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Como combater a teoria racial crítica
Teoria que prega o antirracismo a partir do viés marxista e almeja o fim do capitalismo se alastra por instituições públicas, empresas e escolas dos Estados Unidos| Foto: Michael Goderre / Boston Children's

A teoria racial crítica está rapidamente se tornando a nova ortodoxia institucional da América. No entanto, a maioria dos americanos nunca ouviu falar dela – e daqueles que já ouviram, muitos não entendem. Isso precisa mudar. Precisamos saber o que ela significa para, então, saber como combatê-la.

Para explicar a teoria racial crítica, vale a pena começar com uma breve história do marxismo. Originalmente, a esquerda marxista construiu seu programa político com base na teoria do conflito de classes. Karl Marx acreditava que a principal característica das sociedades industriais era o desequilíbrio de poder entre capitalistas e trabalhadores. A solução para esse desequilíbrio, segundo ele, era a revolução: os trabalhadores ganhariam consciência de sua situação, tomariam os meios de produção, derrubariam a classe capitalista e dariam início a uma nova sociedade socialista.

Durante o século XX, vários regimes passaram por revoluções ao estilo marxista e cada uma delas terminou em desastre. Os governos socialistas na União Soviética, China, Camboja, Cuba e outros lugares registraram uma contagem de corpos de quase 100 milhões de pessoas. Eles são lembrados por gulags, julgamentos, execuções e fome em massa. Na prática, as ideias de Marx desencadearam as brutalidades mais sombrias do homem.

Em meados da década de 1960, os intelectuais marxistas do Ocidente começaram a reconhecer essas falhas. Eles recuaram diante das revelações das atrocidades soviéticas e perceberam que as revoluções dos trabalhadores nunca ocorreriam na Europa Ocidental ou nos Estados Unidos, que tinham grandes classes médias e padrões de vida em rápida ascensão. Os americanos, em particular, nunca desenvolveram um senso de consciência de classe ou divisão de classes. A maioria deles acreditava no “sonho americano”: a ideia de que poderiam transcender suas origens por meio da educação, do trabalho árduo e da boa cidadania.

Mas, em vez de abandonarem seu projeto político, os intelectuais marxistas do Ocidente simplesmente adaptaram sua teoria revolucionária à agitação social e racial dos anos 1960. Abandonando a dialética econômica de Marx de capitalistas e trabalhadores, eles substituíram a classe por raça e buscaram criar uma coalizão revolucionária baseada em critérios raciais e étnicos.

Felizmente, os primeiros proponentes dessa coalizão revolucionária nos Estados Unidos perderam, na década de 1960, para o movimento pelos direitos civis, que buscava, em vez disso, o cumprimento da promessa americana de liberdade e igualdade perante a lei. Os americanos preferiram a ideia de melhorar seu país em vez de derrubá-lo. A visão de Martin Luther King Jr., a busca do presidente Lyndon Johnson pela Grande Sociedade e a restauração da lei e da ordem prometida pelo presidente Richard Nixon em sua campanha de 1968 definiram o consenso político americano pós-1960. Mas a esquerda radical provou ser resiliente e duradoura; e é aí que entra a teoria racial crítica.

A teoria racial crítica é uma disciplina acadêmica, formulada na década de 1990 e construída sobre a estrutura intelectual do marxismo baseado na identidade. Relegada por muitos anos a universidades e periódicos acadêmicos obscuros, ela se tornou cada vez mais a ideologia padrão em nossas instituições públicas na última década. 

Ela foi injetada em agências governamentais, redes públicas de ensino, programas de treinamento de professores e departamentos corporativos de recursos humanos na forma de treinamentos em diversidade, módulos de recursos humanos, estruturas de políticas públicas e currículos escolares.

Seus apoiadores usam uma série de eufemismos para descrever a teoria racial crítica, incluindo "equidade", "justiça social", "diversidade”, “inclusão" e "ensino culturalmente responsivo". Os teóricos críticos da raça, mestres da construção da linguagem, percebem que o “neomarxismo” seria difícil de vender. A “equidade”, por outro lado, não soa ameaçadora e é facilmente confundida com o princípio americano de igualdade.

