Wálter Maierovitch: “Não adianta colocar todo mundo nos presídios”| Foto: Vidal Cavalcante/AE

Pacificação

Um réveillon mais seguro

A pacificação das favelas do Ale­mão e da Vila Cruzeiro e o maior nú­­mero de unidades de Polícia Pa­ci­ficadora (UPPs) no Rio de Ja­­neiro, principalmente na zona sul, farão do réveillon deste ano uma festa mais tranquila do que a do ano passado. Essa é a expectativa da Polícia Militar do Rio. Ao todo, 6.717 policiais militares serão destacados para fazer a segurança na festa da virada em todo o estado – um contingente 5% superior ao de 2009. Segundo a PM, houve uma redução drástica nos índices de criminalidade neste fim de ano.

O revéillon da Praia de Copaca­bana, onde ocorre a tradicional queima de fogos com a presença de cerca de 2 milhões de pessoas, mobilizará o maior efetivo: serão 1.350 policiais e 131 viaturas. Onze balsas levarão as 25 toneladas de fogos de artifício que vão colorir o céu de Copacabana à meia-noite do dia 31.

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A ocupação do conjunto de favelas do Alemão e da Vila Cruzeiro, na zona norte do Rio de Janeiro, que completou um mês ontem, representou o primeiro e importante passo para a reconquista do território pelo Estado, mas ainda há um "largo caminho" a ser percorrido para de fato garantir cidadania à população que vive na localidade. A avaliação é do especialista em ciências criminais Wálter Maierovitch em entrevista à Agência Brasil.

Segundo ele, o Estado precisa investir fortemente nos jovens que estavam a serviço do tráfico para inseri-los na sociedade de forma digna. "Aquele território não era do Brasil, mas da facção criminosa que o comandava. Ocorreu um resgate. Mas ainda há um largo caminho. Por exemplo, é preciso pensar imediatamente nos jovens que foram cooptados pelo crime organizado, dando a eles instrumentos [de ressocialização]. Não adianta colocar todo mundo nos presídios", disse Maierovitch, que é também fundador e presidente do Instituto Brasileiro Giovanni Falcone – instituição que homenageia o magistrado italiano que lutou contra a máfia na Itália e morreu em um atentado.

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Segundo ele, o fato de as ações da polícia terem sido feitas "dentro da legalidade" e com coordenação, indica que é possível desarticular as organizações criminosas chamadas por ele de "pré-mafiosas" por se imporem sobre territórios que conquistam e parte da sociedade.

Maierovitch diz acreditar que para evitar a rearticulação de criminosos que tenham migrado para outras áreas é fundamental atacar a economia do tráfico. "O único objetivo deles é o lucro, o dinheiro", ressaltou. Uma das estratégias seria o acompanhamento da movimentação financeira em municípios de fronteira.

"Existem muitas cidades de fronteira que têm um movimento financeiro infinitamente superior à sua capacidade financeira. Esse é um indicativo evidente de que o crime atua ali. Com isso, se pode ve­­­rificar o percurso do dinheiro para se chegar definitivamente à cúpula das organizações", explicou.

O especialista citou outra técnica de inteligência policial, que vem sendo usada na Itália contra a atua­­ção da Máfia. Trata-se da infiltração de agentes altamente preparados, que se apresentam como lavadores do dinheiro para inserir as quantias geradas pelo crime em atividades formalmente estabelecidas. "Dessa forma, também se chega à cúpula do crime. Mas aqui no Brasil ainda estamos muito longe dessa técnica, que é uma das mais modernas no combate ao crime organizado e permite fazer grandes apreensões com a identificação de onde esse dinheiro [ilícito] se encontra", afirmou.

Ele também defendeu a criação de uma polícia penitenciária para fiscalizar os presídios que recebem lideranças do tráfico e verificar situações de enriquecimento ilícito de agentes e diretores dessas instituições.

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