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Crise em Roraima

Mortes de yanomamis: o que Lula disse no início do governo e o que de fato aconteceu

Lula e Janja em Roraima, em 2023: o presidente prometeu uma resposta rápida à crise yanomami, mas as mortes continuaram nos anos seguintes
Lula e Janja em Roraima, em 2023: o presidente prometeu uma resposta rápida à crise yanomami, mas as mortes continuaram nos anos seguintes (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

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Lula chegou ao terceiro mandato prometendo acabar com o que chamou de “genocídio” dos yanomamis. Mas a palavra não foi usada apenas uma vez. Ela apareceu com frequência nas primeiras declarações do presidente sobre a crise, sempre para apontar o governo anterior como responsável.

Já em janeiro de 2023, o petista culpou Bolsonaro pela tragédia dos índios em Roraima e garantiu: “Não haverá mais genocídios”. Três meses depois, disse que sua gestão havia adotado medidas para “interromper o genocídio dos yanomami”.

O discurso, no entanto, não se traduziu em menos mortes. Nos três primeiros anos da administração do PT, foram registrados mais óbitos do que no mesmo período do mandato de Jair Bolsonaro.

Dados do Ministério da Saúde apontam 1.138 mortes de yanomamis entre 2023 e 2025, contra 951 nos três primeiros anos da gestão Bolsonaro. O governo federal tenta se defender apontando a subnotificação de óbitos nos anos anteriores. Ainda assim, os números oficiais registrados na gestão petista são superiores.

A seguir, confrontamos as principais declarações do presidente Lula em suas redes sociais com a realidade dos dados oficiais de saúde e de fiscalização.

“Mais que uma crise humanitária, o que vi em Roraima foi um genocídio. Um crime premeditado contra os Yanomami, cometido por um governo insensível ao sofrimento do povo brasileiro.” (2023)

A declaração foi feita em 22 de janeiro, depois da visita de Lula a Roraima. O presidente disse ter encontrado adultos com peso de crianças e pessoas sofrendo de desnutrição, malária, diarreia e outras doenças. A partir dali, o termo “genocídio” passou a aparecer repetidamente no discurso do petista para descrever a situação.

“Além do descaso e do abandono por parte do governo anterior, a principal causa do genocídio é a invasão de 20 mil garimpeiros ilegais, cuja presença foi incentivada pelo ex-presidente.” (2023)

Lula atribuiu diretamente a Jair Bolsonaro a responsabilidade pela tragédia e apontou o garimpo como sua principal causa. Ou seja: a cobrança por uma punição para Bolsonaro também entrou no discurso do presidente desde o início da administração petista.

“Por isso, repito o que disse durante a campanha, e digo novamente agora ainda com mais convicção: não haverá garimpo ilegal em terra indígena.” (2023)

O governo federal de fato realizou uma ofensiva contra os garimpeiros, com apreensões, destruição de equipamentos e operações de fiscalização. A atividade, porém, não desapareceu. Relatórios recentes do Senado apontaram que o garimpo ilegal e a presença de grupos criminosos armados continuam dificultando o controle do território pelo Estado.

“Em vez das pessoas saírem de suas comunidades para buscar tratamento em Boa Vista, vamos levar equipes médicas permanentes. Isso precisa e vai acabar.” (2023)

Desde 2023, o número de profissionais de saúde no território realmente aumentou. Mas o problema logístico continua: documentos do Senado mostraram forte dependência do transporte aéreo, com dificuldades para remoções médicas e para o abastecimento de medicamentos.

“Não haverá mais genocídios. Povos indígenas serão tratados com dignidade.” (2023)

Como já mostramos, o número de mortes foi alto nos três primeiros anos do governo. E as principais causas estavam justamente entre os problemas que Lula prometeu combater: foram 219 óbitos por infecções respiratórias agudas, 104 por desnutrição e 47 por malária.

“Não é possível não enxergar isso. Quem permitiu isso tem que ser responsabilizado.” (2023)

Lula voltou a culpar Bolsonaro e a estrutura que, segundo ele, permite a expansão do garimpo. O presidente prometeu reestruturar o sistema de controle das terras indígenas e da proteção ambiental, mas a mudança não saiu do papel. E continuou colocando a culpa no antecessor.

“O Brasil voltou para cuidar de seus primeiros habitantes. Criou o Ministério dos Povos Indígenas, deflagrou ações emergenciais para interromper o genocídio dos yanomami, provocado pelo governo anterior.” (2023)

Em 10 de abril, menos de três meses depois de declarar que havia encontrado um “genocídio”, Lula afirmou que as ações emergenciais de seu governo já tinham conseguido interrompê-lo. No entanto, os números dos anos seguintes não confirmaram uma solução definitiva.

“Hoje estamos fazendo uma reunião de balanço sobre a situação dos indígenas yanomami e o que vamos fazer permanentemente para vencer essa guerra contra o garimpo ilegal, o vandalismo, contra os agressores do meio ambiente e o crime organizado.” (2024)

Em janeiro, um ano depois da visita a Roraima, Lula já falava em uma guerra permanente contra invasores e organizações criminosas. O governo mobilizou órgãos federais e destinou recursos extraordinários para a região — mas a promessa de uma solução rápida deu lugar à ideia de uma batalha de longo prazo.

“A semana começou com o anúncio de 100 novos Institutos Federais, R$ 1 bilhão em crédito para ações destinadas aos Yanomami.” (2024)

Em março, o presidente destacou o dinheiro destinado ao território como parte de uma série de ações do governo. A injeção de recursos, porém, não resolveu os problemas de execução. Relatórios do Senado apontaram falhas de gestão e obras essenciais inacabadas, incluindo problemas na reforma da Casa de Saúde Indígena Yanomami.

“Fiquei muito entristecido com a notícia de que os irmãos Bitado Yanomami, de 78 anos, e Toraquitere Yanomami, de 80, não resistiram a um acidente de helicóptero ocorrido durante uma remoção médica em sua Terra Indígena.” (2025)

Ocorrido em julho, o episódio mostrou, mais uma vez, a dependência do transporte aéreo para levar pacientes para fora das comunidades — como o Senado já havia apontado no ano anterior.

“Entre os povos indígenas yanomami, que habitam a Amazônia, existe a crença de que cabe aos seres humanos sustentar o céu, para que ele não caia sobre a Terra.” (2025)

No final do ano passado, o discurso de Lula sobre os yanomami já era bem diferente. Em vez das denúncias de “genocídio” e das promessas de uma solução instantânea para a crise, o presidente passou a recorrer à cultura e às crenças do povo indígena em discursos sobre o meio ambiente e na agenda da COP30. A crise que Lula prometeu interromper continuava fazendo vítimas no fim do terceiro ano de seu governo.

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