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Energia

Os males da iluminação artificial

Alessandro Barghini, pesquisador do Instituto de Eletrotécnica e Energia e do Laboratório de Estudos Evolutivos do Instituto de Biociências da USP

  • Jennifer Koppe - meioambiente@gazetadopovo.com.br
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Os males da iluminação artificial

Para atrair os vaga-lumes machos, as fêmeas começam a brilhar quando a luz ambiente é inferior a 0,5 lux (medida de intensidade luminosa), equivalente a uma uma noite de lua cheia. O problema é que, como as luzes artificiais são mais fortes, a fêmea não pisca, o macho não é atraído e eles não se procriam. Mas não são apenas os vaga-lumes que sofrem com os efeitos da iluminação artificial: várias espécies de plantas, animais e até mesmo os humanos são prejudicados pela luz intensa, como explica o antropólogo e doutor em Ecologia pela Universidade de São Paulo (USP) Alessandro Barghini, autor de Antes que os Vaga-lumes Desa­­­­pareçam (editora Annablume), lançado em março. “Escrevi o livro para tentar ensinar o público a utilizar da forma racional a iluminação artificial, minimizando o impacto ambiental e reduzindo os riscos para nós mesmos”, conta Barghini que, em entrevista por e-mail à Gazeta do Povo, explica de que forma e quais são os efeitos negativos da iluminação artificial sobre a biodiversidade e propõe medidas de controle da luminosidade para reduzir os seus impactos.

Quais são os principais prejuízos causados pela iluminação artificial?

A iluminação artificial intensa introduz um sinal novo no ambiente, para o qual os seres viventes não estão programados, determinando as mais diversas consequências. Precisamos lembrar que a vida evoluiu, na Terra, ao longo de mais de 3,5 bilhões de anos em uma alternância de períodos de claridade e de escuridão, e todos os seres viventes evoluíram utilizando essa alternância para estruturar as atividades. A iluminação artificial, como sinal novo no ambiente, é interpretado de modos variados, desorientando, por exemplo, as aves migratórias, ou então levando à florada antecipada de uma planta.

Por que escrever um livro sobre o assunto?

Desde menino fui educado a tomar cuidado com a iluminação artificial: nunca acender uma lâmpada em um quarto antes de fechar a janela para não atrair pernilongos e similares. No desenvolvimento do trabalho em planejamento energético, tive a ocasião de trabalhar em áreas remotas nas quais o problema das doenças transmitidas por insetos, como a malária, a febre amarela, a leishmaniose, o mal de Chagas e as febres silvestres representavam uma séria ameaça. Tentei sem sucesso, por muitos anos, estimular pesquisadores e empresas elétricas a realizar estudos sobre o tema. Finalmente, decidi voltar aos bancos escolares para realizar um doutorado em Ecologia. Me pareceu que, em um país tropical como o Brasil, no qual a grande biodiversidade é também diversidade de arbovírus, que são fonte de doenças, era fundamental conhecer melhor o impacto da iluminação artificial sobre a atração de insetos, especialmente agora que meios técnicos mais avançados estão permitindo levar a eletricidade às áreas mais isoladas, nas quais, pela maior proximidade com a área silvestre, o problema das doenças transmitidas por insetos é maior.

Além dos vaga-lumes, que outras espécies de animais e plantas são prejudicadas pela luz artificial? De que forma são afetadas?

Praticamente todos os seres vivos são afetados pela iluminação artificial excessiva. A forma mais imediata de influência é a desorientação. No caso dos filhotes de tartaruga, se a praia for iluminada, eles se dirigem em direção às luminárias e não do mar, tornando-se fácil presa dos predadores. Para as aves migratórias, a iluminação artificial – especialmente quando o céu está encoberto ou tem neblina – representa uma baliza que pode levar à perda de rumo e à morte. Já para os insetos, a iluminação artificial representa uma forte atração. Aqueles com limitado controle do voo, como os coleópteros e os lepidópteros (mariposas), chegam a bater na luminária, e morrer. No caso dos hematófagos – espécies que picam os mamíferos para se alimentar – a luz os atrai para perto dos homens, facilitando a transmissão de doenças. A iluminação noturna intensa rompe os ritmos circadianos e determina alterações profundas no metabolismo. Nas aves, antecipa a época de postura e os filhotes acabam nascendo num período não propício.

E os seres humanos? Como são afetados? Qual a relação entre luz artificial e saúde?

Os seres humanos possuem sistemas cerebrais muito mais complexos e as consequências são variáveis de indivíduo a indivíduo. A curto prazo, a luz intensa inibe a produção de melanopsina, um hormônio fundamental para facilitar o sono. Na prática, a luz manda um sinal ambiental ao corpo que diz ainda ser dia, causando a hiperexcitação e, em seguida, a insônia.

A longo prazo, as consequências são piores. Em alguns indivíduos pode até induzir a doenças degenerativas. Está confirmado, por exemplo, que em mulheres na menopausa a iluminação intensa noturna pode aumentar a probabilidade de câncer de mama.

Quais tipos de radiação são mais prejudiciais? Por quê?

As radiações mais prejudiciais são, sem dúvida, aquelas de alta energia e de onda curta como a ultravioleta, utilizada para bronzeamento, além da violeta e da azul. A razão é simples: a alta energia produz reações fotobiológicas mais intensas e favorece a instauração de doenças degenerativas, como o câncer de pele e a catarata. Essas mesmas radiações são utilizadas pelas aves e pelos insetos para se orientar, portanto, a escolha de lâmpadas de baixo conteúdo de radiação ultravioleta é uma escolha correta para minimizar o impacto sobre o ambiente.

Há como amenizar os efeitos causados pela iluminação artificial no meio ambiente? De que forma?

Sim. O mais importante é o uso discreto da iluminação artificial. A iluminação noturna deve ser utilizada apenas onde se torna estritamente necessária e na intensidade adequada. Iluminação com função puramente decorativa ou iluminação excessiva representam um desperdício de recursos absolutamente não justificado.

Existem hoje recomendações internacionais que indicam claramente o caminho que deve ser adotado. O uso de luminárias com feixe de luz dirigido e lâmpadas eficientes e de cor amarelada (co­­mo as lâmpadas a vapor de só­­­dio) é o ideal. Apesar de serem menos agradáveis do ponto de vista da percepção das cores, elas são mais eficientes do ponto de vista energético e, principalmente, são menos agressivas sobre o meio ambiente.

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