Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Curitiba

Mesmo em zona de risco, ronda do BPTran tem só um policial

Resolução de terça-feira obriga policial a patrulhar sozinho, mesmo em zonas de risco

Desde a terça-feira (3), a maioria dos policiais do Batalhão de Polícia de Trânsito (BPTran) trabalha sozinho em Curitiba. Em um dos pontos de atendimento, é pedido ao policial para que trabalhe a pé, se necessário. Segundo especialistas, isso coloca em risco a vida do policial, tarda o atendimento em até 30 minutos e estressa os policiais. Além disso, circular das 1ª e 2ª companhias do BPTran obriga os policiais a voltar ao trabalho em dias de folga desde o dia 19 de fevereiro.

A principal função do BPTran é atender os locais de acidentes de trânsito. Os policiais devem isolar a área, registrar como se deu o acidente e conter os ânimos dos envolvidos. A reportagem da Gazeta do Povo teve acesso as escalas de serviço. Elas comprovam que, desde terça-feira, os policiais devem fazer tudo sozinhos.

"Se for em uma zona perigosa, é possível que ele [o policial] peça o auxílio de outras viaturas. Esse deslocamento pode atrasar o trabalho em 20 ou 30 minutos", avalia o coronel da reserva remunerada da Polícia Militar José Bonifácio Batista. Segundo ele, isso pode causar estresse para o policial e para os cidadãos atendidos, que ficarão "aborrecidos com a demora".

A linha que mais chama a atenção da planilha é a que trata do ponto do Detran (Departamento de Trânsito). Uma observação na coluna "motorista" diz que se faltar "vtr" [sigla para viatura], um carro deve deixar o "PM a pé no Detran", segundo a planilha assinada pelo 3º sargento Roberto Silvério. Ou seja, o policial não só trabalhará sozinho como terá que se deslocar com as próprias pernas.

Para o presidente da Associação de Defesa dos Direitos dos Policiais Militares Ativos, Inativos e Pensionistas (Amai), Elizeo Ferraz Furquim, colocar um policial por carro é "falta de responsabilidade do coronel [Sérgio Luiz] Bessler". "Se aqui fosse como em outros países onde há uma viatura para dar o apoio a poucos metros de distância, seria até aceitável. Aqui, com a situação que temos, não dá", opina Furquim.

A reportagem da Gazeta do Povo tentou contatar Bessler durante esta tarde, mas não obteve retorno. A PM só se manifestou por meio da assessoria de imprensa: "nos locais em que puder ser um policial, será um. Em locais que tiver que ser dois, será dois. A noite, sempre serão dois policiais". As planilhas, contudo, apontam que policiais são escalados para trabalhar a noite sozinhos. Sobre isso, a comunicação social da PM disse que não se manifestaria.

Outro argumento dado pela assessoria de imprensa da PM foi uma suposta aquisição recente de aparelhos métricos eletrônicos, o que possibilitaria ao policial tirar as medidas do acidente sem precisar de um companheiro para segurar a outra ponta da fita. Duas equipes do BPTran consultadas pela reportagem negaram a existência de tais equipamentos.

"A fita métrica é o de menos. Será que eles não se deram conta que um policial exposto pode perder a vida? Ou você acha que os criminosos gostam dos companheiros fardados?", questiona Neuri Pires de Oliveira, que comandou o próprio BPTran entre os anos de 1994 e 95. "O ideal é ter dois por viatura e fim de papo. Nada de inventar moda com a vida dos garotos", declarou.

Oliveira diz que é clara a falta de efetivo no BPTran. "Acredito que o número de homens seja quase o mesmo da minha época. E olha o quanto cresceu a cidade e a frota [de veículos]", afirma Oliveira.

Non-stop

Outra surpresa recente para os policiais do BPTran foi o memorando Nº 04-SAT-P/3, assinado pelo 1º tenente Omar Bail. Ele obriga que os policiais voltem para a companhia em que trabalham para "tratar de assuntos pertinentes aos Boletins elaborados pelos mesmos" (sic). O documento obriga que os policiais voltem ao trabalho nos horários de folga das 7h às 9h ou das 19h às 21h.

Uma estimativa da Amai dá conta que os policiais teriam que sacrificar em média cinco horas de suas folgas para fazer as correções, considerando o tempo de deslocamento e os procedimentos tradicionais das correções.

Questionado sobre essa resolução, o presidente da Amai disse que responderia "com uma obviedade". "Os horários de folga servem para o policial recompor suas energias, físicas e mentais, dar uma atenção para a família, se divertir. Folga é folga", comentou.

A reportagem fez três ligações ao longo da tarde para Bail, mas a telefonista do BPTran disse que o ramal do policial estava ocupado nas três tentativas.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.