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Apucarana – O pedagogo Roberto Carlos Ramos, ex-interno da Febem (rede de instituições que abrigam adolescentes em conflito com a lei, em São Pau-lo), ganhou notoriedade nacional com a campanha publicitária "O melhor do Brasil é o brasileiro", do governo federal. Na semana passada, ele esteve em Apucarana (380 quilômetros a Noroeste de Curitiba), para participar do 5.º Seminário Nacional de Educação. O município é um dos poucos do país que mantêm ensino em tempo integral nas escolas públicas.

Em sua intensa andança pelo Brasil, Roberto Carlos Ramos leva a idéia da "pedagogia do amor". Ele também costuma fazer uma apaixonada defesa do resgate do humanismo no processo de ensino.

Roberto é pedagogo, mestre em Educação pela Unicamp, pós-graduado em Literatura Infantil pela PUC-MG, membro da Associação Internacional dos Contadores de Histórias e Valorizadores da Expressão Oral Mundial, com sede em Marselha (França). Em 2001, foi eleito – num evento em Seattle (EUA) – um dos dez maiores contadores de histórias da atualidade.

O astral positivo, a força de vontade e a coragem para enfrentar desafios o qualificaram como palestrante de renome internacional. O contador de histórias já proferiu palestras em grandes empresas do Brasil e Estados Unidos.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista à Gazeta do Povo.

Como você saiu do submundo de furtos, drogas e das idas e vindas à Febem para se tornar uma referência nacional em educação?

Fui menino de rua, interno da extinta Febem, de onde cheguei a fugir 132 vezes. Aos 9 anos, eu já era tido pelo sistema educacional da época como um caso irrecuperável. Com 13 anos, eu não sabia ler nem escrever e já tinha passado por 12 internatos da Febem. Aos 13 anos, tive a oportunidade ímpar de conhecer uma professora, uma pedagoga francesa. Primeiro ela me alfabetizou em francês, depois em português e aos 15 anos fui para a França, onde fui matriculado numa escola internacional em regime integral. Quatro anos depois voltei ao Brasil, com segundo grau concluído e pronto para iniciar a faculdade. Daí para frente já estava encaminhado na vida. Marguerite Duvas provou que estava certa. Com ela, aprendi, principalmente, a dar e receber afeto. Aprendi auto-estima e autoconfiança. Na França, descobri a arte de contar histórias. E de volta ao Brasil me formei em Pedagogia. Acabei me tornando o "Embaixador do País das Maravilhas", como eu mesmo me defino.

O que é a pedagogia do amor?

São as várias formas de transformar um ser humano. Eu até brinco que existem dois tipos de ser humano, os que choram e os que vendem lenços. Nós temos muita gente nesse Brasil chorando, reclamando da situação, falando que não tem jeito, mas poucos líderes que realmente se colocam à disposição para solucionar os problemas. Muita gente de pires na mão, mas poucos mostrando realmente qual é o caminho. A pedagogia do amor não é um tema recente. É um tema que fala da necessidade dos educadores serem extraordinários. No momento atual, não basta ser um simples educador, tem de extrapolar a função de educar, para transformar os seres humanos. A pedagogia do amor é essa necessidade de ser diferente daquilo que já existe, ir além do convencional. O educador tem de extrapolar o papel de simplesmente educar. O ser humano é composto da sua parte cognitiva (aprendizado), da parte psíquica (pensamento), física (corporal) e religiosa. Quem ensina só consegue entrar em determinados conceitos se absorver todas as situações que permeiam uma sala de aula. Se for além, ele consegue chegar até as pessoas. Digo que é importante ser diferente.

Você aplica essa pedagogia com seus filhos?

Sim, eu tenho implementado esse modelo com "meus filhos". Acabei adotando 14 meninos que, assim como eu, tiveram uma trajetória de rua e também eram tidos como casos irrecuperáveis. Todos chegaram praticamente analfabetos, não sabiam ler nem escrever, e estão evoluindo e chegando às universidades. A pedagogia do amor é a necessidade que nós temos de acreditar um pouco mais nos seres humanos, de perseverarmos um pouco mais, mostrando que a educação é um dos caminhos que colocam as pessoas na posição de cidadãos.

Que modelo de escola defende?

São várias correntes. Não existe um único modelo de educação. O importante é que se contemple o aluno como cidadão, que se emancipe o aluno. Existem processos educacionais que fazem com que o estudante fique eternamente dependente da escola. Defendemos aquele modelo que resgate o educando. Vai ser um eterno aprendiz, mas emancipado. Perceberá que o pouco que vai passar no mundo acadêmico será o suficiente para dar um plus na sua vida e causar uma transformação. Não se deve falar que ele vai precisar da escola ou do professor eternamente. Essa escola não serve mais.

Que conselho daria para garotos ou garotas que estão pelas ruas e sem possibilidade de estudar?

Todo cidadão vivencia oportunidades. Nós chegamos num estágio em que todas as políticas públicas proporcionam algum serviço para o cidadão. Porém, algumas vezes nós saltamos um ponto fundamental e é isso que a nossa juventude precisa perceber. É preciso enxergar o momento em que surge uma oportunidade. Oportunizado todo mundo é, mas às vezes não consegue perceber. Sem dúvida, outras propostas são mais interessantes para o jovem, como a droga ou a criminalidade. Compete a nós cidadãos mostrar para esses jovens que o caminho mais longo é mais interessante. É muito mais difícil e árduo, mas com certeza vai ter frutos muito melhores. Eu era muito ansioso quando andava pelas ruas e, se não mudasse de vida, provavelmente, aos 18 já estaria morto ou mofando em algum presídio. Porém, uma pessoa me ensinou a perceber oportunidades. Então, eu falo para a juventude agarrar quando surge uma oportunidade e o que fazer com ela.

Quais são saídas para a violência na escola e para a evasão escolar, que cresceu no governo Lula?

Não se trata de uma situação regional. Isso permeia toda a realidade brasileira. Passa por um problema anterior. A evasão escolar é sintoma de uma grave doença social brasileira, que é a questão da distribuição de renda. A família funciona como se fosse o ponto de apoio: a escola dá um suporte e a família confirma aquilo. E quando não existe essa confirmação, a evasão escolar vai ser o sintoma de uma situação mais ampla. A evasão escolar e a violência são sintomas de um problema maior. Não são os municípios que vão resolver. É preciso trabalhar de uma maneira estadual, nacional e regional.

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