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Ciência

Ponte entre a academia e a indústria nacional

Documento produzido pela Sociedade Brasileira de Física aponta caminhos para introduzir mais profissionais da área no setor de inovação tecnológica

Alexandre Urbano e Jair Scarminio: estudo pioneiro mostra que baterias usadas podem ter vida útil prolongada em 80% | Roberto Custódio / Gazeta do Povo
Alexandre Urbano e Jair Scarminio: estudo pioneiro mostra que baterias usadas podem ter vida útil prolongada em 80% (Foto: Roberto Custódio / Gazeta do Povo)

Há alguns anos, o governo brasileiro tenta estimular na indústria nacional a alta tecnologia e a inovação. Uma alternativa que pode alavancar esse estímulo foi apresentada pela comunidade científica. Pesquisadores pretendem mostrar que a física pode contribuir para o desenvolvimento tecnológico e, com isso, aumentar a competitividade do setor industrial do país.

Um relatório produzido pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), a pedido da Sociedade Brasileira de Física (SBF), pode dar início à ponte sobre o abismo que existe entre a academia e a indústria no Brasil. O documento "A Física e o desenvolvimento nacional" traz um censo detalhado, que retrata a situação dos físicos no país e mostra que há espaço para a expansão da presença de cientistas dentro das grandes empresas. De acordo com o documento, dos 2.651 graduados em Física com mestrado ou doutorado e emprego formal no Brasil (segundo dados de 2009), apenas 270 exerciam atividades nas áreas de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I).

O Paraná é o 4º estado com maior número de físicos pós-graduados e empregados no Brasil. São 183 mestres e doutores com emprego formal no estado. "O número de físicos envolvidos com empresas no Brasil é pequeno se comparado com países mais desenvolvidos", compara Eduardo do Couto e Silva, físico do CGEE e coordenador do relatório. No entanto, ele ressalta que não existe um número ideal. "É preciso avaliar o valor agregado que a presença do físico traz para o setor produtivo", pondera.

O relatório feito pela SBF com base no mapeamento apresenta um diagnóstico dos desafios e as soluções para estimular uma interação efetiva entre os dois setores. "O físico pode contribuir porque trabalha com desafios e tem capacidade para resolver problemas complexos, criando novas técnicas. Essa é uma característica muito interessante para as empresas" explica Silva.

Para o professor Jair Scarminio, diretor da Agência de Inovação Tecnológica (Aintec) da Universidade Estadual de Londrina (UEL), a formação do profissional de física tem grande importância diante do desafio da interação com as empresas. "Um físico teórico que trabalha com física quântica, por exemplo, pode não ser o mais adequado para a área industrial", avalia. "Já o físico experimental tem a bagagem que traz do laboratório", contrapõe. De acordo com o relatório, há uma equivalência entre o número de físicos teóricos e experimentais – 35% do total nos dois casos. Outros 26% se dedicam ao ensino e os 4% restantes exercem atividades de gestão.

Formação acadêmica

Scarminio aponta a formação atualmente oferecida pelos cursos de Física como um dos grandes desafios para a aproximação com as empresas. "Ainda não conseguimos implantar no Brasil uma formação que prepare o físico para a indústria, ainda que por meio de cursos complementares", afirma. Segundo ele, geralmente os cursos habilitam os alunos para seguirem a área acadêmica.

Para promover essa aproximação, o relatório da SBF recomenda, entre outras medidas, o estímulo à criação de centros de excelência em parceria com as empresas, a criação de um observatório de física para a inovação e a autoavaliação da física brasileira a cada cinco ou dez anos, para subsidiar um planejamento estratégico.

Projeto de físicos restaura potencial de baterias usadas

Um exemplo claro de como o trabalho do físico pode ser importante dentro de uma empresa é a atuação dos pesquisadores Jair Scarminio e Alexandre Urbano, da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Com um estudo pioneiro no país, eles pretendem desenvolver um processo de reciclagem elétrica de baterias de celular.

A Sercomtel, empresa de telefonia que recolhe as baterias descartadas pelos usuários, apoia o projeto. Com esse trabalho, a companhia pode atender às suas necessidades econômicas e socioambientais. Entre os resultados já alcançados, o estudo mostrou que muitas baterias usadas podem ter sua vida útil prolongada em 80% e, dependendo das condições a que foram submetidas, operar por mais um ou dois anos.

O resultado mais promissor do estudo é o aparelho desenvolvido para restaurar a potencialidade da bateria usada. "Com esse equipamento, conseguimos saber qual é a capacidade de carga da bateria usada. Muitas são descartadas com capacidade muito boa", conta Scarminio. Agora, o estudo está focado na reutilização do material em diferentes processos, principalmente na fabricação de novas baterias.

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