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Memória

Periferia quer contar sua história

O bairro Sítio Cercado é o primeiro do Paraná que vai ter o Museu da Periferia, uma nova modalidade de museu que surgiu em 2003 no Brasil

  • Pollianna Milan
O Sítio Cercado em sua origem: bairro começou em um sítio de 175 alqueires que foi sendo vendido e loteado ao longo dos anos. Os habitantes mais antigos agora levantam a história que será contada pelo Museu da Periferia |
O Sítio Cercado em sua origem: bairro começou em um sítio de 175 alqueires que foi sendo vendido e loteado ao longo dos anos. Os habitantes mais antigos agora levantam a história que será contada pelo Museu da Periferia
 
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Periferia quer contar sua história

Nos últimos 30 anos, o Sítio Cercado viu sua população inchar de 8 mil para 180 mil habitantes. Com tanta gente nova chegando, a história do bairro poderia ir literalmente pelo ralo, não fosse a iniciativa do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) e dos moradores antigos da região. Mãos à obra, em 2009 os poucos viventes antigos que circulam pelas ruas da região Sul de Curitiba começaram a colocar em prática uma ideia mirabolante que até então parecia não ter pés nem cabeça. Começaram a juntar fotos velhas e relatos de quem viu o bairro crescer. O resultado deve ser visto em breve: o Sítio vai ter sua história contada em museu e possibilitar que pessoas como Vera e Deusita, antes desconhecidas, virem personalidades do Brasil.

O projeto do Ibram de criar os Museus da Periferia surgiu em 2003 e começou com unidades no Rio de Janeiro, nas favelas da Maré e do Cantagalo. “É um novo conceito de museu que surge no Brasil, chamado de museu social, onde o direito à memória se faz presente em comunidades populares que tenham níveis de vulnerabilidade social, mas que por outro lado apresentem este desenho de cuidar da memória”, explica o diretor do Departamento de Processos Museais do Ibram, Mário Chagas. O projeto é simples. Os moradores colhem todas as informações e registros possíveis, juntam tudo e, se conseguirem, criam uma sede para abrigar a papelada. O lugar é aberto ao público e tem ainda salas para expor o que a comunidade local produz, em termos de arte, e também abre espaço para artistas de fora.

O museu passa a receber visitantes, pode fazer visitas guiadas para quem quer conhecer a história do bairro e, de quebra, a comunidade se identifica com o local onde mora e valoriza o que antes era visto como algo vergonhoso. Bingo. O Museu da Periferia é o jogo invertido: não se valoriza mais apenas o museu que fica distante das pessoas e que não se preocupa com a história delas en­­quanto estão vivas. “A comunidade, quando se apropria da própria memória, percebe que pode construir um futuro diferente. É a memória usada como terapia social, que amplia a dignidade e a coesão social”, diz Chagas.

Não por acaso, a criação do Museu da Periferia tem apoio do Ministério da Justiça, por meio do Programa Nacional de Segurança com Cidadania (Pronasci) e acontece atualmente em 11 capitais brasileiras: além de Curitiba, já existe no Rio de Janeiro e está em fase de implantação também nas cidades de Belo Horizonte, Brasília, Belém, Fortaleza, Maceió, Porto Alegre, Recife, Salvador e São Paulo. Na capital paranaense, ainda não se sabe quando o Museu vai abrir oficialmente porque os moradores estão em busca de uma sede. Por enquanto, já é possível acessar a história pela internet (www.mupesitiocercado.wordpress.com).

Como era?

A origem do bairro está em um sítio de 175 alqueires que era cercado pelas águas dos arroios da Padilha, Cercado e Boa Vista. Daí o nome. A senhora Deusita, 89 anos, é uma das herdeiras das terras de seu pai, Isaac Ferreira da Cruz (que dá nome à principal rua da região), e atualmente a única que permanece vivendo na região desde os tempos mais antigos (ela é a sucessora da família dona do sítio). O resto das terras foi aos poucos sendo vendido e loteado, desde 1946.

Com a presença dos loteamentos, principalmente na década de 70, a história de Vera se mistura à de Deusita. Vera Lucia Soares Peres chegou ao bairro em cima de um caminhão, por volta da meia-noite do dia 23 de agosto de 1991. Ela saiu do Xaxim, depois de não conseguir mais pagar o aluguel, se juntou ao movimento pela moradia e chegou ao Sítio Cercado com o intuito de negociar um terreno com a prefeitura. “Naquela época não existia uma boa política para quem quisesse comprar um terreninho para construir. Acaba­mos ocupando as terras. Éramos cerca de 300 famílias. Houve conflito, brigas, mas tudo passou. Antes não tinha vontade de ficar em casa, hoje tenho o Sítio Cercado como o lugar onde nasci”, diz.

Deusita viu Vera chegando de caminhão com seu comboio e todos os outros atuais 180 mil habitantes que chegaram. O Sítio, hoje, já está pequeno para tanta gente.

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