
As migrações em massa de uma multidão de excluídos redesenharam nos últimos quatro anos a geopolítica nos subúrbios de Curitiba. À razão de 12 pessoas por dia, em média, elas foram tiradas de taperas à beira de rios para viver em casinhas da Cohab. De janeiro de 2009 até o mês passado, 32 reassentamentos erguidos nas bordas da cidade receberam 4.956 famílias, ou 18 mil moradores população equivalente à da metade dos municípios do Paraná. Desde os primórdios dos programas de habitação popular, em 1967, Curitiba remanejou 45 mil pessoas.
VÍDEO: Assista os deslocamentos feitos pela Cohab nas periferias de Curitiba
A essa migração induzida precede outra, espontânea. O êxodo fenômeno inevitável, segundo muitos teóricos do ramo forjou a demografia do caos nas rebarbas da capital. As primeiras favelas sempre tinham gente do meio rural. Em meados dos anos 1970, Curitiba contava 16 mil pessoas em 38 áreas de ocupação irregular. Em 2007, ano da última consolidação de dados pela Cohab, eram 207 mil pessoas (53.962 famílias) em 254 áreas invadidas. Ocupações ocorridas desde então não figuram nas estatísticas da Cohab, embora continuem a ocorrer.
Longe de tudo
Essa legião sem-teto ocupou terras públicas ou particulares e criou peculiares arranjos residenciais à revelia das normas legais e urbanísticas. Hoje, um entre dez habitantes de Curitiba vive nessas áreas, que cobrem 2,85% do território do município. A Cohab intensificou a desocupação desses lugares graças aos programas PAC Pró-Moradia e PAC 2/Minha Casa Minha Vida. Deu-se, então, o processo migratório em massa, ainda que a Cohab tenha como princípio instalar as pessoas em conjuntos próximos de onde elas vivem.
Esse processo não ocorre sem queixas. Para a ONG Terra de Direitos, o programa se baseia na segregação. Moradores de classes mais baixas são levados para áreas distantes, onde a falta de estrutura dificulta a permanência. "A relocação deveria ser o último recurso", diz a assessora jurídica da ONG, Julia Ávila Franzoni. Uma dessas regiões carentes de estrutura é o Tatuquara, para onde estão sendo levadas famílias retiradas de outras áreas de risco. Ali, critica Julia, a pessoa não tem condição de trabalho e de acesso à cidade.
Para a professora-doutora Gislene Pereira, pesquisadora do Laboratório de Arquitetura e Urbanismo da UFPR, esse sistema de regularização dá moradia, mas não cria condições de permanência. A administração pública trabalha nas consequências e não nas causas do problema. Ou seja, a Cohab tem programas para regularizar áreas ocupadas, mas não um plano de habitação que faça frente à demanda por moradia popular. Mesmo o arquiteto Lóris Guesse, "cohabista" assumido, tem ressalvas à migração em massa para reassentamento num só lugar.
Aposentado da Cohab, Guesse foi diretor técnico por ocasião dos mais bem-sucedidos projetos de moradia de Curitiba, como o Augusta e o Caiuá. O modelo consistia em integrar pequenos conjuntos a bairros urbanizados, uma alternativa a experiências mal-sucedidas como Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, um clássico exemplo do que não deu certo.
Casa nova fica a 7 minutos da antiga moradia
Nascido em Marcelino Ramos (RS), o ex-mestre de obras Ademir Machado da Luz, 55 anos, chegou no fim da década de 1960 em Curitiba. Após quase 20 anos vivendo na região do Moradias Cajuru, trocou um terreno e foi morar na Vila Autódromo, num sobrado de madeira com fundos para a linha férrea. "O trem passava de hora em hora. Todo o dia, 24 vezes, a casa tremia toda." Dia 31, ele se mudou para o Moradias Serra do Mar, a sete minutos de caminhada.
Meses antes, ele e a esposa, Claudinéia Albino Dorcelino da Conceição, 44 anos, receberam a proposta de um sobrado da Cohab, semanas após Ramos ter a perna direita amputada devido à baixa circulação sanguínea causada pela diabetes. Na casa antiga, já tinha de subir uma escada de mais de dez degraus. "Subia de joelhos, era rapidinho. Mas já que vamos para a casa nova é melhor ter mais conforto."
O deslocamento da Vila Autódromo para o Moradias Serra do Mar é uma alternativa mais viável de reassentamento. Com a mudança dentro do mesmo bairro, as famílias continuam usufruindo os equipamentos públicos que já frequentavam e mantêm os vínculos com vizinhos e parentes. A violência urbana, porém, também permanece. No dia da mudança, a demolição do barraco foi suspensa sob ameaças. Um homem disse aos funcionários da Cohab que saíssem, caso contrário a situação "ficaria feia para todos".
Na nova casa, Claudinéia transbordava alegria sem se importar com a calçada inacabada ou com os entulhos deixados por pedreiros no banheiro. "Agora, vou cozinhar uma galinhada e receber nossos filhos com mais conforto."
VIDA E CIDADANIA | 3:41
Com planejamento, reassentamento da COHAB desloca 136 famílias da Vila Autódromo para conjunto vizinho batizado como Moradias Serra do Mar. Apesar de ficarem no mesmo bairro, moradores se afastam dos riscos e incômodo gerados por linha férrea. Acompanhe o dia de mudança de uma família que vive no local.









