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As raízes culturais do brasileiro garantem bagagem suficiente para que idosos sejam tratados de forma digna e respeitosa. Negros, índios, europeus, árabes e orientais, responsáveis por grande parte da miscigenação da população do país, veem em seus velhos oráculos de sabedoria e, culturalmente, dedicam a eles todas as honras.

Mas, na sociedade contemporânea, de maneira geral, o idoso não goza do mesmo prestígio. Um estatuto precisa garantir os direitos dos maiores de 60 anos, nem sempre respeitados pela família ou pelo próprio poder público. Abandono, violência, previdência precária, falta de assistência médica de qualidade e mesmo desrespeito dentro de casa são situações comuns. "A forma como idosos são tratados depende da estrutura familiar, do Estado, da demografia e até de aspectos econômicos", aponta o historiador Sérgio Nadalin.

A transição demográfica que o mundo viveu a partir da segunda metade do século 18 – e que no Brasil ficou mais evidente nos últimos anos – pode ser uma das explicações para essa mudança no comportamento das famílias e da sociedade em relação aos idosos. "Antes, o velho era considerado um sobrevivente. E tinha o olhar de admiração dos mais jovens justamente por isso. A longevidade e a queda da fecundidade mudaram o cenário demográfico. Ficar velho é comum. E ainda gera custos para o sistema, tanto médico como previdenciário", aponta.

A mudança do perfil social, hoje mais capitalista e baseado no individualismo, também afetou as relações familiares. "Hoje em dia tudo é imediato. A sociedade, em geral, não sabe o que fazer com algo não produtivo e que demanda tempo, como a infância e a velhice. São períodos que custam a passar e que, por isso mesmo, exigem mais atenção e investimento", observa a antropóloga Selma Batista. Para a professora, há muito descaso em relação à vida de maneira geral, nas duas extremidades. "Jovens morrem pela violência, crianças e idosos são tidos como empecilhos. Ninguém pensa na contribuição que aquele cidadão deu para a história, qual foi a sua trajetória de vida. O que vale hoje é a informação imediata, instantânea. Precisamos definir qual sabedoria queremos preservar."

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