O empresário José Koury, alvo de mandado de busca e apreensão autorizado por Alexandre de Moraes, do STF.| Foto: Arquivo pessoal
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No dia 23 de agosto, por volta das 6h, o filho de 13 anos de José Koury, dono do shopping Barra World, no Rio de Janeiro, ligou para o pai para avisar que um delegado da Polícia Federal (PF) queria falar com ele. Koury não estava em casa, e foi o jovem quem abriu as portas do imóvel para a autoridade responsável por uma investigação. O motivo da operação: o empresário havia expressado uma opinião polêmica em um grupo privado de WhatsApp.

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Koury foi um dos oito empresários abordados pela PF após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizar mandados de busca e apreensão relacionados a supostas articulações para um golpe de Estado no Brasil. Ao que tudo indica, ele virou alvo da investigação por causa da seguinte mensagem: “Prefiro golpe do que [sic] a volta do PT”.

Segundo Koury, o grupo não tinha nem sequer um viés favorável a determinado grupo político, e misturava pessoas de diversas tendências ideológicas. “Nunca li nenhuma ameaça ao Estado de Direito nas mensagens do grupo. Só comentários e opiniões, como em qualquer outro grupo”, diz.

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O empresário é casado, tem 64 anos e três filhos. Foi executivo de grandes empresas do mercado imobiliário e, hoje, dedica-se principalmente ao shopping Barra World. Em entrevista à Gazeta do Povo, Koury diz que os policiais “foram supereducados e gentis”, mas que sua família ter sido acordada “às 6h da manhã com quatro policiais federais deve ter sido no mínimo desconfortável e assustador”.

O fato, segundo o empresário, “gera um desconforto em emitir opiniões”, mas não foi suficiente para que ele deixe de dizer o que pensa. “Não abro mão do meu direito de expressar minhas opiniões. Não é crime previsto em lei”, afirma.

Confira a entrevista com o empresário José Koury.

Como o sr. entrou no grupo “WhatsApp Empresários & Política”?

José Koury: Não me lembro, mas possivelmente alguém que tinha meu WhatsApp me adicionou.

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Como o sr. costumava interagir no grupo?

José Koury: Em um grupo composto por mais de 200 pessoas que não se conhecem – eu mesmo só conhecia duas ou três –, com tendências políticas de esquerda, direita e de centro, a quantidade de mensagens era enorme. Nem dava para ler todas. De vez em quando eu olhava e comentava alguma coisa. Possivelmente meu comentário (sobre preferir um golpe a Lula) foi uma resposta a algum membro que defendeu a volta do PT. Mas realmente não me lembro.

Aconteceu algo no grupo que possa justificar, em algum nível, a suspeita de articulação política contra o Estado de Direito?

José Koury: Nunca li nenhuma ameaça ao Estado de Direito nas mensagens do grupo. Só comentários e opiniões, como em qualquer outro grupo.

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Entre as frases vazadas, a sua frase “prefiro golpe do que [sic] a volta do PT” foi uma das que mais repercutiu. Trata-se claramente da manifestação de opinião de um empresário, sem nenhum sinal concreto de articulação política contra a democracia. Por que o sr. acha que foi alvo de uma operação policial?

José Koury: Não tenho certeza, mas alguns dizem que o objetivo foi o de silenciar as redes sociais do Luciano Hang, porque ele falava com 70 milhões de pessoas por semana. Outros dizem que foi uma articulação do dono do portal Metrópoles para atingir o Bolsonaro. Não temos como saber os reais motivos.

Pode relatar como ocorreu a busca e apreensão no seu caso?

José Koury: Eu não estava em casa. Às 6h da manhã, meu filho de 13 anos me ligou dizendo que uma pessoa queria falar comigo e passou o telefone para o delegado, que disse que queria me encontrar. Eu pedi ao meu advogado para contatar ele, e eles fizeram a busca e apreensão em meus dois apartamentos.

Uma operação policial como essa não acaba intimidando a livre expressão? O sr. tem se sentido menos confortável, por exemplo, para manifestar suas opiniões em conversas no dia a dia?

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José Koury: Naturalmente, uma operação deste tipo causa constrangimento. Tenho mulher, duas filhas universitárias com 21 e 23 anos e um filho com 13 anos. Serem acordados às 6h da manhã com quatro policiais federais deve ter sido no mínimo desconfortável e assustador. Ressalvo que os federais foram supereducados e gentis. Obviamente, isso gera um desconforto em emitir opiniões em grupos de WhatsApp, mas não deixei de fazê-lo. Não abro mão do meu direito de expressar minhas opiniões. Não é crime previsto em lei.

Como o sr. vê o uso de conversas de WhatsApp vazadas para justificar os mandados de busca e apreensão?

José Koury: Muito complicado. Qualquer dia desses poderão usar conversas de bar para intimidar desafetos.

O sr. sofreu uma invasão de privacidade pela quebra dos sigilos bancário e telemático. Como isso afetou a sua vida?

José Koury: Minhas redes sociais têm apenas fotos de familiares e cerca de 500 seguidores. Quanto às outras coisas, obviamente causam desconforto, mas não vão encontrar nada. Não existe nada a ser encontrado.

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Não é paradoxal que uma operação eivada de afrontas ao devido processo legal seja justificada com base na necessidade de defesa do Estado de Direito?

José Koury: Realmente inexplicável. Mas parece que foram medidas políticas movidas por interesses particulares. Comentam que foram feitas sem base legal.

Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]