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Os ossos do Barão

O corpo de Ildefonso Pereira Correia foi resgatado um ano depois do seu fuzilamento na Serra do Mar. O resgate foi uma verdadeira saga: às escondidas, dez homens gastaram 13 dias para pegar o cadáver e levá-lo ao Cemitério Municipal de Curitiba

  • Pollianna Milan
Mausoléu do Barão do Serro Azul no Cemitério Municipal: há dúvidas se ele foi enterrado exatamente ali |
Mausoléu do Barão do Serro Azul no Cemitério Municipal: há dúvidas se ele foi enterrado exatamente ali
 
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Os ossos do Barão

Uma passada rápida pelo Ce­­mitério Municipal de Curitiba dá uma ideia de como a história da morte e sepultamento de Ildefonso Pereira Correia, o Barão do Serro Azul, ainda é confusa. Há quem diga que ele não está enterrado ali e que o mausoléu é apenas uma homenagem, mas que não guarda nem os ossos do barão. Outros comentam que o corpo teria sido levado ao Rio de Janeiro ou ainda ficou abandonado na Serra do Mar, onde ele foi morto. A verdade, escondida durante anos por motivos políticos, está estampada em um documento escrito pelo coronel Luiz Victorino Ordine, em 1913. Ele foi o responsável por en­­ter­rar o barão duas vezes. Coronel Ordine narra como conseguiu colocar clandestinamente o corpo do barão em uma das tumbas do cemitério municipal. Os ossos estão na quadra de número 4.543.O Barão do Serro Azul e outros cinco homens foram fuzilados no quilômetro 65 da Serra do Mar na noite de 20 de maio de 1894. Passados cinco dias, o coronel Ordine, junto com seis homens, foi ao local para dar ao menos um enterro digno a eles. Os corpos já haviam sido mexidos, estavam sem joias e alguns, inclusive, sem sapatos. Ordine narra que havia vestígios, no corpo do barão, de dois tiros: um na coxa da perna direita e outro no olho. Depois de feito o reconhecimento dos seis mortos, foram enterrados na serra em posições diferentes, já se pensando em uma chance de levar o corpo do barão para um sepultamento mais respeitoso, junto com o corpo do negociante Presciliano Corrêa (que era amigo do barão). Ambos ficaram à direita dos trilhos do trem. O primeiro termo de inumação foi lavrado no dia 25 de maio de 1894.

O assunto, a partir de então, foi abafado na sociedade paranaense. O governador da época, Francisco Xavier da Silva, estava doente e quem havia assumido o cargo era Vicente Machado. “Os políticos fizeram de tudo para que a morte do barão fosse esquecida. Por 40 anos o caso era tido como inexistente porque de 1908 a 1930 há um único partido no Paraná que domina o cenário político sem oposição (e é uma continuidade dos grupos anteriores). E embora ainda não se possa afirmar efetivamente a culpa de Vicente Machado pelos fuzilamentos, explica-se que o rompimento existira entre ele e o Barão do Serro Azul”, afirma a cientista política Mônica Helena Harrich Silva Goulart, que encontrou os documentos sobre a morte do barão durante a pesquisa de doutorado, em livros do Museu Paranaense e em cinco publicações de 1924 na Gazeta do Po­­vo. “Pena que não há dados so­­bre a repercussão das matérias publicadas no jornal. Foi o único veículo que se manifestou no período sobre o caso”, diz.

Um ano depois da morte do barão (1895), a baronesa do Serro Azul, ainda inconformada com tudo o que havia ocorrido, desabafa a David Car­neiro o sonho de poder enterrar o barão próximo da família e dar a ele um sepultamento melhor. Carneiro recorre ao coronel Ordine para ver a possibilidade de trazer Idelfonso novamente à capital paranaense. Am­­bos falam com o comandante do distrito militar e com o chefe da polícia do estado – os oficiais dizem não saber do fuzilamento, por isso não percebem problemas no resgate do corpo. Então, Carneiro e Ordine pedem autorização ao diretor da Estrada de Ferro, Gastão Serjat, para liberar os cadáveres e emprestar um vagão de trem que pudesse levar os caixões e depois trazer ao menos dois corpos: o do barão e o de Presciliano. “Fomos esbarrar na má vontade incompreensível do Sr. Serjat, que disse não admitir que retirassem cadáveres de dentro de suas propriedades”, descreveu Ordine em documento de 1913.

Não havia outra saída, a não ser roubar os corpos. Ordine voltou a São José dos Pinhais, onde morava e mais tarde foi eleito prefeito, para organizar o resgate. Pediu ajuda ao caboclo Joaquim Franco – conhecedor da Serra do Mar – para abrir picada para que a expedição (que levou o nome de Amizade) pudesse chegar ao local onde estavam os mortos. O caboclo conseguiu fazer boa parte do trabalho, mas morreu picado por uma cobra poucos quilômetros antes de terminar o serviço.

Os filhos do caboclo assumiram o caso e entregaram o “no­vo” caminho para Ordine. O coro­nel comprou dois caixões e os guardou na Serraria da Ro­­seira. Convocou dez homens pa­­ra a expedição que era arriscada não só por causa da natureza desconhecida, mas também pela probabilidade de perseguições e represálias (de políticos) na época.

Os homens partiram dia 2 de maio de 1895 e voltaram com o corpo do barão no dia 6. Presci­liano foi resgatado depois porque era muito grande (segundo documento da época). Os dois corpos foram levados ao cemitério apenas no dia 15, por volta das 19 horas. Chegaram a Curitiba escondidos em meio a 400 aduelas (filetes de madeira) com capim por cima. David Carneiro soube que os corpos iriam ao cemitério após receber o telegrama “Segue erva, prepare os sacos”, que significava “seguem os corpos e prepare as sepulturas.”

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