
As mães de hoje amamentam por mais tempo do que as que deram à luz há 26 anos. O nível de escolaridade também melhorou, assim como a assistência no pré-natal e o desenvolvimento psicomotor dos bebês. Em contrapartida, as gestantes têm ganhado mais peso do que as mães da década de 80, têm tido menos filhos e têm passado mais por cesarianas e partos induzidos, o que teria contribuído para um aumento no número de nascimentos prematuros.
Todas essas mudanças no perfil da saúde de mães e bebês foram apontadas por um estudo desenvolvido na Universidade Federal de Pelotas. Durante 22 anos, os pesquisadores rastrearam 15 mil nascimentos ocorridos nas cinco maternidades da cidade em busca de um perfil epidemiológico que diagnosticasse as mudanças relacionadas à saúde materna e neonatal (ver quadro acima). Para isso, foram escolhidos três anos específicos, com um intervalo de 11 anos entre eles: 1982, 1993 e 2004.
O aumento no tempo médio de aleitamento materno foi um dos pontos positivos demonstrados pelo estudo. Em 1982, as mães amamentavam em média por um período de 3,1 meses. Em 2004, essa média passou para 6,8 meses. O aleitamento exclusivo durante os primeiros três anos de vida, praticamente inexistente em 1982, já beneficiava um terço dos bebês em 2004. Apesar das melhorias, o índice continua abaixo das recomendações internacionais.
Para um dos coordenadores do estudo, o professor Aluísio Barros, do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da Universidade Federal de Pelotas, esse comportamento é resultado de campanhas educacionais realizadas na mídia e nos serviços de saúde. "A atenção básica às gestantes foi melhorada e o nível de escolaridade delas também cresceu. Acredito que a proibição de propaganda de leite artificial para lactentes no primeiro ano de vida também deve ter contribuído", afirma.
A advogada Renata de Pauli, 46 anos, teve a filha, Daniela, em 1982. Na época, com apenas 20 anos de idade, ela amamentou o bebê por apenas dois meses. "Acho que faltou orientação. Naquela época não havia campanhas e eu não tive muita paciência", lembra. Daniela nasceu de parto normal. "Acho um absurdo isso que acontece hoje de escolher a data para a cesária apenas por capricho", comenta.
Já a pedagoga Juliana Muller Sabbag, 25 anos, teve o filho, Bernardo, em 2004. Assim como mostrou a pesquisa, ela dedicou muito mais tempo ao aleitamento materno do que Renata. "Amamentei por um ano e dois meses. Sei da importância do leite materno para o bebê, sem falar no vínculo que você cria com a criança ao amamentar", diz.
Outra questão levantada diz respeito ao aumento na taxa de internação de bebês nascidos com menos de dois quilos. Em 1982, 41% dos recém-nascidos foram internados pelo menos uma vez ao longo do primeiro ano de vida. Em 2004, esse número passou para 73%. Os pesquisadores atribuem o aumento a "uma epidemia de nascimentos prematuros", que por sua vez poderia ser explicada pelo crescimento nas taxas de cesarianas e partos induzidos.
Para a vice-presidente do departamento de neonatologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, Jucille Meneses, a interrupção da gravidez a partir da 34ª semana é uma prática que se tornou freqüente no Brasil. "É comum que os médicos decidam induzir o parto ou fazer uma cesariana antes da 37ª semana. Isso às vezes tem indicação médica, mas a comodidade de não ter de lidar com o imprevisto do bebê nascer de madrugada é algo que também pesa na decisão."








