
Os boatos corriam soltos. Era dia 27 de março de 1965 e o presidente Castello Branco estava em Foz do Iguaçu, no Oeste do estado, para inaugurar a Ponte Internacional da Amizade, que ligaria o município à Ciudad del Este, no Paraguai, cruzando o Rio Paraná. Naquela data, quase um ano após o Regime Militar ter se instaurado no Brasil, a notícia de que guerrilheiros armados chegariam a qualquer momento para dinamitar a ponte se espalhou como um vírus, e o clima na fronteira ficou pesado. Autoridades como o então presidente paraguaio, Alfredo Stroessner, e o brasileiro, Castello Branco, que participariam da inauguração da ponte, não poderiam correr riscos.
O Exército enviou 5 mil homens à região. Do outro lado, a "guerrilha fortemente armada" tinha como líder o coronel Jefferson Cardim de Alencar Osório, que não concordava com a ditadura instaurada no Brasil. Ao lado dele, lutavam apenas 23 homens. Era um grupo de candidatos a uma guerrilha que já nascia fracassada, com poucas armas, sem treinamento nem recursos. Registros que constam no livro recém-lançado A CIA e a Quartelada, de Milton Ivan Heller, apontam que a única arma potente que os "rebeldes" possuíam era uma metralhadora sem munição.
"Essa acusação de que os guerrilheiros iriam destruir a ponte foi a versão oficial dos militares, que não refletia a realidade", sentencia Heller. Em Capitão Leônidas Marques, no Oeste, os guerrilheiros se impressionaram ao ver jipes, caminhões e soldados surgirem de todos os lados. Em uma epopeia quixotesca, Cardim e sua tropa tentaram uma emboscada contra os soldados. O encontro se deu no vilarejo de Santa Lúcia, nas proximidades daquele município. A ação culminou em tiroteio. Foram 20 minutos de combate. Atingido por uma rajada de metralhadora, que só os homens das Forças Armadas possuíam, o terceiro-sargento da Companhia de Infantaria de Francisco Beltrão, Carlos Argemiro Camargo, foi morto. Apesar disso, prevaleceu a versão de que os guerrilheiros haviam matado o sargento. Isso impediu que eles pudessem ser anistiados em 1979, pois haviam cometido "crime de sangue".
Captura
Após a morte de Camargo, o Exército seguiu atrás dos rebeldes. Cardim, que organizou a primeira resistência armada contra o regime, até conseguiu escapar, porém acabou capturado por uma patrulha enquanto se abrigava na casa de um colono. Os militares cuspiram na cara de Cardim, o ameaçaram de fuzilamento incontáveis vezes, espetaram seu corpo com garfos, pisaram em sua cabeça. A tortura psicológica atingiu em cheio o coronel rebelde, que pensou em aceitar o fuzilamento como única saída. Ficou por um mês no quartel de Foz e depois foi transferido para o 5.º Regimento de Obuses, no bairro Boqueirão, em Curitiba.
Condenado a oito anos de prisão, teve a pena aumentada em dois anos pelo Supremo Tribunal Militar. A morte do sargento Camargo contribuiu para essa decisão. A defesa de Cardim exigiu o documento da perícia balística da autópsia do sargento, mas o relatório estranhamente desapareceu durante o processo de julgamento.
Lideranças católicas subversivas
O livro de Milton Heller também narra detalhes sobre lideranças da Igreja Católica que lutaram pelo fim do regime militar em todo o país. Ele destaca, porém, que as opiniões contrárias só foram externadas em 1973 nove anos depois da instauração da ditadura.
"Os setores que chegaram a ajudar algumas lideranças que lutavam contra o regime eram pertencentes à Teologia da Libertação. [Os militares no poder] diziam que os padres eram marxistas", afirma. Heller conta também que alguns desses padres chegaram a ser expulsos do país. "Não havia como concordarem com um regime que realizava torturas animalescas", define o jornalista.
Advogados
Outro órgão que tardou a tomar posicionamento contrário ao regime, segundo Heller, foi a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). "A OAB silenciou até 1975 como instituição. Ainda bem que existiam advogados antes mesmo dessa época que defendiam gratuitamente quem era julgado pela Ditadura", comenta.








