pela coleta e tratamento de esgoto, esclareceu, em nota, que uma equipe verifica frequentemente se as ligações feitas na rede estão corretas. Segundo a empresa, "o índice de coleta e tratamento de esgoto em outubro de 2014 é de 99,25%". Quando há irregularidade na ligação, o cliente é notificado para resolver em 30 dias. Caso não resolva o problema, a situação é levada à Secretaria Municipal do Meio Ambiente.

Marlise Jorge, diretora do departamento de recursos hidrícos e saneamento da SMMA, está entusiasmada com o projeto de despoluição dos rios que ela coordena. A cidade foi dividida em 123 sub-bacias para que todos os afluentes dos rios principais possam ser fiscalizados. O trabalho é lento – de junho a outubro foram vistoriadas cinco sub-bacias. Mas Marlise diz que é preciso analisar o resultado que as fiscalizações vêm trazendo e não o tempo que é gasto. "Das cinco vistorias, três deram efeitos imediatos. A água estava bastante turva e, hoje, já está visivelmente melhor. Isso não tem tempo para acabar, é preciso criar uma rotina."

Quem vê os patos e as capivaras em harmonia nos parques de Curitiba não imagina que nesses locais há uma triste estatística. Criados para ajudar a controlar as cheias da cidade, mas mais lembrados por serem as "praias" dos curitibanos, os lagos dos parques da capital sofrem com a poluição. É o que aponta um estudo do Instituto Ambiental do Paraná (IAP), feito anualmente, que mostra que de dez locais pesquisados, nove estão na condição "criticamente degradados" ou "poluídos". Em alguns pontos, os dados mostram que nos últimos 13 a 15 anos não houve qualquer melhora na qualidade da água – vinda, em sua maioria, dos rios que cortam Curitiba.

INFOGRÁFICO: Veja o nível de poluição de alguns lagos em Curitiba

Quem passa pelos lagos dos parques com frequência, como o funcionário público Paulo Sério Garcia dos Santos, de 56 anos, constata o problema de perto. Ele mora na região do Parque São Lourenço há 30 anos, corre diariamente ali e não entende como a água pode estar suja mesmo com toda a informação que se tem sobre o meio ambiente nos últimos anos. "Seria um lago tão bonito se ele fosse limpinho, bem transparente, como teria de ser. Tem dias que a água fica muito escura. Eu tenho dó dos peixes, dos patos que dependem do lago, fico pensando neles. Porque eu jamais tomaria um banho ali, nem encostaria a mão na água, não dá coragem."

Os lagos dos parques de Curitiba não são destinados a contato direto, apenas para fins de controle de cheias e para ornamentação. Mas o professor Marco Tadeu Grassi, doutor em química ambiental, alerta que com os níveis atuais é possível dizer que mesmo para drenagem ou "enfeite" a qualidade das águas não está satisfatória. Ele salienta que ambientes poluídos têm maior concentração de matéria orgânica, o que obriga o poder público a, frequentemente, contratar serviços caros de desassoreamento do fundo.

"Também se estiver muito quente, com o nível de deterioração elevado – considerando que são ambientes de água parada, não muito profundos –, começa a exalar mau cheiro e se torna desagradável", completa o professor.

Carlos Mello Garcias, engenheiro civil e professor do curso de Engenharia Ambiental da PUCPR, explica que a poluição nos rios (que vai parar nos lagos em Curitiba), tem duas origens principais. "Uma nós chamamos de descarga concentrada, que é a rede de esgoto clandestina, que corresponde de 70% a 80% da poluição. A outra, menos significativa, mas que também contribui, é tudo o que acontece na cidade, tudo o que tem na superfície e, com a chuva [desgaste de pneus de carros, óleo, pastilhas de freio, lixo, etc], a água faz ir parar nos rios." Garcias e Grassi frisam que só haverá despoluição dos rios quando não houver mais despejo de esgoto fora da rede de esgoto. "Aí vai aparecer gente dizendo que não tem dinheiro para tratar todo o esgoto coletado. Isso é incompetência", opina Garcias.

Dados são questionáveis, diz professor

O pós-doutor em Engenharia e Ciência da Água Charles Carneiro explica que os dados do IAP precisam ser relativizados. Para ele, é importante ter em mente que os lagos não são ambientes naturais, e sim artificiais. Por esse motivo, segundo ele, esses lagos têm a característica de serem dinâmicos, com mudanças drásticas de condições em poucos dias.

"Quando o IAP vai lá e coleta uma análise por semestre, e faz isso em um momento em que o nível de oxigênio – que é o mais importante para a avaliação–, está diminuindo, vai dar [como resultado] um ambiente degradado. Mas não quer dizer que ele seja degradado. Naquele momento, o oxigênio estava com o valor baixo. Então pode ser que três dias depois seja aberta a comporta, ou dê um vento, ou ocorra uma inversão térmica, e seja reoxigenado o fundo".

Em resumo, Carneiro enfatiza que é preciso olhar com cuidado para os dados. "É prematuro e talvez até perigoso fazer uma interpretação em uma análise que acontece a cada três meses ou até a cada seis meses em um ambiente que tem uma dinâmica muito grande."

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