Mas a distinção é vasta e importante. Na verdade, os teóricos raciais críticos rejeitam explicitamente a igualdade – o princípio proclamado na Declaração da Independência, defendido na Guerra Civil e codificado em lei com as 14ª e 15ª Emendas, o Civil Rights Act, de 1964, e o Voting Rights Act, de 1965. Para eles, a igualdade representa “mera não discriminação” e fornece “camuflagem” para a supremacia branca, o patriarcado e a opressão.

Em contraste com a igualdade, a equidade, conforme definida e promovida pelos teóricos críticos da raça, é pouco mais do que um marxismo reformulado. Em nome da equidade, a professora de direito da UCLA School of Law e teórica crítica da raça, Cheryl Harris, propôs suspender os direitos de propriedade privada, confiscar terras e riquezas e redistribuí-las segundo linhas raciais. O guru racial crítico Ibram X. Kendi, que dirige o Centro de Pesquisa Antirracista da Universidade de Boston, propôs a criação de um Departamento Federal de Antirracismo. Este departamento seria independente (ou seja, não prestaria contas) dos ramos eleitos do governo e teria o poder de anular, vetar ou abolir qualquer lei em qualquer nível governamental e restringir o discurso de líderes políticos e outros que possam ser considerados “insuficientemente antirracistas”.

Um resultado prático da criação de tal departamento seria a derrubada do capitalismo, uma vez que, de acordo com Kendi, “para ser verdadeiramente antirracista, você também deve ser verdadeiramente anti-capitalista”. Em outras palavras, a identidade é o meio; o marxismo é o fim.

Uma forma de governo baseada na equidade significaria o fim não apenas da propriedade privada, mas também dos direitos individuais, da igualdade perante a lei, do federalismo e da liberdade de expressão. Esses seriam substituídos por redistribuição de riqueza baseada em raça, direitos baseados em grupos, discriminação ativa e autoridade burocrática onipotente. Historicamente, a acusação de “antiamericanismo” foi exagerada. Mas, neste caso, não é uma questão de interpretação: a teoria racial crítica prescreve um programa revolucionário que derrubaria os princípios da Declaração e destruiria a estrutura remanescente da Constituição.

Teoria racial crítica na prática 

No ano passado, escrevi uma série de matérias focados na teoria racial crítica dentro do governo federal. O FBI estava realizando workshops sobre a teoria da interseccionalidade. O Departamento de Segurança Interna estava dizendo aos funcionários brancos que eles estavam cometendo “microiniquidades”, e estes foram “socializados quanto aos papéis de opressão”. O Departamento do Tesouro realizou uma sessão de treinamento dizendo aos funcionários que “virtualmente todos os brancos contribuem para o racismo” e que eles devem se converter ao “antirracismo”. Já o Sandia National Laboratories, que projeta o arsenal nuclear da América, enviou executivos brancos do sexo masculino para um campo de reeducação durante três dias, no qual foram informados que a "cultura masculina branca" era análoga à Ku Klux Klan (KKK), à "supremacia branca" e a "assassinatos em massa”.

Neste ano, produzi outra série de matérias, focadas na teoria racial crítica na educação. Em Cupertino, Califórnia, uma escola primária forçou os alunos da primeira série a desconstruir suas identidades raciais e sexuais e a se classificar de acordo com seu "poder e privilégio". Em Springfield, Missouri, uma escola de ensino médio forçou professores a se situarem em uma "matriz de opressão" com base na ideia de que homens cristãos heterossexuais, brancos e falantes de inglês são membros da classe opressora e devem expiar seu privilégio e "disfarçar sua supremacia branca". Na Filadélfia, uma escola primária obrigou alunos da quinta série a celebrar o “comunismo negro” e simular um comício para libertar a radical Angela Davis da prisão, onde ela havia sido detida sob a acusação de assassinato. E em Seattle, o distrito escolar disse aos professores brancos que eles são culpados de "assassinato espiritual" contra crianças negras e que devem "quebrar seus privilégios em reconhecimento de sua herança roubada".

