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Ney Braga, ou a arte de fazer amizades

Militar e político, modernizou a administração pública e lançou as bases da industrialização do Paraná

  • Aline Peres
Ney Braga |
Ney Braga
 
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Ney Braga, ou a arte de fazer amizades

Era um homem sedutor e fiel aos seus ideais. Segundo o jornalista e escritor Adherbal Fortes de Sá Júnior, Ney Aminthas de Barros Braga não suportava a idéia de ter adversários políticos. Se eles existiam, deveriam ser conquistados; e os amigos, sempre preservados. Ney Braga costumava dizer sobre o assunto: “Quem não tem amigos há mais de 30 anos não tem caráter”; e “Político é aquele que não deixa os amigos na chuva e no tempo”.

Sua carreira foi meteórica e transformadora. Para Sá Júnior (biógrafo e escritor do livro Ney Braga, Tradição e Mudança na Vida Pública, editado em 1996), Ney Braga foi o homem público mais influente da história do Paraná. “Falo sem paixão. Apenas olho o panorama com a perspectiva do tempo”, diz.

Na sua opinião, a história infelizmente não é contada aos jovens paranaenses com a devida importância. Falta-lhes mostrar que o estado foi construído tanto por bravos pioneiros, como também por grileiros, mascates e perdedores. Ney Braga entendeu os mecanismos da história e tornou-se uma espécie de ponte entre esses grupos.

De uma família tradicional lapeana, tinha a política nas veias. No fim do século 19, a Revolução Federalista dividiu a Lapa entre maragatos e pica-paus. Os partidários da revolução e os defensores do governo central não se toleravam, mas as histórias familiares acabavam se entrelaçando e causando conflitos internos.

Foi o caso dos seus avós: a devoção política dividia os relacionamentos. Porém o amor vencia, na grande maioria das vezes. Manoel Antônio da Cunha Braga (partidário dos maragatos) e Vitória Lacerda (clã formado por pica-paus) casaram-se a contragosto das famílias. Rixas que duraram anos e com que Ney Braga aprendeu a conviver ao circular entre os dois grupos. Esse cuidado foi lembrado algumas vezes por amigos e partidários, ao se depararem com o espírito conciliador de Braga.

Teve uma infância feliz, mesmo com dificuldades. Com o pai, dono de um pequeno cine-teatro na cidade, aprendeu a gostar de teatro e de cinema. Os valores de bondade, seriedade e moralidade da vida pública também foram aprendidos durante a infância e adolescência. Foi aluno interno no Ginásio Paranaense graças a uma bolsa de estudos dos padres lazaristas, solicitada pelo cunhado do pai, Caetano Munhoz da Rocha, ex-presidente do estado. Dedicou-se à carreira militar, ocupou a Chefatura de Polícia de Curitiba (atual cargo de Secretário de Segurança Pública), e foi o primeiro prefeito a ser eleito por voto direto. Depois disso, se elegeu deputado federal, governador por duas vezes, e foi ministro outras duas (Agricultura e Educação), além de senador.

Sua trajetória política começa sob o regime democrático (1946/ 1964); depois continua sob a ditadura (1964/1984); e se encerra novamente em um regime democrático. Segundo o jornalista Vanderlei Rebelo, em seu livro Ney Braga, a Política como arte, o primeiro governo do estadista foi apontado como um marco modernizador da economia do estado, ao lançar programas de infra-estrutura, especialmente nas áreas de energia e transportes, a promoção do primeiro programa consistente de industrialização.

Perfil

Adherbal Fortes de Sá Júnior conta que a pesquisa para a biografia levou dois anos de entrevistas e quase 30 anos de conversas. “Desde o início decidimos que o livro seria uma longa entrevista para não cair na armadilha da narrativa na terceira pessoa. Na terceira pessoa você é obrigado a julgar o personagem e eu não tinha o necessário distanciamento, nem estava preparado para essa façanha”, argumenta.

Durante as entrevistas, Braga se comportava como se estivesse ditando sua biografia. Compenetrado, minucioso e com uma ótima memória, os textos foram saindo de quilos e quilos de documentos guardados em caixas no seu escritório.

No aspecto pessoal, o que mais chamava a atenção era a rede de amigos e a facilidade que tinha para acessá-los. Em uma época em que as telecomunicações não eram tão desenvolvidas, Braga levantava o telefone e fazia os pedidos. Desde cimento, para José Ermírio de Moraes, da Votorantin, para terminar as obras da Baixada do Atlético, até consultas jurídicas realizadas com Carlos Alberto Direito, então desembargador no Rio de Janeiro, atualmente ministro do Superior Tribunal Federal (STF). “Seu telefone não parava de funcionar, coisa inimaginável nesses tempos de grampo”, comenta Sá Júnior.

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