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Samuel tinha 3 anos quando a guerra começou. Se lembra que a mãe o colocava em baixo do vestido, quando estavam escondidos no bosque, para ele se esquentar e não morrer de frio | Alexandre Mazzo/ Gazeta do Povo
Samuel tinha 3 anos quando a guerra começou. Se lembra que a mãe o colocava em baixo do vestido, quando estavam escondidos no bosque, para ele se esquentar e não morrer de frio| Foto: Alexandre Mazzo/ Gazeta do Povo
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Para se aprofundar

O holocausto contado pelos olhos de um menino de 9 anos. Esta é a narrativa do livro "O menino do pijama listrado". Trata-se de uma fábula para narrar como a guerra e as perseguições começaram e como as crianças reagiram diante de tanta maldade. Da janela do quarto, o menino Bruno vê uma cerca e, para além dela, centenas de pessoas de pijama listrado (ele não entende por que elas estão assim). Bruno foi levado da espaçosa casa para um lugar distante dos amigos. Aos poucos, ele tenta elucidar tantos mistérios.

O livro: "O menino do pijama listrado"

Páginas: 192

Preço sugerido: R$ 36

Autor: John Boyne

Tradutor: Augusto Pacheco Calil

Editora: Companhia das Letras

Policiamento

Os nazistas contavam com diversos tipos de polícia, que são citadas ao longo das matérias da série. Entenda o que fazia cada uma delas:

SS

É a sigla de Schutzstaffel e significa "Esquadrão de Proteção". Era a organização mais prestigiada do Terceiro Reich e foi responsável por executar a "Solução Final" (decisão de extermínio, em 1941, de todos os judeus). Era formada por um grupo "seleto" de combatentes "arianos": eles usavam uniforme todo preto para causar terror às pessoas. O hierarca nazista Heinrich Himmler foi o chefe nacional das SS (criada em 1923). Depois da guerra, as SS foram consideradas uma organização criminosa – alguns integrantes foram condenados à morte, mas muitos ficaram em liberdade.

Gestapo

Sigla de Geheime Staatspolizei (Polícia Secreta do Estado). Era uma subdivisão das SS. Foi usada como instrumento principal de tortura e terror aos perseguidos pelos nazistas. Foi a Gestapo que bateu na porta de muitas vítimas do Holocausto e, quando as levava presas, significava que essas pessoas perdiam todos os direitos civis e não estariam mais protegidas por nenhuma lei. Oficialmente, a Gestapo tinha liberdade absoluta de fazer com suas vítimas o que bem entendia. Era ela quem decidia quem iria morrer ou não e em que condições. Os homens da Gestapo não usavam uniformes (ficavam à paisana). Os campos normalmente eram dirigidos pelas SS.

SA

A primeira força paramilitar nazista era a SA (Sturmabteilungen) ou "Divisões de Assalto". Era um grupo "independente" e passou a ser visto como uma ameaça a Hitler, por isso foi substituído pela SS. O comandante Ernst Röhm tinha ideias que se chocavam com as de Hitler, então o Führer expurgou os integrantes da SA num episódio que ficou conhecido como "A noite das facas longas". Röhm e outros comandantes foram assassinados.

Fonte: Museu do Holocausto de Jerusalém (Yad Vashem).

Ao Brasil

Logo que terminou a guerra, as ví­­timas do Holocausto foram auxiliadas pelos exércitos dos países aliados, principalmente Estados Unidos e Inglaterra. As pessoas ficaram em aloja­­mentos até decidirem para onde gostariam de ir (eram ofertadas passagens para o país escolhido e também eram apresentadas algumas alternativas de migração. Para o Brasil, houve uma época em que só agricultores podiam entrar). O desejo da maioria era ir aos EUA; dos judeus era ir para Israel. No alojamento, recebiam cestas da Cruz Vermelha. Os judeus também puderam contar com a ajuda da organização internacional judaica chamada American Jewish Joint.

  • Samuel conta que sobreviveu ao nazismo graças ao irmão Marian, que fazia parte dos partisans (guerrilheiros)

Quando o pai de Samuel Grimbaum Burzgtyn soube que os judeus estavam sendo levados para campos de concentração, ele quis ir junto. Era um homem muito religioso e dizia que o seu desejo era acompanhar os judeus aonde quer que eles fossem. Essa foi a primeira vez que o irmão mais velho de Samuel, Marian, se posicionou contra as ideias do pai. "Na verdade meu irmão nos salvou. Ele decidiu nos esconder em um buraco perto da nossa casa até conseguir fugir conosco para um lugar mais seguro", conta Samuel.

No local onde estavam, porém, mesmo escondidos já era arriscado ficar. Os alemães andavam por todas as partes na pequena vila de Blinów (Polônia). Marian foi levado para um campo de trabalho forçado e conseguiu fugir duas vezes. Na última, levou a família para outra residência. Os 14, entre tios e outros parentes, ficaram escondidos em um fundo falso de um celeiro por alguns meses. Quando foram descobertos, fugiram para um bosque.

