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Prevenção ainda é o melhor negócio

Na avaliação de especialistas, priorizar o atendimento básico é crucial para reduzir os atendimentos de urgência e emergência. Segundo Álvaro Quintas, diretor-geral da área de saúde do Grupo Marista – que administra o Hospital Cajuru –, a prevenção básica reduz índices de incidências mais graves, como os de infarto. "Para isso, precisamos de profissionais capacitados. Por isso, a educação continuada em parceria com universidades tende a ser uma das alternativas", aponta.

O professor de Medicina da Universidade Positivo e mestre em política e administração em saúde Marcelo Cosendey aponta que há uma correlação inversa entre as soluções na atenção básica e a frequência de casos considerados de urgências. "Há também que se destacar a importância das ações de educação em saúde feitas na atenção básica que acarretam mudanças comportamentais, prevenindo algumas situações de urgência".

Na visão deles, a ampliação do Samu é importante para conferir maior agilidade no atendimento, mas destacam outros pontos que precisam avançar. "Além da frota, há que se prever o investimento na rede de unidades intermediárias e hospitais voltados para o atendimento qualificado. Tão importante quanto a frota é um bom dimensionamento e financiamento do processo de seleção e aprimoramento das equipes do Samu de modo a garantir a qualidade do momento pré-hospitalar", ressalta Cosendey.

Quintas chama a atenção para a qualificação hospitalar. "Falta investimento em hospitais para dar atendimento adequado a essas pessoas. A central de leito tende a melhorar isso, mas carece de tecnologia capaz de gerenciar a ocupação dos leitos", salienta.

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Na prática

Principais diretrizes do plano de governo para a saúde básica

Ter equipe de atenção primária de referência para 100% da população;

Estabelecimento de parâmetros de tempo-resposta para os atendimentos;

Definição de um modelo de atenção por casos, com prioridade para os cardiovasculares, cerebrovasculares e traumatismos;

Adoção de planos de manejo de desastres e catástrofes;

Implantação de Programa de Educação Permanente para as equipes de saúde

Fonte: Sesa

O Paraná elabora um plano para desafogar o gargalo que toma conta do atendimento de urgência e emergência. A rede "Paraná Urgência", da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), deve ser lançada em abril. O programa promete medidas para qualificar e expandir o atendimento em todo o estado. Uma das ações é oferecer tratamento primário de saúde a 100% da população. Os Serviços de Atendimento Móvel de Urgência (Samus) também serão ampliados, com a criação de cinco novos Samus regionais. Além disso, serão implantadas centrais de leitos descentralizadas que em tese ajudarão a reduzir as filas de espera. Ainda não existe um prazo para que todas as ações saiam do papel.

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Segundo o diretor de Políticas de Urgência e Emergência da Sesa, Vinícius Filipak, o objetivo é que o paciente receba atendimento adequado nas 399 cidades do estado. "A gente percebe que o atendimento não é igual para todas as regiões. Queremos torná-lo mais homogêneo. Tem que ser um programa perene. Não podemos depender de um ou dois governos para poder estruturar toda a rede", ressalta.

Algumas cidades paranaenses não contam com atendimento primário capaz de atender a 100% da população. "Há municípios que não possuem postos capazes de atender a toda população, com coberturas que chegam a 60%, por exemplo. O atendimento básico é o primeiro passo para garantir que casos de urgência de menor complexidade possam ser tratados em unidades básicas".

Samu

Outro ponto é ampliar a cobertura do Samu. Segundo Filipak, o Paraná implantou sete Samus regionais, atendendo a 64% da população. Até o final do ano serão 12 Samus regionais (veja infográfico) que, integrados, poderão atender a todo o estado. "A frota das ambulâncias será descentralizada para atender municípios que hoje não estão cobertos pelo serviço", explica. O governo do estado possui R$ 33,9 milhões para investimento em equipamentos e veículos, mas ainda não foi definido o número de ambulâncias que serão compradas. O Serviço Integrado de Atendimento ao Trauma em Emergência (Siate) terá 60 novas ambulâncias, somadas às 78 já existentes.

Déficit

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Segundo dados do Ministério da Saúde, o estado possui hoje 2.242 leitos de UTI – sendo 1.327 destinados ao Sistema Único de Saúde. A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que haja 330 leitos para cada grupo de 1 milhão de pessoas. O Paraná precisaria de um total de 3.490 leitos de UTI. O déficit é de aproximadamente 1,2 mil. "Nossa intenção é podermos construir mais leitos de UTI no estado, com equipes e equipamentos. A carência existe e precisa ser suprida", afirma Filipak. Além disso, 50 hospitais públicos ou filantrópicos do estado serão qualificados para atendimento da rede de urgência.

Central de leitos

Para controlar a entrada dos pacientes, o estado prevê a criação de quatro centrais de leitos macrorregionais - em Londrina, Maringá, Cascavel e Curitiba. "A ideia é gerenciar a demanda e diminuir o tempo de espera para o atendimento, priorizando os casos mais graves", revela o diretor Vinícius Filipak, da Sesa. Ele diz que a central está em fase de implantação na capital e o plano é expandir para o restante do estado até o final desse ano. E informa que o Paraná contabiliza 10 Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) 24 horas habilitadas pelo Ministério da Saúde e outras 51 em andamento.

Entrevista"100% é possível", diz analista de setor

Pesquisador da área de política e administração em saúde, Marcelo Cosendey destaca a importância da excelência no pronto atendimento para que haja avanços em todo o sistema hospitalar.

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É viável colocar as medidas do Paraná Urgência em prática em todo o estado – como a de garantir equipe suficiente para atender 100% da população no Paraná na atenção primária de saúde?

Sim. Desde que haja uma clareza da importância do programa por parte dos gestores e sua dedicação ao processo de viabilização de recursos necessários.

Ter mais leitos de UTIs é fundamental para o tratamento de urgência e emergência?

Sim. Mas o número de leitos de UTI está relacionado à frequência de casos mais graves das urgências-emergências em uma série histórica, em uma determinada população. Esses leitos devem ser muito bem dimensionados, serem providos com a melhor tecnologia possível, bem como serem atendidos por equipes multidisciplinares com alta qualificação.

A estruturação de hospitais e Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) são mecanismos indispensáveis para esse setor?

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Com certeza. Aqui nos referimos ao conceito de hierarquização, que também se aplica às redes de urgência e emergência. Um bom dimensionamento da capacidade de resposta nas Unidades de Pronto Atendimento e a qualificação de sua equipe poderá reduzir a necessidade de leitos hospitalares voltados para o atendimento das urgências-emergências. Muitos casos de urgência poderão ser resolvidos nas UPAs desafogando os hospitais com essa demanda. Por outro lado, hospitais bem dimensionados, equipados e com equipes de qualidade diminuem a necessidade de leitos de UTI.

Marcelo Cosendey, professor de Medicina na Universidade Positivo