Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Penas de até 14 anos

Três anos do 8/1: mais de 100 pessoas seguem presas e centenas ainda podem ser condenadas

Entre os presos há ao menos 20 idosos, cinco mães de menores de idade e duas pessoas com doenças raras
Entre os presos há ao menos 20 idosos, cinco mães de menores de idade e duas pessoas com doenças raras (Foto: Arquivo pessoal/Asfav)

Ouça este conteúdo

Três anos após os atos de 8 de janeiro de 2023, ao menos 101 pessoas seguem presas em penitenciárias do país, 36 em prisão domiciliar e mais de 230 com mandado de prisão em aberto, podendo ser encarceradas a qualquer momento, se localizadas pela Polícia Federal (PF). Entre os presos há ao menos 20 idosos, cinco mães de menores de idade e duas pessoas com doenças raras. Os dados são de uma pesquisa independente coordenada pela analista de inteligência de dados Pérola Tuon, de 49 anos, em parceria com o site Bureau de Comunicação, especializado em informações do 8/1.

Segundo a analista, apesar do cuidado na coleta das informações, os números não são exatos devido à dificuldade para obter dados de processos sob sigilo no Supremo Tribunal Federal (STF).

Além disso, a jornalista Ana Cemin, responsável pelo site sobre o 8 de janeiro, informa que outras 253 pessoas foram julgadas no final de 2025 e deverão ter prisões emitidas em breve. As penas, de acordo com Cemin, são de aproximadamente 14 anos, com raras exceções. Com esses novos julgamentos, o número de envolvidos no 8/1 com pedidos de prisão em aberto deve se aproximar de 500.

“Isso fora centenas de pessoas que ainda aguardam julgamento e ainda novas denúncias que apareceram recentemente, ou seja, processos abertos agora, três anos depois do 8/1, para investigar mais gente”, revela Ana.

“Essas pessoas estão sendo esmagadas”, apontou, ao citar que basta alguém ter colaborado com a organização de um ônibus do 8 de janeiro para se tornar alvo de investigação. “Eles podem ser transformados em réus, julgados e condenados por cinco crimes que somam até 14 anos de prisão”, explica.

Há 20 idosos presos; professora aposentada de 72 anos está entre eles

Ainda segundo a pesquisa independente, entre os encarcerados atualmente há 20 idosos acima de 60 anos. Entre eles está a professora aposentada Iraci Megumi Nagoshi, 73, que teve prisão domiciliar revogada em julho de 2025 após supostamente descumprir medidas cautelares.

Familiares informaram à Gazeta do Povo em agosto que a idosa teria dividido cela com cinco presas comuns, passado frio e dormido no chão. Ao ser levada à prisão,ela estava com o braço engessado devido a um deslocamento no cotovelo.

Em novembro, de acordo com o filho Newton Nagoshi, dona Iraci também sofreu uma queda na Penitenciária Feminina de Sant’Anna, em São Paulo, e seus familiares precisaram levar um andador para que pudesse caminhar. “Ela havia caído e não estava conseguindo andar”, relatou Newton.

O deputado Gil Diniz (PL-SP) visitou professora naquele mês e fez um apelo nas redes sociais: “Foi uma visita que dilacerou meu coração por ver uma patriota presa sem ter cometido crime algum”, escreveu. “Dona Iraci tem vários problemas de saúde, entre eles diabetes, e precisa de tratamento. Ela precisa estar próxima de sua família”, disse, ao afirmar que “todos os presos [do 8/1] merecem retornar para seus lares”.

Quantos envolvidos no 8 de janeiro foram presos até hoje?

Segundo informações disponibilizadas no site do STF, no total foram presas 1.345 pessoas nos dias 8 e 9 de janeiro de 2023. No entanto, a pesquisa independente coordenada por Pérola Tuon aponta que esse número seria maior: pelo menos 1.404 pessoas encaminhadas ao Complexo Penitenciário da Papuda ou à Penitenciária Feminina do Distrito Federal — conhecida como Colmeia.

