O composto, descoberto em uma pesquisa financiada pelo CNPq e Fundação Araucária, já está com o pedido de patente depositado| Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo

Brasil tem 11 espécies da aranha-marrom

Aparentemente, elas são todas iguais: o mesmo formato, tamanho e os sintomas das picadas são semelhantes. Apesar de tanta coincidência, aranha-marrom não é tudo igual. Só o Brasil possui 11 espécies do aracnídeo. A que é mais comumente encontrada no Paraná, a Loxosceles intermedia, possui características de caçadora, como explica o biólogo Eduardo Novaes Ramires, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e Faculdade Espírita. "Nossa espécie não investe tanto na teia, é uma caçadora ativa e chega a se locomover até 30 metros por noite", conta.

Essa característica faz com que ela saia dos sótãos e caminhe pela casa. Como essa aranha também não gosta de luz, se esgueira por armários, dentro de roupas e no fundo dos sapatos para fugir de qualquer iluminação. E é daí que podem ocorrer os acidentes. A aranha-marrom não ataca, mas picam como forma de defesa, por se sentirem incomodadas. Esse tipo comum no Paraná possui uma picada rápida, mas o veneno é mais potente que o de outras. "Ela dá uma picada leve, dificilmente passa de 30 segundos, mas o veneno é forte", explica.

Ele lembra que o número de acidentes com essa aranha em Curitiba é um dos mais altos do Brasil. Em Santa Catarina, por exemplo, a prevalência é de uma espécie comum no Chile, a Loxosceles laeta.

O número de acidentes é menor, mas ela é mais letal porque "injeta" mais veneno na vítima.

Interessado no assunto, Ramires mantém um site sobre o aracnídeo: aranhamarrom.net.

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Atualmente, o jeito mais eficaz de matar uma aranha-marrom, dessas que se esgueiram em armários e dentro de sapatos em Curitiba, é com uma chinelada e suas variáveis. O método, no entanto, poderá ser substituído em breve. Isso porque pesquisadores do Paraná descobriram uma mistura de produtos naturais que é eficaz contra o aracnídeo. Quando exposta à fórmula, a morte da aranha é certa. O desafio agora é transformar isso em um produto que possa ser usado em casa e tenha efetividade.

O químico Francisco de Assis Marques, do Departamento de Química da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e coordenador da pesquisa, explica que o projeto começou há um tempo num grupo que busca alternativas para controle de pragas. Na época, o grupo estudava um repelente para o mosquito Aedes aegypti. Quando fizeram um teste – um dos pesquisadores, o doutorando Vinícius Annies, passou o produto no braço e colocou-o em uma gaiola com mosquitos – notaram que além do efeito de repelência, os mosquitos também morreram em contato com a substância. "Funcionava e ainda era composto de produtos naturais", ressalta.

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Foi ideia do biólogo Eduardo Novaes Ramires, da UTFPR e Faculdade Espírita, testar esse composto em outros animais que estavam no laboratório: a aranha marrom e o escorpião amarelo. "Deu certo. Então, começamos uma série de testes e verificamos que havia potencial [para desenvolver o produto]", conta. A partir de então, começaram as tentativas para encapsular as substâncias naturais visando aumentar a eficiência da formulação final, e transformá-lo em um produto que possa ser usado em casa.

Em outubro de 2014, os pesquisadores chegaram a duas fórmulas, que ainda estão em teste. O desafio é fazer um produto eficiente. Ramires explica que a aranha-marrom possui um exoesqueleto bastante impermeável, o que dificulta a ação pesticidas usados contra a aranha. Por isso, os cientistas estão trabalhando com a estratégia de encapsular as substâncias em pequenas cápsulas, invisíveis ao olho nu. O objetivo é que as cápsulas tenham aderência ao corpo da aranha e, gradualmente, liberem o veneno até que o animal morra.

Marques explica que eles trabalham agora para encontrar a ‘dosagem’ certa do composto, a quantidade a ser encapsulada que será eficaz para matar a aranha, e também para melhorar a aderência de cada cápsula ao corpo da aranha. "É mito que nada mata a aranha marrom a não ser a chinelada. Descobrimos que um pesticida encapsulado também era eficaz", conta o químico.

O problema é que o produto comercial usa piretroide, que apresenta certa toxicidade ao ser humano. A inovação dessa pesquisa é que estão sendo usadas substâncias naturais de baixa toxicidade ao ser humano. Uma delas é atualmente empregada como principal componente de um famoso perfume e a outra como aromatizante usado na indústria de alimentos para dar sabor de uma fruta a balas e gomas de mascar.

O composto, descoberto em uma pesquisa financiada pelo CNPq e Fundação Araucária, já está com o pedido de patente depositado no Brasil e no exterior. "É a primeira vez que temos a possibilidade de matar a aranha marrom com um produto natural. Já é uma pesquisa belíssima, mas como a ciência vai conseguir chegar à sociedade? É o que temos para resolver", diz Marques.

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