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Cristina, da UFPR: busca por explicações em vestígios de espécies não preservadas | Fotos: Antônio More/Gazeta do Povo
Cristina, da UFPR: busca por explicações em vestígios de espécies não preservadas| Foto: Fotos: Antônio More/Gazeta do Povo

Perseverança

O caminho das pedras da profissão no Brasil

Para responder às questões que se propõe, as possibilidades oferecidas pela Paleontologia vão muito além da popular ideia de "caçar ossos de dinossauros" e se dividem, conceitualmente, em áreas como a paleobiologia, ramo dedicado aos conceitos evolutivos e ecológicos que se subdivide em paleozoologia e paleobotânica, estudo de fósseis de animais e plantas, respectivamente. Outra área, a micropaleontologia, estuda formas de vida microscópicas, os microfósseis, e auxilia na identificação de formações rochosas aptas à formação de petróleo. É uma das áreas mais promissoras para paleontólogos.

Apesar das múltiplas áreas de atuação, para ser um exímio em outras eras é necessário perseverar pelo caminho acadêmico. Como no Brasil não existe graduação em Paleontologia, é recomendável a formação superior em Biologia ou Geologia. A especialização ocorre na pós-graduação, vinculada a departamentos de geociências ou biociências – hoje, cerca de 45 instituições oferecem algum curso na área. No Paraná, UFPR, UEPG e Unioeste possuem linhas de pesquisa em Paleontologia.

O paleontólogo constrói sua carreira como professor ou pesquisador. O Brasil passou 15 anos sem contratar um único paleontólogo. Mas, de 10 anos para cá, as universidades passaram a acolher mais profissionais em novos campus e cursos superiores. Segundo a Sociedade Brasileira de Paleontologia (SBP), a contar pelo número de associados, há 570 atuando no país. "Consideramos a condição da profissão no Brasil razoável comparativamente com outros países. Mas precisamos de mais investimento público em pesquisa", avalia Max Cardoso Langer, presidente da SBP. Pelos dados do CNPq, desde 2010 apenas dois editais foram abertos para financiar projetos de pesquisa científica e tecnológica em Paleontologia. O primeiro, de 2010, destinou R$ 6 milhões para 82 pesquisas; o segundo, de 2011, aplicou R$ 1,7 milhão em bolsas.

Virando fóssil

Rumo à fossilização, um organismo passa pelas seguintes etapas:

Morte e necrólise – Logo que um organismo morre, inicia-se a necrólise, que é a decomposição dos tecidos moles do corpo.

Desarticulação – Definida como dois ou mais elementos esqueletais em posição anatômica original, a preservação do organismo articulado é rara pois os ossos/valvas das conchas/folhas se mantêm articulados em função dos tecidos moles que os unem. A desarticulação é resultado do transporte pelos ambientes sedimentares e é determinada tanto pela anatomia básica do organismo quanto por fatores externos.

Soterramento – é essa etapa que garante a preservação dos restos orgânicos; não fosse o soterramento por cobertura sedimentar, muito da vida do passado não teria sido preservada.

Diagênese – depois de soterrado, o organismo passa por um processo chamado diagênese, que consiste na compactação pelo peso do sedimento e na cimentação, processo químico através do qual o sedimento depositado sobre o organismo ou por dentro dele se aglomera e passa a formar uma rocha sedimentar. Voilà! Temos um fóssil!

  • Fósseis depositados na UFPR, parte deles resgatada de contrabandos via Paraguai

Alçada ao status de profissão fantástica graças à trilogia cinematográfica Jurassic Park e a personagens como India­­na Jones (na verdade um ar­queó­logo), a Paleontologia nem sempre promove grandes aventuras. Porém, cada descoberta constitui uma peça a ser acrescentada ao imenso mosaico de fatos que narram a história do universo, da natureza e do homem. Ciência por vezes incom­­preendida, a Paleontologia estuda a vida e sua evolução na escala do tempo geológico. Trata-se de coletar informações biológicas integradas aos registros geológicos do planeta, ou seja, estudar os fósseis.