A analista também acompanhou movimentações do âmbito da Operação Lesa Pátria, realizada ao longo dos últimos três anos para apurar possíveis financiadores dos atos, e conseguiu registros de 364 réus. De acordo com ela, muitos ficaram encarcerados por períodos que variam de dois meses a dois anos, e alguns seguem nas penitenciárias do país até hoje.

“No entanto, a separação individualizada entre quem foi preso, quem permaneceu sob monitoramento eletrônico e quem respondeu em liberdade é extremamente trabalhosa”, informa, ao pedir que parlamentares contratem pessoas para realizar esse trabalho e orientar as famílias e advogados.

A jornalista Ana Cemin também ressalta que muitas pessoas que acampavam em frente ao Quartel-General do Exército (QG), em Brasília, têm sido investigadas e condenadas por até cinco crimes, que chegam a 14 anos de pena, mesmo após terem assinado e cumprido o Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) proposto pela Justiça para que tivessem seus processos encerrados.

“Eles cumpriram todas as exigências como curso e multa, mas quando o Ministério Público (MP) falou que estavam na Praça dos Três Poderes, os acordos foram negados”, relata, ao citar que “bastou uma foto na praça para que fossem tratados como golpistas”.

Para a analista Pérola, o 8 de janeiro tem sido julgado de forma desproporcional, e foi por isso que ela decidiu dedicar seu tempo voluntariamente para acompanhar os casos. “Manifestações públicas com episódios de violência mais graves já ocorreram antes no Brasil, sem consequências penais coletivas para os manifestantes”, disse.

A reportagem tentou contato com o STF para solicitar dados atualizados referentes aos envolvidos 8/1, mas recebeu números de agosto de 2025. A assessoria informou que novos dados devem ser divulgados em breve.

Ainda segundo o Supremo, até o encerramento do ano judiciário, a Primeira Turma condenou 810 pessoas, sendo 395 por crimes mais graves e 415 por crimes menos severos, além de 14 absolvições. Também foram homologados 564 acordos de não persecução penal, que resultaram no ressarcimento de aproximadamente R$ 3 milhões destinados à reparação de danos materiais causados no 8/1.

Advogados esperam mudanças com a Lei da Dosimetria e pedem que deputados visitem os presos do 8/1

Para o advogado Ezequiel Silveira, da Associação dos Familiares e Vítimas do 8 de Janeiro (Asfav) a aprovação da Lei da Dosimetria pela Câmara de Deputados e Senado em dezembro de 2025 tende a reduzir as penas dessas pessoas, mas ainda aguarda sanção ou veto presidencial.

“Depois disso, uma eventual análise de veto por parte do Congresso, entrada das revisões criminais pelos advogados e a apreciação desses casos pelo STF”, explica, ao informar que pode demorar meses até que a lei seja aplicada. “Então, esperamos avanços para uma anistia total ou para anulação dos processos, além de uma condenação do Estado brasileiro nos órgãos de defesa como a Comissão Interamericana de Direitos Humanos”, continua.

Enquanto isso não acontece, advogadas como Taniéli Telles, do Instituto Gritos de Liberdade, seguem visitando os presos do 8/1 e pedindo ajuda. “Hoje visitei o Complexo Penitenciário de Nelson Hungria, Minas Gerais, um dos lugares mais terríveis que já adentrei”, escreveu a advogada nas redes sociais na última terça-feira (6).

Segundo ela, nessa penitenciária com criminosos “se gabando” por seus crimes, estão dois presos do 8 de janeiro: Claudinei Pego, preso há três anos, e José Cezar, encarcerado há um ano e meio.

“Quais seus crimes? Manifestaram sua indignação sobre uma desconfiança de fraude nas eleições. Não depredaram patrimônio público, não roubaram, não mataram, não estupraram”, afirmou Taniéli, ao relatar que eles estão esquecidos e suas famílias, perecendo.

“Deputados, Senadores, olhem para essas pessoas, olhem para as milhares de famílias invisíveis dos réus do 8 de janeiro. Venham até aqui”, convidou a advogada, ao pedir que os parlamentares usem as estruturas de seus gabinetes para ajudar quem não tem mais nada. “Isso não é sobre política, mas sobre dignidade humana. É sobre pais, mães e crianças que estão pagando um preço alto demais”, finalizou.

VEJA TAMBÉM:

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.