Sou apenas um jornalista investigativo, mas desenvolvi um banco de dados com mais de mil dessas histórias. Quando digo que a teoria racial crítica está se tornando a ideologia operacional de nossas instituições públicas, não estou exagerando – das universidades às burocracias e aos sistemas escolares, essa ideologia permeou a inteligência coletiva e o processo de tomada de decisão do governo americano, sem nenhum sinal de desaceleração.

Essa é uma mudança revolucionária. Quando originalmente estabelecidas, essas instituições governamentais foram apresentadas como neutras, tecnocráticas e orientadas para percepções amplamente defendidas do bem público. Hoje, sob a influência crescente da teoria racial crítica e de ideologias relacionadas, eles estão se voltando contra o povo americano. Isso não se limita à burocracia permanente em Washington, mas vale também para as instituições estaduais – até mesmo nos estados vermelhos [republicanos]. Isso está se espalhando para departamentos de saúde pública, pequenos distritos escolares do meio-oeste e muito mais. Essa ideologia não vai parar até que tenha devorado todas as nossas instituições.

Até agora, as tentativas de impedir a invasão da teoria racial crítica foram ineficazes. Existem várias razões para isso. Primeiro, muitos americanos desenvolveram um medo agudo de falar sobre questões sociais e políticas, especialmente aquelas envolvendo raça.

De acordo com uma pesquisa recente da Gallup, 77% dos conservadores têm medo de compartilhar suas crenças políticas publicamente. Preocupados em serem atacados nas redes sociais, demitidos de seus empregos ou de sofrerem consequências ainda piores, eles permanecem calados, em grande parte cedendo ao debate público para aqueles que defendem essas ideologias antiamericanas. 

Consequentemente, as próprias instituições tornam-se monoculturas: dogmáticas, desconfiadas e hostis à diversidade de opiniões. Conservadores, tanto no governo federal quanto no sistema de escolas públicas, me disseram que seus departamentos de “equidade e inclusão” servem como cargos políticos, procurando e reprimindo qualquer dissidência da ortodoxia oficial.

Em segundo lugar, os teóricos raciais críticos construíram seus argumentos como uma ratoeira. O desacordo com o programa deles se torna uma evidência irrefutável da "fragilidade branca", do "preconceito inconsciente" ou da "supremacia branca internalizada" de um dissidente. Já vi essa projeção de falsa consciência em opositores acontecer dezenas de vezes em minhas reportagens. Os treinadores de diversidade farão uma afirmação ultrajante – como "todos os brancos são intrinsecamente opressores" ou "os professores brancos são culpados de assassinato espiritual de crianças negras" – e então, quando confrontados com discordâncias, adotam um tom condescendente e explicam aos participantes que estes estão “na defensiva” ou com raiva por reação à culpa e à vergonha. Os dissidentes, então, são instruídos a permanecer em silêncio e aceitar sua "cumplicidade na supremacia branca".

Terceiro, os americanos em todo o espectro político não conseguiram separar a premissa da teoria racial crítica de sua conclusão. Sua premissa (que a história americana inclui a escravidão e outras injustiças, e que devemos aprender com essa história) é inegável. Mas sua conclusão revolucionária – de que a América foi fundada e definida pelo racismo e que nossos princípios fundamentais, nossa Constituição e nosso modo de vida devem ser derrubados – não é correta.

Em quarto e último lugar, os escritores e ativistas que tiveram a coragem de falar contra a teoria racial crítica tenderam a abordá-la no nível teórico, apontando as contradições lógicas da teoria e o relato desonesto da história. Essas críticas são valiosas e boas, mas movem o debate para o reino acadêmico – terreno amigável para os proponentes dessa ideologia. Com isso, não conseguem forçar os teóricos raciais revolucionária a defenderem as consequências práticas de suas ideias.

Deixando de ser apenas uma questão acadêmica, a teoria racial crítica tornou-se uma ferramenta de poder político. Recorrendo a uma frase do teórico marxista Antonio Gramsci, ela está alcançando rapidamente a hegemonia cultural nas instituições públicas da América e está conduzindo a vasta máquina do estado e da sociedade. Se quisermos ter sucesso na oposição a ela, devemos abordá-la politicamente em todos os níveis.

