Afinal, quem somos nós para julgarmos alguém? Escrevo acerca de um fato que virou notícia, a detenção do rabino Henry Sobel nos EUA... E a ressonância do acontecido inegavelmente decorre da notoriedade do acusado, principalmente no cenário brasileiro, onde ele atua há cerca de 35 anos.
Convido-os, porém, a pensar nele apenas como cidadão. À luz do Direito ele não podia fazer o que fez, mas o que o teria levado a esse gesto aparentemente despropositado? E se é que fez, fica outra indagação: essa atitude ilegal (acho pesado demais dizer "criminosa"!) por acaso desmerece a sua obra, o seu trabalho espiritual, a sua vida dedicada à humanidade?
Conheci o rabino Henry Sobel pessoalmente. Estivemos juntos em São Paulo em pelo menos três eventos, ambos na condição de conferencistas de direitos humanos. Ele é amigo de vários amigos meus da área intelectual, dentro os quais posso citar o cardeal dom Paulo Evaristo Arns e o professor Antônio Carlos Ribeiro Fester. Portanto, sei de sua trajetória pessoal e profissional. Não sou judeu, não sou israelita, mas respeito o trabalho por ele realizado e nos identificamos na luta pelos direitos humanos. Considero-me um humanista e essa designação também a ele se aplica. Preocupa-nos, a ele e a mim, a sorte dos povos, a dignidade individual e a consolidação da paz, dentre outros temas relevantes.
Li a mesma notícia que vocês leram e fiquei refletindo o absurdo da situação. Sabemos de tantos políticos e empresários corruptos no país, locupletando-se em detrimento da coletividade; vemos inúmeros parlamentares serem absolvidos nas CPIs do Congresso, do mensalão e outros aumentativos; tomamos ciência de acusações pesadas de compra de votos em eleições recentes e vemos os acusados serem inocentados e até mesmo promovidos; crescem as críticas a governadores e prefeitos deste país pelo fato de portarem-se como ditadores provincianos e de perseguirem os oponentes políticos; repetem-se na mídia as denúncias contra policiais e outros agentes do serviço público por corrupção, abuso de poder e/ou cumplicidade com o crime organizado, muitos deles ainda premiados com altos cargos em escalões da administração pública; e a poeira do esquecimento parece pairar sobre as acusações de feitos no mínimo antiéticos ou omissivos de antigos e novos freqüentadores dos corredores palacianos dos Poderes Executivo e Judiciário. E tudo isso sem mencionar os criminosos de colarinho branco e mesmo sem colarinho.
Pois bem, diante de tantas perversidades que me deixam cada dia mais indignado, recebo surpreso, e ainda incrédulo, a notícia de que Henry Sobel é preso por furtar quatro gravatas em Palm Beach, nos Estados Unidos e por isso fichado e possivelmente, indiciado.
Claro, se constatada a veracidade da notícia, não posso isentar o rabino Sobel da responsabilidade do seu ato. Só que o constrangimento por que ele passou e a divulgação midiática desproporcional do fato vai impingir-lhe seqüelas tamanhas que eu me pergunto quem irá apagar depois a "mancha" que ficará sobre sua respeitável figura pública de líder religioso e de militante dos direitos humanos? Complicado sim, e uma verdadeira lástima! Enquanto isso, a maior parte daqueles a quem me referi acima anterior continua, de uma forma ou de outra, usando e abusando da máquina pública e/ou iludindo o povo brasileiro. E podem acreditar, caros leitores, talvez eles sejam os primeiros a tentar atirar pedras em Henry Sobel.
Na vida somos todos ao mesmo tempo santos e pecadores. Por isso mesmo, no fundo o que mais importa é buscarmos fazer o bem, semear a paz, respeitar e exigir respeito, viver do trabalho honesto e praticar a solidariedade com o próximo. Ninguém está isento de cometer uma falha ou um "pecado". Afinal, errar é humano. Só que os bons lutam para retomar a jornada do bem e da justiça, e com certeza esperam, mesmo que lhes chamemos a atenção por ocorrências inadequadas, que nós na verdade lhes estendamos a mão. Longe de apedrejarmos o rabino Sobel, oremos por ele ou torçamos para que ele supere o episódio e não deixe de ser o homem íntegro que sempre foi. E que ninguém o crucifique, seja porque não merece, seja porque não se lhe pode imputar qualquer pecha sem que tenha exercitado todo o seu direito de defesa. Ao Henry Sobel... a minha permanente solidariedade!
Em tempo: o rabino Henry Sobel foi solto em 24 de março, após pagar fiança por ter sido incriminado de furtar quatro gravatas nos Estados Unidos.
Wagner Rocha DAngelis é professor universitário e presidente do Centro Heleno Fragoso pelos Direitos Humanos e da Associação de Juristas pela Integração da América Latina (Ajial).



