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Imaginário popular

Os monges “Joões Marias” de um Paraná caboclo

A figura mística do andarilho, tido como benzedeiro e conselheiro, é venerada em várias partes do Sul do Brasil. Segundo a historiografia, pelo menos cinco homens ganharam a alcunha

  • Derek Kubaski, especial para a Gazeta do Povo
O Olho D’água São João Maria, onde o santo popular teria sido visto pela primeira vez em Ponta Grossa |
O Olho D’água São João Maria, onde o santo popular teria sido visto pela primeira vez em Ponta Grossa
 
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Há quem diga, sem titubear, que um tal João Maria, com mais de 200 anos de idade, ainda faz suas andanças e seus milagres. Com o devido respeito à crença popular, a ciência também apresenta a sua versão dessa história. Os fiéis do monge santo das paragens sulinas do Brasil talvez duvidem, mas o fato é que, para os pesquisadores, vários homens ao longo do tempo usaram a denominação “João Maria”, sempre procurando agir tal e qual o primeiro: Giovanni Maria D’Agostini, ou João Maria D’Agostini, italiano que chegou ao Brasil por volta de 1840. Além de usarem barba longa, em todos as vestes rústicas e o cajado faziam parte da indumentária.

Nas regiões centrais e orientais do Paraná e de Santa Catarina, assim como no sul de São Paulo e no norte do Rio Grande do Sul, não é muito difícil topar com um pequeno altar ou um cruzeiro por onde um dos “Joões” teria passado. Era nesses locais, muitas vezes encerrados no meio do mato, que eles apareciam sem avisar, sozinhos e sempre com um ar de mistério. “Pelo menos cinco homens utilizaram a denominação de Monge João Maria, mas os mais conhecidos são João Maria D’Agostini e João Maria de Jesus”, explica o professor de História da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Paulo Pinheiro Machado, estudioso da figura mística.

O primeiro ficou no Brasil entre 1844 e 1852, enquanto o segundo aparece no país entre 1886 e 1908. Ambos, em suas longas caminhadas, fizeram estadas em diversos pontos. Ao redor das cabanas toscas que erguiam, várias pessoas se aglomeravam em busca de um milagre e, muitas vezes, passavam a viver em verdadeiros “ajuntamentos” – comunidades pequenas e que duravam tanto quanto a passagem de “João Maria”, que normalmente desaparecia deixar rastros, tampouco avisos.

Um aspecto particular em relação a esses dois monges é a grande quantidade de bicas d’água que, para os fiéis, tornavam-se bentas por ordem de “João Maria”. Machado sustenta que o fenômeno tem, também, uma explicação histórica: “Por volta de 1840, o Ministério do Império do Brasil estava conduzindo um programa oficial que consistia na elaboração de um inventário das águas do país, inclusive das nascentes e bicas. Como nem o governo imperial nem os presidentes de províncias tinham pessoal para ajudar no registro e na preservação dessas fontes, algumas delas ficaram sob a responsabilidade de João Maria D’Agostini, entre outros motivos, porque ele estava em contato direto com as pessoas que utilizavam essas águas”, conta.

Pioneiro

João Maria D’Agostini é o único a quem se atribui, com certeza, a designação de monge. Natural do Piemonte – antes da unificação da Itália – ele ingressou, ainda na juventude, num seminário de Roma. No entanto, antes mesmo de ser ordenado padre, saiu peregrinando pelo mundo como um andarilho. Depois das passagens pela França e pela Espanha – tendo percorrido, inclusive, o Caminho de Santiago de Compostela – ele atravessou o Atlântico. Uma vez na América, passou por Venezuela, Colômbia, Equador e Peru antes de descer o Rio Amazonas, que o trouxe ao Brasil.

Profusão de águas e milagres

O Paraná ainda foi “agraciado” com a vinda de um segundo monge, João Maria de Jesus – na verdade, Anastás Marcaf. Sírio de origem e de ascendência grega, ele chegou ao Brasil vindo da Argentina em 1886. De fala “acastelhanada”, trilhou caminho parecido com o de D’Agostini, abençoando diversas fontes de água.

Uma das paradas de Marcaf foi a cidade de Ponta Grossa (Campos Gerais), nos primeiros anos da década de 1900. Sua passagem pelo município é tão misteriosa quanto as histórias que se contam sobre ele. Alguns desses relatos foram registrados pela historiadora ponta-grossense Maria de Lourdes Osternack Pedroso, a Lurdinha, no livro De como aconteceu, de 1999.

Na obra, ela mistura os dados históricos oficiais às próprias memórias da infância e das pessoas com quem conversou. Uma das lendas resgatadas por Lurdinha dá conta de que, passando pelo Centro de Ponta Grossa, João Maria de Jesus teria despertado a atenção de meninos que brincavam na rua. Eles teriam apedrejado o monge que, sereno, rogou uma praga: “Cidade mal-educada, as pedras que agora me ferem, um dia, voltarão multiplicadas sobre vocês”. “O fato é que, na noite de 11 de setembro de 1906, uma chuva de pedras intensa caiu na cidade, destelhando ou mesmo destruindo várias casas”, conta a historiadora.

Segundo ela, o monge teria sido visto pela primeira vez na cidade acampando ao lado de um olho d’água. O local existe até hoje, no bairro Uvaranas, e ainda recebe fiéis. Mesmo pertencendo à prefeitura, está entregue à ação do tempo. Dona Palmira de Oliveira, de 64 anos, cuida do local há quase 20 anos, sem nenhuma ajuda.

Ela relata que presenciou três aparições de João Maria de Jesus. “Ele apareceu para mim, uma vez, e fez sumir o único pão e o único ovo que eu tinha em casa. Daí ele disse: ‘Calma, minha filha. Você vai ter uma surpresa ainda hoje’. No mesmo dia, parou uma Kombi com 35 sacolões de comida e um outro carro com roupas. Eu dividi tudo com as pessoas que moram aqui perto”, diz. “Isso aconteceu há 19 anos. Tenho muita fé nele”, afirma.

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