Marian decidiu então se juntar ao grupo de partisans (guerrilheiros) que existia na região e com eles lutar contra os alemães. Tinha 20 anos. Samuel, seu irmão caçula, tinha apenas 3 anos. "Ficávamos no bosque e às vezes em uma casa abandonada. Lembro-me de que nos dias de muito frio minha mãe me colocava embaixo do vestido para eu me aquecer e não morrer congelado", conta Samuel.

Foi no bosque, perto de onde ficavam os partisans, que Samuel e sua família viveram por cerca de oito meses. O irmão, Marian, ficava por perto, com os guerrilheiros. "Não podíamos ir lá com eles, mas às vezes meu irmão vinha nos ver e trazia alguma comida", diz Samuel.

Marian morreu em 2004. Segundo o que ele contava ao irmão Samuel, os partisans costumavam atacar os trens para matar os soldados alemães e saquear armas e comida. Em muitos desses trens havia prisioneiros poloneses e russos que, ao serem soltos pelos partisans, se integravam a eles. O grupo de Marian era coordenado por Avraham Bron. Começou com 50 guerrilheiros e terminou com aproximadamente 6 mil. Eles usavam minas nos trilhos do trem para descarrilar a máquina. Assim que o veículo parava, os partisans atacavam. Todo mundo que quisesse fazer parte dos partisans teria de ter uma arma.

Como Samuel era muito novo naquela época, suas lembranças da guerra são bastante pontuais. Uma delas, porém, marcou-o pela curiosidade. No dia em que os alemães atacaram os partisans, a família de Samuel correu para se esconder dentro de uma espécie de banhado. "Entramos ali e, para não sermos vistos, minha tia pegou vários cabos de uma flor grande, que eram ocos por dentro, e disse que era para colocarmos na boca o cabinho e por ali respirar quando estivéssemos submersos. Colocava aquilo na boca e ficava com a cabeça embaixo d’água." Samuel, porém, não aguentava mais os bichinhos que o atacavam. "Eles estavam nos comendo vivos e eu comecei a chorar. Minha mãe brigava para eu ficar quieto."

Outras cenas fortes mexem até hoje com ele quando retorna ao tema. Samuel e a família tiveram sorte ao não serem pegos pelos alemães quando se escondiam no bosque, mas os que estavam próximos e foram descobertos pelos nazistas não conseguiram se salvar. "Eu vi. Eles davam um ti­­ro no pescoço das crianças que pegavam e, se a cabeça não caía para o lado, eles jogavam o corpinho contra as árvores. São cenas difíceis de esquecer", conta emocionado.

O bosque foi a moradia de Samuel e da família até o fim dos ataques alemães na região. Quando estavam seguros, porque os nazistas já iam longe, eles decidiram ir embora do país. "A ideia era não ficar mais na Polônia, porque era como se pisássemos em sangue judaico. O solo estava manchado de crueldades." O irmão de Samuel, Marian, apesar de ter sido promovido a chefe da polícia em Lublin, resolveu ir com a família para a Bolívia, onde já vivia uma tia. "Fiquei durante 12 anos lá, mas sabia que perto de minha família não seria ninguém. Precisava caminhar por conta própria." Samuel veio ao Brasil e, depois de passar pelo Rio de Janeiro e Porto Alegre e não querer ficar em nenhuma das cidades por considerá-las muito grandes, veio a Curitiba, com a dica que pegou de um estranho na rodoviária de Porto Alegre. "Já não tinha mais dinheiro. Esse homem me pagou a passagem e garantiu que, se eu não gostasse de Curitiba, teria uma passagem de volta à Bolívia. Eu adorei a cidade assim que cheguei." Com a ajuda financeira do irmão, Samuel conseguiu comprar uma bicicleta e as primeiras peças de roupa para comercializá-las. Vendia de casa em casa até abrir a loja Samuca Modas, na Rua Riachuelo. É ali que ele bate ponto todos os dias, até hoje.

Grupos de guerrilheiros simbolizaram a resistência

Ainda hoje se questiona a reação dos judeus diante do que faziam os nazistas. A verdade é que a maioria deles não imaginava os desdobramentos do conflito, que culminaria com o Holocausto. É errado pensar, porém, que eles aceitaram tudo o que lhes foi imposto. Pelo contrário. Vários grupos guerrilheiros, indignados com a política "da raça pura", se formaram e se esconderam nas cidades e nos bosques e, sempre que podiam, atacavam tropas de soldados alemães. Eles foram chamados de partisans. Segundo informações do Museu do Holocausto de Jerusalém (Yad Vashem), eles eram mais numerosos na Europa do Leste, mas também existiram na França e na Bélgica. Os grupos de partisans judaicos, juntos, chegaram a ter cerca de 30 mil integrantes. Desse total, 10% foram mulheres, responsáveis, normalmente, por preparar a comida e por atender os feridos. Muitos dos integrantes se juntaram aos partisans depois de fugir de guetos ou de campos de trabalho forçado. Para se ter uma ideia, na Lituânia, eles foram responsáveis pela morte de 3 mil soldados nazistas.

