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Victor Burko e Rasca Rodrigues: Polícia Federal diz que há elementos suficientes para indiciá-los | Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo
Victor Burko e Rasca Rodrigues: Polícia Federal diz que há elementos suficientes para indiciá-los| Foto: Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo

Trecho de conversa gravada pela Polícia Federal entre o funcionário do Tribu­nal de Contas Sérgio Buzato e o empresário Márcio Rodrigues:

Buzato – "Temos que regularizar este negócio [multa] pra você poder colocar nota nos passarinhos que você vende."

Rodrigues – "Se não, estou na cadeia."

Buzato – "Cada dia um preso por causa de passarinho e você lá com um bilhão de passarinho."

Rodrigues – "Vamos ver se ajeitamos isso, né?"

Buzato – "Te prometo que amanhã chego cedo no Tribunal e já vou ligar para o Burko, para o Rasca, vamos ver se mandamos arquivar de vez esta m..."

Rasca nega irregularidades; Burko critica ação policial

Procurado pela reportagem, o ex-presidente do Instituto Ambiental do Paraná, Victor Hugo Burko, considerou a prisão dos funcionários do IAP e a citação de seu nome nas escutas telefônicas da Polícia Federal "uma piada, uma brincadeira de mau gosto".

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Grupo mantinha superestrutura em chácara para manter as aves em cativeiro

Dez mil aves foram apreendidas na Ope­ração São Francisco, deflagrada na quarta-feira em várias cidades do Paraná, em São Paulo e em Santa Catarina. Segundo a polícia, o grupo contava com uma superestrutura para o tráfico. Na chácara de Márcio Rodrigues havia 63 viveiros externos prontos e mais 51 em construção, além de centenas de gaiolas organizadas dentro de construções de alvenaria, climatizadas. Investimento em estrutura estimado em R$ 5 milhões e mais aves avaliadas em R$ 3 milhões.

O grupo também gastava muito dinheiro com teste de DNA, viagens internacionais e pagamento de "mu­­las" – pessoas que concordavam em fazer o transporte ilegal. Os envolvidos profissionalizaram o tráfico para não perder animais ou danificar a plumagem dos pássaros. Algumas aves bebiam água em tigelas de pra­­ta, para evitar contaminações. Segundo o Ibama, os criadores não tinham autorização ambiental para manter ou comercializar os pássaros.

Ponta Grossa - A operação da Polícia Federal que prendeu 34 pessoas na quarta-feira acusadas de manter um comércio ilegal de animais também encontrou fortes indícios de tráfico de influência com a participação de funcionários públicos do Paraná. As descobertas surgiram a partir de escutas telefônicas realizadas com autorização judicial. Nas gravações, os nomes do ex-secretário estadual de Meio Ambiente, Rasca Rodrigues, e do ex-presidente do Instituto Ambiental do Paraná (IAP), Victor Hugo Burko, são citados em um suposto esquema para forçar o arquivamento de uma multa ambiental. Ambos ocupavam os cargos até o fim de março. Segundo o delegado Rubens Lopes da Silva, responsável pela investigação na PF, eles serão indiciados.

O susposto acerto teria sido feito para favorecer o empresário Márcio Rodrigues, considerado pela PF como o principal traficante de aves do Brasil e dono de um viveiro em São José dos Pinhais, na Grande Curitiba. Em 2009, Rodri­gues foi autuado em R$ 203 mil por posse de animais estrangeiros não legalizados. Segundo a PF, o empresário começou a buscar formas de anular a multa. Para isso teria contado com a ajuda de Sérgio Buzato, funcionário do Tribunal de Contas (TC) do Estado, preso na operação. Conversas gravadas revelam que, a partir daí, vários funcionários públicos foram acionados para forçar o arquivamento da multa.

De acordo com a PF, Buzato diz nos telefonemas que vai usar sua influência e até mesmo troca de favores para arquivar a multa. Ele fala que alguns dos citados dependem dele para a aprovação de contas no TC. Uma das principais conversas envolve o então comandante da Força Verde, coronel Sérgio Filardo, outro detido pela PF. Buzato diz a Rodrigues que negociou com Filardo para intermediar a questão da multa usando como argumento o fato de que uma licitação de combustíveis da Polícia Militar estava com problemas no Tribunal. Em uma ligação de Filardo para Buzato, eles acertam um encontro no TC para acertar pendências. O pedido de prisão de Buzato alega que ele chantageava pessoas em troca de facilidades na aprovação de contas públicas pelo Tribu­nal. "Se esses caras não me ajudarem, vão ajudar quem? Esses caras dependem de mim pra aprovação de contas", disse Buzato em gravação telefônica.

Em conversa com Márcio Rodrigues, Buzato diz que Rasca teria pedido, em troca, 300 votos no Clube do Curió para ajudar a anular a multa. Rodrigues responde que arranja 100 votos e mais 500 quilos de costela. Rasca saiu do cargo há três meses, para poder se candidatar na eleição para deputado estadual. A saída de Rasca e Burko é comentada várias vezes pela dupla, que reforça a necessidade de agilizar o arquivamento da multa antes que eles deixem os postos. O processo de autuação acabou sendo realmente arquivado.

O delegado Rubens Silva diz não ter dúvidas do envolvimento de Rasca e Burko na suspensão da multa e afirma que o que já foi apurado é suficiente para indiciar ambos no inquérito. Segundo Silva, eles continuam sendo investigados e serão chamados para de­­por. A PF tenta recolher mais informações para reforçar a acusação.

Também teriam participado da negociação para o fim da multa o responsável pelo setor de fiscalização e licenciamento ambiental do IAP, Harry Teles, e o fiscal Jackson Vosgerau. Eles teriam sido acionados por Buzato para dar parecer favorável ao arquivamento. Ambos estão presos.

Sindicância

O IAP informou que uma sindicância foi aberta para apurar o envolvimento dos funcionários. Teles foi exonerado do cargo de chefia. O TC não vai se pronunciar sobre o caso. A assessoria da Justiça Federal informou que o órgão recebeu vários pedidos de relaxamento de prisão ontem, mas a apreciação será feita hoje. Como o caso corre em segredo de Justiça, não foram informados os nomes dos advogados dos detidos para que a reportagem pudesse entrar em contato.

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