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Dez anos após o impeachment de Dilma Rousseff, oficializado em agosto de 2016, o governo do presidente Lula dá sinais de desgaste semelhantes aos que marcaram a gestão da ex-presidente. Críticas à política econômica, pressão sobre as contas públicas, dificuldades de governabilidade e queda de popularidade sustentam a comparação.
A principal diferença, porém, está na capacidade de articulação política de Lula. Mais experiente, o presidente tem conseguido manter uma relação pragmática com o Centrão, grupo que se tornou peça-chave para a governabilidade. Para analistas consultados pela Gazeta do Povo, esse apoio ajuda a explicar por que, apesar do desgaste e das semelhanças com o governo Dilma, o petismo chega competitivo à disputa pela reeleição, enquanto dez anos atrás sofria um impeachment.
O principal ponto de aproximação apontado pelos especialistas está na economia. Embora separados por mais de uma década, o primeiro mandato de Dilma e o terceiro mandato de Lula chegaram ao período pré-eleitoral muito questionados em relação à sustentabilidade das contas públicas e à capacidade do Estado de manter o ritmo de expansão dos gastos públicos.
No fim do primeiro mandato de Dilma, o governo enfrentava críticas à chamada nova matriz econômica. A política buscava estimular a economia a partir de incentivos setoriais, juros mais baixos e maior participação do Estado na economia. Mas a estratégia acabou produzindo resultados frustrantes, como a deterioração fiscal e a perda de confiança de investidores que abriram caminho para uma recessão.
Christian Lohbauer, doutor em Ciência Política pela USP, avalia que há semelhanças entre aquele cenário e a atual estratégia econômica do governo Lula. Na avaliação dele, a ampliação dos gastos públicos e o crescimento da dívida em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) reproduzem parte da lógica adotada pela gestão Dilma, ainda que em um contexto diferente.
"É uma reprodução piorada de um modelo absolutamente fracassado de endividamento, que acha que endividamento não tem limite", afirma.
Ricardo Caldas, professor de Ciência Política na UnB, também vê paralelos entre os dois períodos. Para ele, a pressão sobre as contas públicas, o avanço do endividamento e as dúvidas sobre a capacidade do governo de sustentar programas sociais e investimentos sem ampliar desequilíbrios fiscais tendem a gerar um desgaste semelhante ao observado na reta final do primeiro mandato da ex-presidente.
"Mesmo que o Lula consiga ser reeleito, a pressão sobre ele vai ser muito grande, porque ele forçou as contas públicas de uma forma tal que ele não tem como manter esse modelo. Esse modelo que ele criou é insustentável", diz.
Caldas avalia que Lula enfrenta um desgaste em parte da classe média e em setores empresariais, industriais e do agronegócio. Segundo ele, mesmo entre grupos tradicionalmente próximos ao governo há sinais de insatisfação ligados principalmente à perda de poder de compra. “Em relação aos sindicatos, por exemplo, eu diria que há uma certa insatisfação com o poder de compra, que houve uma carestia substancial, embora não apareça nos índices por causa da fórmula de cálculo", exemplifica.
Diferença entre os dois governos está na articulação política
Se na economia os especialistas enxergam paralelos importantes entre os dois governos, na política eles identificam uma diferença decisiva. Dilma iniciou o segundo mandato com uma ampla base parlamentar, mas acabou perdendo sustentação política ao longo da crise que culminou no impeachment. No caso de Lula, o presidente tem conseguido preservar canais de negociação com o Centrão, grupo que hoje concentra parcela significativa do poder no Congresso.
Para Lohbauer, a ex-presidente cometeu um erro estratégico ao confrontar o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha. O ex-deputado federal foi o responsável por abrir o processo de impeachment que culminou na saída da petista do cargo. Já Lula, segundo ele, compreende melhor o funcionamento do sistema político e optou por dividir espaço e recursos com os partidos do Centrão para garantir governabilidade.
“A Dilma foi refém do Congresso e eles a tiraram do jogo. Esse governo também é refém. A diferença é que Lula joga o jogo. Como o presidente é mais experiente, ele joga com o Centrão e entregou grande parte do poder ao Centrão”, analisa.
Esse processo se reflete especialmente nas emendas parlamentares e na ampliação da influência do Congresso sobre a destinação de uma parcela cada vez maior do orçamento federal. Embora essa seja uma tendência que se consolidou nos últimos anos e não possa ser atribuída exclusivamente ao PT, Lohbauer avalia que Lula cedeu ainda mais espaço e recursos ao Centrão, conseguindo estabilidade política e apoio legislativo para garantir governabilidade.
Para Caldas, esse é o principal fator que mantém Lula politicamente protegido. Na avaliação dele, foi justamente a perda dessa sustentação que isolou Dilma e abriu caminho para o impeachment. “Até agora Lula tem o apoio do Centrão. Mas se ele vier a perder esse apoio, vai ficar em uma situação muito parecida com a da Dilma. Aí sim as forças políticas poderão ser usadas para tirá-lo, como aconteceu com a ex-presidente”, destaca.
PT mantém força eleitoral apesar do desgaste
Lula mantém uma competitividade eleitoral consolidada, apesar do desgaste econômico e das críticas à condução do governo. O presidente segue competitivo nos principais cenários da disputa presidencial de 2026.
Caldas observa que, apesar do desgaste em segmentos da classe média e do empresariado, Lula continua demonstrando capacidade de recompor alianças e evitar o isolamento político que marcou os últimos meses do governo Dilma.
Já segundo Lohbauer, parte dessa resiliência pode ser explicada por mais de quatro décadas de protagonismo nacional. Lula consolidou um nível de reconhecimento raro na política brasileira, mantendo uma base de apoio relativamente estável mesmo em momentos de desgaste.
O cientista político também aponta o peso dos programas sociais. Para ele, grande parte do eleitorado teme perder benefícios e auxílios em eventual mudança de governo, o que contribui para a manutenção do apoio ao presidente.
"Se ele for candidato a qualquer coisa, síndico do meu prédio, por exemplo, ele tende a ficar entre os finalistas", conclui.