Esses guerrilheiros costumavam ficar em refúgios subterrâneos ou escondidos em bosques. Para comer, dependiam da população, dos saques que faziam aos vagões de trens alemães e também contavam com a ajuda de a­viões soviéticos que lançavam a eles munições e comida.

Além dos partisans formados por judeus, existiram outros grupos guerrilheiros (e outros tipos de resistência), criados por comunidades locais e formados por pessoas de outras etnias.

Linha do tempo do Holocausto

1924: Hitler escreve seu único livro Mein Kampf (Minha luta), quando esteve preso. A obra se tornou a bíblia do nacional-socialismo e as vendas do livro explodiram em 1933, quando ele sobe ao poder.

(Fonte: livro LTI: a linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klemperer, tradução de Miriam Bettina Paulina Oelsner)

1933: Em 30 de janeiro Paul von Hindenburg, presidente da Alemanha, nomeia Hitler para o cargo de chanceler do Reich, incumbindo-o de formar um novo governo. O partido nazista chega ao poder. Na noite do dia 27 de fevereiro, um incêndio criminoso destrói o Reichstag, o parlamento alemão, em Berlim. O jovem comunista holandês Marinus van de Lubbe será condenado à morte pelo crime, na verdade praticado pelos nazistas.

(Fonte: livro LTI: a linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klemperer, tradução de Miriam Bettina Paulina Oelsner)

1934: Em 30 de junho ocorre a noite das facas longas (Nacht der langen Messer), quando as tropas da SS, comandadas por Himmler, assassinam o general Ernst Röhm, chefe da SA, e cerca de 1,2 mil correligionários seus, com a aprovação de Hitler. Poucas semanas depois morre o presidente Hinderburg. Hitler se proclama chanceler e presidente plenipotenciário da Alemanha, o Füher.

(Fonte: livro LTI: a linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klemperer, tradução de Miriam Bettina Paulina Oelsner)

1935: Começam os afastamentos e proibições de certos trabalhos a judeus. Victor Klemperer, por exemplo, é afastado do serviço público por ser judeu, no contexto de "purificação" nazista do Estado alemão.

(Fonte: livro LTI: a linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klemperer, tradução de Miriam Bettina Paulina Oelsner)

1936: Olimpíadas de Berlim. Qualquer vestígio de antissemitismo permanece ocultado.

(Fonte: livro LTI: a linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klemperer, tradução de Miriam Bettina Paulina Oelsner)

1938: Em 13 de março Hitler anexa a Áustria à Alemanha. Judeus são proibidos de frequentar bibliotecas públicas na Alemanha. Em 9 de novembro ocorre a Noite dos Cristais (Kristallnacht), com ataques generalizados contra judeus e sinagogas. (Fonte: livro LTI: a linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klemperer, tradução de Miriam Bettina Paulina Oelsner)

1939: O exército alemão invade a Polônia. Começa a Segunda Guerra Mundial.

1940: As casas dos judeus passam a ser confiscadas e alguns deles são obrigados a desempenhar trabalho forçado e gratuito aos alemães.

(Fonte: livro LTI: a linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klemperer, tradução de Miriam Bettina Paulina Oelsner)

1941: Todos os judeus são obrigados a portar a estrela amarela de Davi na roupa, sob risco de morte se não as portasse. Teria sido neste ano também que o termo "Solução Final" fora usado com o objetivo de exterminar todos os judeus europeus. Câmaras de gás móveis foram utilizadas: o cano de escapamento dos caminhões havia sido reajustado para liberar um gás letal, o monóxido de carbono, dentro dos compartimentos totalmente vedados na carroceria. Três campos de extermínio -- Belzec, Sobibor e Treblinka -- foram criados na Polônia com o objetivo único de facilitar o extermínio em massa.

(Fonte Museu do Holocausto de Washington).

1943: Em 31 de janeiro o exército alemão, sob o comando do marechal Friedrich von Paulus, se rende en Stalingrado. É um momento decisivo para a guerra, porque os alemães começam a perder força.

(Fonte: livro LTI: a linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klemperer, tradução de Miriam Bettina Paulina Oelsner)

1944: O general Claus Schenk, em 20 de julho, tenta matar Hitler, levando uma bomba para uma reunião com o Führer. O atentado falha e os cinco envolvidos são enforcados.

(Fonte: livro LTI: a linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klemperer, tradução de Miriam Bettina Paulina Oelsner)

1945: Acossado pela chegada do Exército Vermelho a Berlim, Hitler se suicida em 29 de abril, designando Goebbels como seu sucessor. Este se suicida no dia seguinte, junto com a maior parte dos principais assessores. A Alemanha se rende em 8 de maio.

(Fonte: livro LTI: a linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klemperer, tradução de Miriam Bettina Paulina Oelsner)

1949: A República Federal Alemã (Alemanha Ocidental) e a República Democrática Alemã (Alemanha Oriental) são proclamadas oficialmente.

1989: Cai o Muro de Berlim.

1990: A Alemanha é reunificada.

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