Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Cidade

Manual prévio de leitura no ônibus

“Passageiros do lotação” dão dicas sobre como ler a bordo, em meio a solavancos, freadas e aperto de gente. Desafio foi feito em crônica publicada na Gazeta do Povo

 |

Uma nova rede urbana acaba de ser formalizada – a dos leitores de ônibus de linha. Os adeptos são uma espécie de tropa de elite, treinada para agir em condições ad­­versas. Convictos e concentrados como atiradores russos, enfrentam solavancos, cotoveladas e profecias agourentas para poder de­­bulhar páginas de romances e ensaios, revistas e jornais, enquanto são conduzidos aos rincões do Santa Cândida e do Pinheirinho.A trupe ainda não tem estatuto, código de ética nem nome próprio, embora um dos adeptos, Anderson Ravanello, já os tenha batizado – são os "busistas", o que soa como um meio termo entre budistas e buquinistas. A contribuição dos busistas aos "noviços do coletivo" – categoria que teme descolamento de retina, enjoo seguido de vômito e a perda de equilíbrio – é inestimável. Daí a necessidade de um manual de leitura no ônibus, atendendo a essa população.O manual prévio nasceu das maravilhas da interatividade. Dia 28 de maio, publiquei na página de Opinião uma crônica sobre a leitura sobre rodas, aquele que se dá num ponto qualquer entre a roleta, a porta da rua e a multidão enlatada. Ali, manifestei o desejo de escrever um livro sobre o assunto, desde que com autoria coletiva. Todos os busistas, ou busonautas, como querem alguns, estavam convidados a colaborar.

Além de 26 cartas oficiais, ou­­tras contribuições vieram na forma de telefonemas, formando um banco de dados único: não há referências a respeito do assunto na literatura especializada. A ouvidoria recolheu também histórias vi­­vidas a bordo do lotação. Algumas traduzem os piores sentimentos, como a inveja que alguns sentem do leitor: o malvado pecado capital atingiu uma devoradora de Proust, acometida de um buraco na retina. Mas passa bem.

Que ninguém se assuste. À re­­velia das condições adversas, a maio­­ria das narrativas businistas são cândidas como um seriado americano. Há inclusive testemunhos emocionados, que bem po­­diam fazer dos vermelhões, prateados e amarelões espaços para ex-votos. "Devo minha aprovação na UFPR às três horas diárias que passava no coletivo, estudando", conta Miriam Cristina Rakssa. A jornalista Paula Fiuza se soma a ela: "Foi no ônibus que conheci José Serra e Marina Silva pelos ótimos perfis de Daniela Pinheiro para a revista Piauí. Meu cubículo particular, sem­­pre que possível, é a área destinada às cadeiras de rodas".

Outra característica dos busistas é o gosto pelas estatísticas. Raro um que não calcule as horas passadas dentro do bus versus o número de livros lidos cada mês. João Diniz Santos chegou a ler dois títulos por mês a bordo do Curitiba-Araucária. Idem, a marca de Carlos Eduardo Guariente na rota Boqueirão-Praça Carlos Gomes.

A contar pelo que confidenciaram os colaboradores, circulam "im­­­­pressos" pelos ônibus de Curiti­ba autores como Tom Hyman, José Miguel Wisnik, John Boyne e José Saramago – além de Joyce e Oscar Wilde. A publicitária Eloísa Torres acaba de ler a saga O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo, toda no ônibus. "É estranha a reação das pessoas. To­­do mundo olha, tem gente que tenta dar uma espiadela na página, para ver o que há de tão interessante."

E tem quem pegue o ônibus pelo simples prazer de ter 10 minutos de leitura, sentado, enquanto la nave va. É o caso do estudante e cartunista Yuri Al’Hanati. Nem tudo são flores, claro. "Volto do trabalho a pé porque o Cabral-Portão, às seis da tarde, é só uma caixa de me­­tal com um pouco do inferno (aquele do Sartre, todo espremidinho) circulando pelas ruas da cidade."

Há quem drible as dificuldades da superpopulação de 2 milhões de passageiros/dia com estratégias dignas de programas nas unidades de saúde. Anote o que diz Ravanel­lo: "Ao ‘abraçar o ferro’ para ler, tro­­que de lado na hora de pender os 20 graus [para se equilibrar]. Uma vez, fique devant. Outra, derrière. Numa outra, a boreste. Ha­­vendo oportunidade, a estibordo. Sua escoliose vai agradecer".

Resta, porém, uma questão em aberto. Quem fica em pé? Discute-se se o leitor, de posse do livro, deve ceder seu espaço para uma não lei­­tora grávida ou idosa. E se o leitor, em pé, tem preferência sobre um não leitor sentado. Dúvida cruel.

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.