INFOGRÁFICO: Veja quais são os sítios paleontológicos localizados no Brasil

"A Paleontologia busca pelo conhecimento do passado de uma região, busca entender como aquele local era há milhões de anos através da reconstrução da história evolutiva dos organismos, que guarda uma relação com a origem da nossa própria espécie. Entender como um ambiente evoluiu até chegar ao que conhecemos hoje é muito interessante", define Max Cardoso Langer, presidente da Sociedade Brasileira de Paleontologia (SBP) e professor do Departamento de Biologia da USP.

São muitas as descobertas advindas de objetos que, aos olhos leigos, parecem incompreensíveis ou abstratos: um fóssil pode conter vestígios do ambiente em que determinado organismo viveu; pode revelar informações sobre os fluxos marítimos e a meteorologia de tempos passados – temperaturas, chuvas e ventos tiveram grande influência sobre a sobrevivência e o desaparecimento de espécies –; e pode possibilitar a reconstrução paleogeográfica de dado momento histórico.

Mas a mais importante con­­tribuição para a sociedade é o fornecimento de pistas sobre qual trajeto o mundo, os animais e a própria humanidade percorreu até chegar ao que conhecemos hoje.

"A maioria da vida que exis­­tiu no planeta não foi pre­­­­servada, esses são os ‘elos perdidos’. Temos evidências das relações de parentesco entre o macaco e o homem, mas não sabemos exatamente qual organismo deixou de ser um macaco e passou a ser um homem, pois exis­­tem os hiatos no registro fóssil. O que tinha ali no meio? É por essas coisas que a Paleontologia busca", diz Cristina Silveira Ve­­ga, coordenadora do Labo­ra­­tório de Paleontologia do Departamento de Geologia da UFPR.

À mercê de danos e até do contrabando

A legislação brasileira que regula a prática da Paleontologia é escassa. Desde 1942, um decreto-lei estabelece os depósitos fossilíferos como propriedade da União, proíbe a venda e a exportação comercial de fósseis e vincula a extração de espécimes fósseis à autorização prévia e fiscalização do Departamento Nacional da Produção Mineral, do Ministério da Agricultura. Uma lei de 1998 sobre proteção do patrimônio natural e crimes ambientais define como crime a extração de recursos sem autorização, permissão, concessão ou licença.

Mas a fiscalização da coleta de fósseis em áreas de mineração intensa é deficiente. "Com a legislação e fiscalização mínima conseguimos coletar sem grandes empecilhos burocráticos, porém a insegurança é grande. É comum coletarmos fósseis sem documentos de autorização, então estamos sujeitos ao risco de uma eventual fiscalização considerar a prática ilegal", diz Max Cardoso Langer, presidente da Sociedade Brasileira de Paleontologia.

Outro problema ainda mais grave ameaça o pa­­trimônio natural e a Pa­­leontologia no Brasil: o contrabando de fósseis. "Via Foz do Iguaçu sai muita coisa. A Polícia Federal apreende e contata a universidade para auxílio na identificação. Se a universidade solicitar, pode ficar como fiel depositária das peças", conta Cristina Silveira Vega, da UFPR, mostrando dezenas de caixas repletas de fósseis resgatados em apreensão na fronteira com o Paraguai.

A Chapada do Araripe, entre Ceará, Piauí e Per­­nambuco, é o mais famoso sítio paleontológico do Brasil e alvo constante de contrabandistas. Foi dali que saiu o pterossauro de 120 milhões de anos anunciado no início do ano no site de leilões Ebay. A peça foi adquirida há mais de 30 anos por um colecionador e foi ofertada por US$ 262 mil. O caso é investigado pela PF e Interpol e pode resultar em pedido de repatriação da peça.

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