Os teóricos raciais críticos devem ser confrontados e forçados a falar sobre os fatos. Eles apoiam escolas públicas que separam os alunos da primeira série em grupos de “opressores e oprimidos”? Eles apoiam o ensino obrigatório de que “todos os brancos desempenham um papel na perpetuação do racismo sistêmico”? Eles apoiam escolas públicas instruindo pais brancos a se tornarem “traidores brancos” e defendem a “abolição dos brancos”? Eles querem que aqueles que trabalham no governo sejam obrigados a passar por esse tipo de reeducação? E quanto aos trabalhadores da iniciativa privada da América? E quanto aos homens e mulheres em nossas forças armadas? E quanto a cada um de nós?

Existem três segmentos para uma estratégia bem-sucedida para derrotar as forças da teoria racial crítica: ação governamental, mobilização popular e apelo aos princípios.

Já vemos exemplos de ação governamental. No ano passado, uma de minhas matérias levou o presidente Trump a emitir uma ordem executiva proibindo programas de treinamento baseados em teoria racial no governo federal. O presidente Biden rescindiu essa ordem em seu primeiro dia de mandato, mas ela fornece um modelo a ser seguido por governadores e prefeitos. Neste ano, várias legislaturas estaduais apresentaram projetos de lei para atingir o mesmo objetivo: impedir que instituições públicas conduzam programas que estereotipem ou rebaixem as pessoas com base na raça. E eu organizei uma coalizão de advogados para abrir processos contra escolas e agências governamentais que impõem programas relacionados à teoria racial crítica com base na Primeira Emenda (que protege os cidadãos de discurso forçado) e na Décima Quarta Emenda (que fornece proteção igual perante a lei).

No nível de base, uma coalizão multirracial e bipartidária está surgindo para lutar contra a teoria racial crítica. Os pais estão se mobilizando contra os currículos racistas nas escolas públicas e os funcionários estão cada vez mais se manifestando contra a reeducação orwelliana no local de trabalho. Quando veem o que está acontecendo, os americanos ficam naturalmente indignados com o fato de a teoria racial crítica promover três ideias – essencialismo racial, culpa coletiva e neo-segregação – que violam os princípios básicos de igualdade e justiça. Curiosamente, muitos asiático-americanos me disseram que, tendo sobrevivido à Revolução Cultural chinesa, recusam-se a permitir que a mesma coisa aconteça aqui.

Em termos de princípios, precisamos empregar nossa própria linguagem moral em vez de nos permitirmos ser confinados pelos critérios da teoria racial crítica. Por exemplo, muitas vezes nos encontramos debatendo "diversidade". A diversidade, como a maioria de nós a entende, é geralmente boa, todas as coisas sendo iguais, mas com valores secundários. Devemos estar buscando (e falando sobre) a excelência, um padrão comum que desafia pessoas de todas as origens a alcançar seu potencial. Na escala dos fins desejáveis, a excelência sempre vence a diversidade.

Da mesma forma, além de apontar a desonestidade da narrativa histórica na qual se baseia a teoria racial crítica, devemos promover a verdadeira história da América – uma história honesta sobre as injustiças na história do país, mas que as coloca no contexto de nossos elevados ideais como nação e do progresso que fizemos para realizá-los. A história americana genuína é rica em histórias de realizações e sacrifícios que moverão os corações dos americanos, em total contraste com a narrativa sombria e pessimista pressionada por teóricos raciais críticos.

Acima de tudo, devemos ter coragem, a virtude fundamental exigida em nosso tempo: coragem para permanecer firmes e falar a verdade, coragem para resistir a epítetos, coragem para enfrentar a multidão e coragem para ignorar o desprezo das elites. Quando um número suficiente de nós superar o medo que atualmente impede tantos de se manifestar, o domínio da teoria racial crítica da raça começará a cair. 

E coragem gera coragem. É fácil parar um dissidente solitário; é muito mais difícil impedir 10, 20, 100, 1.000, 1 milhão ou mais que se levantam juntos pelos princípios da América. A verdade e a justiça estão do nosso lado. Se conseguirmos reunir coragem, venceremos.

Christopher F. Rufo é editor do City Journal, membro sênior do Manhattan Institute e escritor.

© 2021 City Journal. Publicado com permissão. Original em inglês.

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